domingo, 11 de novembro de 2018

"POR UM DEUS QUALQUER" nono livro ainda não terminado


 

domingo, 11  DE NOVEMBRO DE 2018

"POR UM DEUS QUALQUER" (nono livro)

 

        

 

 

 

Ele caminhava tristemente pela calçada que margeia a praia de Santos, no bairro da Ponta da Praia. Ele sofria de depressão. Naquele dia seu mal parecia estar em seu pior momento. Seu instinto de sobrevivência parecia tê-lo abandonado. Caminhava sem um objetivo. A vida de nada lhe servia e a morte parecia não o querer. Um negro manto parecia querer envolvê-lo, o manto do pânico, da insegurança e da desesperança. Esta, então, aumentava a cada dia, solidificando o seu sofrimento e parecendo querer confirmar a sua inutilidade como ser vivente. Para quaisquer outras pessoas normais, o dia estava lindo, um sol maravilhoso que amenizava o friozinho de final de outono, mantinha as pessoas felizes nas areias largas daquelas lindas praias de Santos. Geraldo era seu nome. Dezoito anos de idade... dezoito anos de incompreensível desaproveito da vida... dezoito anos de muitas derrotas e frustrações em escolas, muitas derrotas e decepções em tentativas de empregos com culminantes e precoces demissões. A família o criticava e o reprovava e, na maioria das vezes, com humilhantes e agressivas desclassificações que o fechavam dentro de si e o impediam de olhar para fora, para a beleza da vida e para a necessidade de sobrevier.  Há vários dias não saía do quarto, não se banhava, não se alimentava, não atendia aos desesperados chamados de sua mãe batendo na porta de seu quarto que ele simplesmente desconhecia.  Geraldo não conseguia entender os conflitos de seu pensamento... ao mesmo tempo que tinha vontade de correr até a sua mãe e seu pai, abraçá-los, beijá-los, pedir perdão pela sua inutilidade, outra força maior lhe convencia que o melhor seria se esconder. Por várias vezes planejou se matar, mas, como filho único, ninguém ficaria para amenizar a dor de seus genitores que ele amava, mas não conseguia fazer com que esse amor lhe abrisse a cortina da vida. Amigos... os perdera todos com o passar dos anos. Namoradas ainda não as tivera. Hoje acordou muito cedo. Seu quarto, sem ser trocado há muitos dias, cheirava mal e, muito mal... como também se sentia malcheiroso, fedido mesmo. Há vários dias sem se alimentar, não tinha fome. Ao abrir a porta de seu quarto, sentada em uma cadeira, sua mãe cochilava o sono do amor e da esperança que aquela porta se abrisse em algum momento e, como mãe, responsável direta da existência de seu filho, não poderia deixar de ali estar. Geraldo se assustou. Estava um pouco emagrecido, cabelos e barbas por cortar. Instintivamente, mas, tão frio quanto sem amor, abraçou e beijou a sua mãe, que, acordou e respondeu ao abraço e ao beijo sem demonstrar a dor que mal lhe cabia no peito. Não sabia ela que seu filho Geraldo saíra do quarto no ápice de sua inutilidade neste mundo de um DEUS QUALQUER e, iria se matar naquele dia. Inteligentemente, para deixar parecer que fora um acidente e, não um suicídio, para amenizar a dor e a provável culpabilidade que familiares e a sociedade pudessem tentar jogar em seus pais que ele tanto amava, ele pediu à sua mãe que lhe  

 

 

 

                                                                                                                                            

 

preparasse algo para lhe aplacar a fome, foi para o banheiro, desfez a barba e, embora com certa imperícia, cortou seu cabelo e tomou um perfumado banho . Vestiu a roupa mais bonita que enfeitava seu guarda roupa e caminhou até a sala e sentiu a felicidade de seu pai ao vê-lo tão belamente transfigurado. Mas o brilho de seu olhar se perdera e Geraldo não sabia onde encontrá-lo. Abraçado à tristeza de seu pai caminharam até à cozinha onde um delicioso cheiro do lanche que pedira se misturava à momentânea felicidade de sua mãe que o esperava. Sentaram-se os três e, com esperanças e pensamentos instáveis e desencontrados, comeram tentando demonstrar que seria o começo de uma normalidade, embora, normalidades anteriores não tivessem se concretizado. Seu pai o convidou a tomar um vinho, dos melhores de sua adega. Geraldo aceitou. Brindaram e Geraldo, como também seu pai, repetiram outra deliciosa taça daquele vinho seco tinto.

 

                Escovou seus dentes, usou um delicioso perfume e falou para seus pais que iria sair. Queria ver a rua que há muito não via. Eles o incentivaram a sair. A vida estava lá fora e, como era bela. Geraldo beijou secamente seus pais embora soubesse que seria a última, pois, saíra para se matar.  Apenas arquitetava uma forma de parecer um acidente para amenizar a dor de seus pais.

 

                Sempre confiantes na misericórdia divina, seus pais o abençoaram, lhe desejaram um bom passeio e, por longo tempo, Geraldo caminhou pelos belos jardins das praias de Santos, atravessando bairros e bairros até chegar na Ponta da Praia. Toda aquela beleza que atravessava ele não a via. Não conseguia desviar seu olhar de dentro de sua enorme incapacidade de viver e da gigantesca tristeza da alma que insistia em querer sair de seu corpo imprestável. Parou em um semáforo e ficou observando. Estava esperando um carro que viesse em alta velocidade para pular à sua frente e resolver o seu drama que todos tentavam explicar sem nada dele entender. Neste instante, sentada na muralha da praia, uma linda moça o observava. Um rosto belo segurando um lindo sorriso de largos dentes brilhantes, um curto short branco que deixavam à mostra lindas pernas amorenadas pelo sol praiano, dobradas nos tornozelos e repousadas em cima da mureta, terminadas em lindas, sensuais e arredondadas nádegas como se fora de uma deusa, Chamava-se Iolanda. Ela parecia ter no máximo quinze anos e, já o observava há tempo. Sentiu que não estava bem. Estaria alcoolizado? Ou drogado? .... Não, não... parecia doente. Descruzando as lindas pernas desceu da mureta e, em silêncio, parecendo adivinhar que palavras ele já as ouvira demais, abraçou-o carinhosamente e com força terapêutica pelas costas. Sem muito querer entender, ou sem poder entender, Geraldo não evitou aquele abraço. Segurou aquelas lindas mãos que entrelaçavam seu abdome e, em silêncio, sentiu bater mais forte o seu coração... ele não se deu ao trabalho de tentar entender o sentido daquele abraço e, ela, também não sabia dizer porque o teria feito. Mas, mesmo sem saber porque o fizera, fortemente abraçada às suas costas, ela também pode sentir as fortes batidas de seu coração. Ficaram em silêncio por algum tempo, na verdade, por um longo tempo. Iolanda resolveu dar um passo para trás que ele acompanhou... e outro que também foi acompanhado por ele! E depois outro passo para trás e, outro e, outro sempre acompanhado por ele, até que ela sentiu a mureta às suas costas. Geraldo se virou e olhou dentro dos olhos dela. Iolanda observou que os olhos dele eram mortos, sem vida, pareciam não olhar o mundo, pareciam olhar retrogradamente, fixavam-se no nada, na inverdade, no medo, no pânico, na desnecessidade de aqui estar, na desnecessidade de viver. Enquanto os olhos de Iolanda eram cheios de vida, brilhantes e buscadores de sempre ajudar, apesar de ter apenas quinze anos de idade. Quinze anos de idade, pouco mais que uma criança e, impensadamente, abraçou aquele corpo desconhecido que estava na iminência de se matar. Mas, em nenhum momento que o abraçava o fez por este motivo e, nem mesmo, na verdade sabia que o fazia e, mais, por que o fazia. Apenas o fez levada por um impulso impossível de se desobedecer. Friamente ele tentou se livrar dela e, sem entender que força a levava a fazer isso, Iolanda o agarrou e o beijou fortemente na boca um beijo que ele não correspondeu, livrando-se dela e voltando na direção de sua casa. Iolanda, também sem entender e, muito menos, sem querer entender correu atrás de seu desconhecido, sem ser notada, até vê-lo entrar em seu prédio. Depois que ele subiu pelo elevador, Iolanda entrou no prédio e pediu para falar com os pais dele, mesmo que fosse por interfone. A mãe não concordou em falar pelo interfone e não aceitou que ela subisse, mas, ela pediu que Iolanda a esperasse e desceu apressadamente. E assim o fez, desceu rapidamente. Ao chegar, educadamente e, com esperança de boas notícias e boas vidas para seu filho, começou a interrogar a desconhecida menina moça. Helena, a mãe de Geraldo, como se fosse velha conhecida, em lágrimas desentendidas, abraçou a menina Iolanda e, em soluços fazia perguntas repetidas sem esperar ou, talvez, sem querer ouvir as respostas, sobre o que acontecera. Mas Iolanda, a que menos sabia de tudo, e a que menos idade tinha para se preocupar em entender, falou com mais segurança:

 

                ­__Calma, calma, minha senhora. Qual é mesmo o seu nome? E qual o nome de seu filho?

 

                __Oh! Minha querida! Desculpe-me a minha aflição. Meu nome é Helena. Meu filho se chama Geraldo e, desde criança, tem uma depressão que nenhum medicamento conseguiu curar. Ele só fala em se matar. Sempre que sai de casa ficamos esperando uma notícia ruim. Já tentamos não o deixar sair sozinho, mas, acredite, ele deixa de sair e se prende no quarto e fica dias sem banho, sem se alimentar e, a cada dia, mais descontente com a vida e mais amante da morte.

 

                __Ouça bem! Eu estava sentada na mureta da praia no bairro da Ponta da Praia quando ele chegou lentamente, cabisbaixo e, tristemente, se posicionou na calçada, onde se inicia a faixa de pedestres. Ali ficou por um longo tempo. Os olhos fixos no nada, parecia esperar algo ou alguém. Várias oportunidades de atravessar ele teve e não o fez. Sem eu bem entender, uma força estranha pareceu me ordenar que o segurasse pelas costas. Eu o fiz leve e carinhosamente e ele não se opôs. Pareceu gostar de meu abraço. A passos lentos, caminhando para trás, eu consegui me encostar na mureta da praia, abraçando-o pelas costas. Por algum tempo, sei lá quanto, ali ficamos até que ele se virou e, com olhos aparentemente mortos, olhou-me profundamente dentro de meus olhos e, instintivamente, sem pensar e sem saber porque, outra força desconhecida fez com que eu o beijasse na boca. Foi o meu primeiro beijo na boca de um homem. Ele aceitou o beijo, mas não correspondeu, me empurrou e saiu correndo. Talvez eu tenha agido mal. Ele não me conhece, como também não eu. Fiquei preocupada e o segui com medo que ele tentasse em outro lugar. Desculpe-me importunar. Eu não sabia que vocês soubessem.

 

                __Não, não, minha querida. Obrigado pela sua preocupação. Pelo menos por enquanto você o salvou da morte.

 

                __Por favor, dona Helena, não conte ao Geraldo que eu estive aqui. 

 

                Na tarde seguinte, uma tarde talvez uma das mais belas que Deus havia preparado ali naquele paraíso de praias lindíssimas e turismo sadio, Iolanda passeava de bicicleta e, qual não foi a sua surpresa ao ver quem estava sentado no mesmo lugar que ela estava no dia anterior. Era Geraldo. Na mesma posição que ela sempre gostava de se sentar. Pés sobre a mureta, joelhos curvados e tornozelos cruzados. Deu meia volta na bicicleta e parou ao seu lado. Continuava triste, mas Iolanda já notara uma vida diferente em seu olhar. Chegou a sorrir, desceu da mureta e abraçou Iolanda e, desta vez, ele é que a beijou. O que ouve de diferente é que Iolanda respondeu ao beijo como se fosse uma dose terapêutica para um mal que parecia querer se curar. Ela desceu da bicicleta e a recostou na mureta e nela, na mureta, ela se sentou à frente dele. Neste instante, ao lado da calçada, parou uma viatura da polícia civil e recolheu a bicicleta de Iolanda por estar pedalando em cima da calçada. Geraldo tentou, em vão, conversar com o guarda e a bicicleta foi levada e, com Iolanda, ficou a notificação com endereço onde retirá-la, após pagar a multa já estipulada, em um Banco oficial já relacionado no boletim de ocorrência. Iolanda começou a chorar copiosamente, mas, com firmeza de decisão, Geraldo a tranquilizou e, tomando da mão dela o boletim, pegou em sua mão e a conduziu até o estacionamento onde estava a moto dele. Ela teve, inicialmente, medo de pegar, pela primeira vez, carona em uma moto, principalmente em uma moto de um suicida. E, mais interessante, é que ele tinha em sua moto um capacete de carona e, não passou despercebido, era um capacete cor de rosa, de mulher... foram até um banco, Geraldo fez questão de pagar a multa da bicicleta e, depois de paga, foram até o endereço do depósito e, conseguiram retirar a bicicleta. Permaneceram por muito tempo no estacionamento do depósito, conversaram muito e, a cada minuto se sentiam mais presos um no outro.  Combinaram de sair à noite. Geraldo a buscaria em casa, de moto. Tomariam um sorvete e aproveitariam para se conhecerem melhor. E, assim foi feito. Na hora marcada Geraldo tocou a campainha da casa de Iolanda. A mãe dela veio abrir a porta e, com interrogável desconfiança no olhar o mandou entrar e se sentar pois, Iolanda ainda não estava pronta.  E, nesta hora, chega o pai de Iolanda e começa a conversar.

 

                __Boa noite, Geraldo.

 

                __Boa noite senhor! Muito prazer! Qual é o seu nome? O senhor, naturalmente deve ser o pai de Iolanda, não?

 

                __O prazer é meu. Eu me chamo Spadaro...

 

                Quando ia completar sua fala, Spadaro foi interrompido por Iolanda que entrou na sala, lindamente vestida e, completou:

 

                __Boa noite, Geraldo. Seja bem-vindo à minha moradia. Você perguntou se Spadaro é meu pai. Ele e Samara (e abraçou a senhora) são meus pais sim, não temos outros familiares. Estes são muito mais que meus pais. Eles me adotaram quando eu era uma criança de três anos. Já que começamos a namorar é bom que você saiba de minha história. Você será a primeira pessoa a saber destes fatos. Meus pais não gostam e, sempre me proibiram de contar...

 

                Samara a interrompeu dizendo...


                __Sim minha filha, depois que você me contou a história de Geraldo, sem lhe pedir licença para isso, eu mesma vou contar, pela primeira vez, a sua história, minha querida.  Você me disse que vocês estão quase namorando, por isso, ele pode saber. Geraldo, há muitos anos atrás um lindo casal de espanhóis chegou em nossa fábrica pedindo emprego. Eram muito novos e haviam chegado ao Brasil clandestinamente. Fugiram de Madri pois os pais dela não permitiam que ela namorasse alegando ser ainda muito jovem e, era mesmo muito jovem aquela menina. Ele era bem mais velho, cerca de oito anos mais velho e, pior, não tinha nenhuma profissão. Fugiram em um navio cargueiro, escondidos no meio da carga. Trouxeram na bagagem apenas biscoitos, barras de frutas cristalizadas, barras de chocolate e água. Mas, não podiam carregar muita coisa e, o que trouxeram, acabou antes dos dezoito dias de viagem. Chegaram à nossa fábrica, desnutridos, desidratados, mas sem perderem a certeza que tinham o direito de lutar para ficarem juntos... eu podia ver isso nos olhos deles. Eu e meu marido sentimos uma profunda necessidade de ajudá-los. Demos a ele emprego de vigia noturno da fábrica e, a ela, um emprego de doméstica em nossa casa. Por acaso, o vigia noturno tinha sido despedido. Improvisamos um quarto com banheiro nos fundos da fábrica e os deixamos ali morar. Ficamos inicialmente com medo, mas o fizemos por dois motivos: primeiro, seus olhares transmitiam honestidade e confiança e, segundo, há muitos anos atrás aqui chegamos fugindo da guerra em nosso país. Nosso caso era diferente pois fomos recebidos como imigrantes e todos os nossos parentes haviam morrido na guerra. Mas, também chegamos sem emprego, sem moradia e, só depois de muita humilhação e procura é que conseguimos trabalho. Com muita luta e dedicação conseguimos crescer e montar esta fábrica de embalagens que hoje é uma das maiores do Brasil. Os pais de Iolanda se tornaram nossos melhores funcionários e, ambos, logo, logo mudaram de função e melhoraram a cada dia a sua condição financeira, mas pediram para continuarem na moradia improvisada no fundo da fábrica até economizarem o bastante para montarem seu próprio negócio. Eles tentaram, em vão, contato com suas famílias na Espanha sem sucesso. Foram desprezados por terem fugido.  Dois anos depois nasceu Iolanda e, nos tornamos uma família muito unida, já que nem eles, nem nós, tínhamos uma. Quando Iolanda tinha três anos, pela dedicação e pela intensa amizade que nos unia, eu e meu marido resolvemos dar ao casal uns dias para se curtirem sozinhos em um recanto qualquer deste Brasil maravilhoso. Pelo computador a mãe de Iolanda quis conhecer Manaus e para lá viajaram com nosso patrocínio. Eles mereceram. A pequena Iolanda com três aninhos, ficou aos nossos cuidados. No final do passeio, voltavam em um avião para o Rio de Janeiro. Fariam uma escala em Brasília, mas o sonho foi interrompido por um jato que viajava para os Estados Unidos que neles bateu e, na região amazônica do Mato Grosso, o avião em que estavam caiu e ninguém sobreviveu. Esta menina, Geraldo, sofreu muito querendo seus pais. Sempre chorava perguntando por eles. Ela tem parentes na Espanha, mas que nunca aceitaram seus pais e se distanciaram definitivamente. Há doze anos morreram os pais de Iolanda e nunca tivemos notícias deles. Nós não conseguimos ter filhos e, já amávamos Iolanda e nos dedicamos inteiramente a compensar a sua tristeza, a sua infelicidade pela perda de seus pais. Nós a amamos muito e, veja bem, ela ainda é uma criança e, embora ela saiba muito bem se defender sozinha, nós estamos de olho em quaisquer pessoas que lhe possam fazer mal.

                __Dona Samara, sr. Spadaro. Sou filho único. Amo meus pais e eles sofrem muito com minha depressão. Tenho dezoito anos e nunca consegui ser feliz. Demoro muito a dormir atormentado por pensamentos suicidas. Por algumas horas eu durmo, às vezes até com um sono tranquilo e sonhos de onde buscar a felicidade que eu ainda não tivera, mas, acordo como dormira, sem sentido de vida, sem despertar de meu instinto de sobrevivência, com a certeza de ter que sair da vida... a única coisa que ainda me mantém vivo é saber que meus pais vão sofrer muito. Eu sempre fui dormir querendo não acordar. Eu sempre quis morrer, mas sem parecer suicídio, pois, certamente, isto iria parecer mais doloroso para meus pais. Certo dia, depois de deixar meus pais na certeza que estava mudado e que estava saindo apenas para passear, fiquei parado, na calçada, na faixa de pedestre com a intenção de pular na frente de um carro que viesse em alta velocidade, o que, certamente, pareceria um simples atropelamento. Nesta hora, delicadamente, eu fui impedido por Iolanda que, sem dizer nenhuma palavra que pudesse parecer mais um conselho, iguais às dezenas deles que ouço todos os dias, conseguiu mudar meu pensamento e, mais, despertou em mim o desejo de esperar mais um pouco ante de morrer para ter tempo de vê-la mais uma vez. Depois nos encontramos várias vezes e, a cada dia, a cada encontro, mesmo sem melhorar a minha depressão, eu sempre tentava adiar a minha morte, pelo menos até vê-la mais uma vez. Eu, Dona Samara e Sr. Spadaro, jamais faria mal à Iolanda. Eu necessito dela para sentir vontade de continuar aqui.

                ­­__Chega de conversa então. Vão, meus filhos, vão passear... a vida os espera e, ela é bela sim.

                __Até mais tarde meus pais. Não vamos demorar.

                __Até mais tarde Dona Samara e Sr. Spadaro. Não pretendemos mesmo demorar.

                E, sem destino certo, Geraldo e Iolanda saíram, novamente na moto de Geraldo. Iolanda sentiu novamente medo de ir na garupa de um suicida, isto sem contar o medo que naturalmente já tinha de motocicletas. Mas, foi. Pararam em uma sorveteria. Estava vazia e Iolanda sugeriu que comprasse o sorvete e fossem tomar na casa de Geraldo, junto com os pais dele. Geraldo gostou da ideia. Escolheram sabores que agradassem os pais dele e foram.

                ­__Como se chamam seus pais? (Ele não sabia que ela o seguira um dia e conhecera a sua mãe).

                __Minha mãe se chama Helena e meu pai se chama Francisco. Graças a eles, até agora, eu tentei controlar minha depressão, minhas fobias e meus pensamentos negativos. Você vai entender isso quando os conhecer, você vai gostar deles.

                Enfim, chegaram. Saíram do elevador e tocaram a campainha. Seu Francisco veio abrir a porta. Geraldo o abraçou carinhosamente. Francisco sempre controlava a emoção, mas, sempre parecia sentir ser aquele o último abraço. Enquanto Geraldo apresentava ao seu pai a sua amiga Iolanda, sua mãe, dona Helena, veio chegando com um grande sorriso que parecia confirmar que seu filho parecia se curar depois que conhecera aquela moça, embora ainda muito criança. Geraldo apresentou Iolanda à sua mãe e as duas se comportaram como nunca se tivessem visto.

                __Papai, mamãe, estávamos em uma sorveteria e Iolanda sugeriu trazermos o sorvete para tomarmos em casa com vocês. Vocês aceitam? Procurei me lembrar dos sabores que vocês escolhiam quando eu era criança.

                Helena abraçou fortemente seu filho. Ela estava muito feliz. Seu filho, como nunca, começava a se interessar por alguém, embora seus olhos ainda não tivessem o brilho da vida.

                __Obrigado, meu filho, obrigado Iolanda. Vou preparar as taças. Iolanda, você me ajuda?

                __Claro, claro, dona Helena, com prazer. Geraldo, gosto muito de música, Coloque algo para ouvirmos.

                __Qual a sua preferência, Iolanda?

                __Eu vou gostar de seu gosto, pode escolher, Geraldo.

                Sabendo que seu filho sempre desgostou de tudo e, se sempre desgostou de tudo, até mesmo da vida, certamente não tinha nenhuma preferência musical, Francisco colocou uma seleção de músicas românticas daquelas que agradam, ou pelo menos não desagradam, a quaisquer gerações. Iolanda pediu licença a dona Helena e, saindo da cozinha onde estava a preparar as taças e talheres para o sorvete correu para a sala e aplaudiu a música que estava tocando. Convidou Geraldo para dançar, mas, ele se recusou. Ela não insistiu. Voltaram todos para a cozinha e tomaram o sorvete com uma conversa bem animada. Embora participasse da conversa, aparentemente também animado, a expressão dos olhos de Geraldo não deixava dúvida da incompreendida tristeza que mantinha embrulhado o seu coração. Tanto seus pais como também Iolanda, embora tristes, não se manifestavam e continuavam a conversação como se estivesse tudo bem. Ao certo tinham dúvidas qual seria a melhor conduta. Demonstrar que estava tudo bem poderia parecer um desinteresse pelo sofrimento dele, enquanto, por outro lado, aconselhar, repetir palavras de apoio ele, certamente se irritaria, pois, foi o que ouviu durante muitos anos e, observe, sem resultado concreto. Tentaram manter o ambiente agradável por muito tempo, até bem tarde. Iolanda agradeceu a noite “gostosa” que passara, pegou o telefone e chamou um taxi. Geraldo tentou discordar alegando que a levaria em casa, mas, Iolanda retrucou lembrando que, além do sorvete, todos tomaram vinho e, o melhor, seria ir de taxi. Todos concordaram. Toda a família desceu até a portaria do prédio levando Iolanda até o taxi. Despediram-se e o taxi partiu levando a menina para a casa dela. Samara, Francisco e Geraldo voltaram para o seu apartamento e, dado o avançar da noite, foram dormir.

                Muito tarde da noite, Samara correu para atender o telefone que tocava insistentemente. Era uma notícia nada agradável... Iolanda estava internada em estado muito grave em uma UTI da região. Ao sair do taxi próximo ao prédio onde morava, ela fora atropelada por uma moto. Poli traumatizada, fratura de crâneo, fratura de coluna e fratura exposta de fêmur direito estava em coma, em estado gravíssimo, respirando por aparelhos e, drogas diversas tentando corrigir a instabilidade de seus sinais vitais. Geraldo ainda não dormira e sentiu que sua mãe chorava ao telefone. Veio ao seu socorro.

                __O que foi mamãe?

                __Meu filho, ainda acordado?

                __Sim, mamãe. Por que está chorando depois deste telefonema?

                __Iolanda, meu filho!

                __O que houve com Iolanda? Diga logo, mamãe!

                __Está muito grave na UTI do hospital. Ela foi atropelada por uma moto assim que desceu do taxi que a levou daqui. Vamos lá. Vamos dar apoio aos pais dela. Eu vou com você. Ela, Iolanda, não a poderemos ver fora do horário de visita e, além disso, está em coma. Por ela, somente orações. Vou me vestir. Você ainda não se trocou para dormir e, já está pronto.

                __Meu Deus, mamãe. Vá se trocar rápido. Vamos dar apoio moral aos pais adotivos dela.

                E logo chegaram ao Hospital.  No Saguão avistaram o Sr. Spadaro e Dona Samara. Estavam sentados em uma poltrona recostados um na dor do outro, olhos perdidos no longe e no nada, lágrimas perdidas desciam tentando lavar seus rostos entristecidos. Geraldo e Dona Helena os abraçaram e querendo saber notícias do que realmente acontecera. Neste momento chegou um médico e se dirigiu a eles.

                __Meus amigos. Iolanda, embora tenha sofrido um acidente grave, encontra-se estável e sob controle. Teve um traumatismo de crâneo que me parece ter sido apenas uma concussão cerebral. A primeira tomografia está normal. Pode ainda advir um edema cerebral. Está sob sedação e ventilando com auxílio de aparelhos. Uma nova tomografia será feita pela madrugada e, se persistir normal, começaremos a reduzir a sedação e tentar tirá-la do respirador. Foi operada com sucesso de uma explosão de baço e fratura exposta de fêmur direito. Vocês aqui nada podem fazer por ela. Acho que deveriam ir para casa e repousarem. Voltem amanhã descansados para a visita das 13 horas. Acho que terão uma boa surpresa ao vê-la. Rezem, apenas rezem... o pior já passou.

                Todos concordaram e foram para casa descansar. Geraldo não, Geraldo não, Geraldo caminhou até a mureta da calçada da praia da Ponta da Praia onde conhecera Iolanda, Da mesma fórmula que ela, sentou-se com os calcanhares cruzados entre si em cima da mureta e, sem nenhum gosto ou desgosto pela vida e pela morte, esperou o tempo passar até chegar o horário da visita e, exatamente às 13 horas conforme marcado pelo médico, estava entrando na UTI para ver a bela Iolanda. Que felicidade dos pais dela. Ela estava desperta, respirando espontaneamente e, apesar da facies de dor, conversando alegremente. Iolanda demonstrou felicidade em ver Geraldo, mas, observou ela que ele mantinha o mesmo olhar sem vida. Mas, Geraldo, sabia ser cortês, sabia ser amigo e simpático. Soube até vibrar quando o médico disse que ela, Iolanda, evoluíra muito bem e que estava de alta da UTI e sairia imediatamente, ainda no horário de visita. Ficara menos de 24 horas na uti e foi para o apartamento. Ao chegar no apartamento foi avisado pelo médico que em dois dias estaria em casa. Ela pediu para falar com um psicólogo. Imediatamente um pedido de consulta foi feito para a Dra. Mariana. A psicóloga, Dra. Mariana, não demorou a atender o chamado e entrou no quarto se apresentando. Iolanda pediu para ficar sozinha com a psicóloga. Todos entenderam e saíram deixando as duas sozinhas. Iolanda pediu que Dra. Mariana chegasse mais perto do leito e a abraçou em um choro descontrolado. Foi logo dizendo que ela não necessitava de um psicólogo para si, mas, para conversar sobre Geraldo. Depois de ouvir toda a história da linda menina moça Dra. Mariana confessou que já o havia tratado há muitos anos. Sabia de sua grave depressão e que ele jamais seria curado de seus pensamentos suicidas. E Perguntou, Iolanda:

                __Dra. Mariana, existe alguma coisa que eu possa fazer por ele?

                __Não minha filha. Nem a ciência, nem você pode ajudar. Medicamentos, todos foram testados sem sucesso e, pior, ele tem certeza que não precisa de medicamentos. Até hoje ele adiou a sua morte por amar muito seus pais. Agora, talvez, não sei, ele deixe para morrer mais tarde para ver você mais uma vez. Mas, acredite, segundo a ciência, não será por muito tempo. Por mais que ele venha a amar você, nenhum amor recomporá o desequilíbrio bioquímico em seu cérebro e o instinto de sobrevivência sempre será derrotado pela desnecessidade da vida. Você é muito jovem, cheia de vida, não deixe um caso incurável estragar também a sua existência. Ele, no máximo, adiará o suicídio para ter a oportunidade de ver você mais uma vez.  Acho melhor você se afastar dele.

                __Não, não Dra. Mariana. Eu não posso mais me afastar dele. Eu amo a vida dele, mesmo que ele pense que não tenha vida eu vou segurar em tudo para que ele adie eternamente a sua morte.

                __Parabéns pela sua determinação. Vou torcer por vocês, porém, temo que você envelheça esperando um brilho de vida naquele olhar e que, depois não veja mais seu olhar e, apenas, olhos fechados pela morte. A personalidade suicida não tem cura. Você é muito jovem. Já escolheu o que fazer em seus estudos? Quando estiver na hora, faça Psicologia ou, quem sabe, Medicina Psiquiatra. Você sofrerá menos quando ele conseguir concluir o seu destino.

                __Não, não, Dra. Mariana. Se a ciência não pode me ajudar, eu sozinha vou tentar ajudá-lo a adiar eternamente esta hora final.

                __Convença-o a tomar a sua medicação, certamente isto vai ajudar.

                __Não. Se a ciência não pode ajudar, vou fazer parecer que ele não tem doença e, se não tem doença, não tem medicamento que ajude. Obrigado, Dra. Mariana.

                __Por nada, minha criança. Se necessitar de conselhos me ache. Não necessita marcar consulta. Um beijão, minha querida.

                Dra. Mariana saiu do quarto e orientou aos visitantes que esperavam no corredor a entrarem no quarto. Iolanda os esperava.

                Conforme programado, dois dias depois Iolanda teve alta hospitalar. Geraldo não saia de seu lado. Acompanhou a sua recuperação até o fim. Geraldo não terminara o segundo grau e o bela menina o convenceu a estudar novamente. Ela começaria o primeiro ano do segundo grau e, ele, se convenceu a fazer junto com ela. Começaram juntos, no mesmo colégio, na mesma classe e, sempre iam para a escola juntos, faziam juntos as tarefas escolares e, embora tudo ele fizesse perfeito, de seus olhos não desaparecia o brilho da morte iminente. Os pais de Iolanda lhe convidaram a trabalhar na indústria de reciclagem, como administrador de exportação e, sem hesitar ele aceitou e, tentando dar-lhe todo apoio necessário, ela o ajudava esbanjando alegria e disposição, mas, naqueles olhos o brilho da vida não se instalava nunca. E, o mais estranho, que Geraldo era dedicado no trabalho fazendo-o a cada dia com mais dedicação e perfeição e, também no colégio, tudo fazia da melhor forma sendo um dos melhores alunos. Mas a máscara da infelicidade não desvestia o seu rosto. Certa noite, chorando muito, Iolanda se abraçou com pai, Sr. Spadaro, e deixou transparecer a sua preocupação, a sua frustração e o seu medo de ter que concordar com a psicóloga. Seu pai adotivo, Sr. Spadaro, a abraçou apertado.

__ Calma minha filha. Ele se dedica bem em tudo que faz. Só lhe falta ser alegre, só lhe falta ser feliz. Não desista dele, ou melhor, só desista dele se você não o ama. Acho que você o ama e, se assim for, você tem o direito de entrar em seu peito, balançar aquele coração congelado e despertá-lo para a vida gostosa de ser vivida. Quer um conselho... você sempre disse em ser piloto, mesmo tendo seus pais verdadeiros morrido em desastre de avião. Você vai começar agora o seu curso, não?

                __Sim, meu pai. Semana que vem começam as aulas.

                __Convide-o a fazer com você. Se realmente ele quer simular um desastre não haverá oportunidade melhor, mas, sabemos que ele quer o bem de todos e não fará isso, concorda, meu bem?

                Geraldo aceitou o convite e começaram juntos o curso teórico e prático ao mesmo tempo. É um curso caro e, Spadaro, pai de iolanda, fez questão, depois de muita conversa e discussão, a pagar o curso de Geraldo e deixou claro que a intensão era não sacrificar o salário que ele recebia na fábrica, Geraldo acabou sendo convencido. Ambos estudaram com afinco. Tiveram muitas dificuldades, pois, é um curso muito difícil na parte teórica. Na sala havia muitos repetentes, até por mais de uma vez. Algumas vezes Geraldo falou em desistir, no entanto, com tato e simpatia Iolanda o convenceu a continuar. Fizeram muitas horas de voos, normais em aviões pequenos e muitas e muitas horas em simuladores. Terminado o curso de piloto privado e o de piloto comercial, aconselhados por amigos, fizeram o curso de instrutor de voos. Este curso foi de extrema importância considerando que, por ser um curso muito caro, ambos se candidataram e, foram aceitos, como instrutores de voo em uma famosa escola de aviação de uma cidade do interior do Estado de São Paulo.  Aproveitaram bem o tempo de instrução, pois, sabe-se, que aprende mais ensinando e, a cada dia, a cada experiência, mais aprendizado e segurança iam acumulando. Sozinhos, morando em outra cidade, mais sentiam necessidade um do outro e, naturalmente mais se sentiam próximos e atraídos em uma paixão que sustentava a sua busca da perfeição. Embora não falasse e tentasse despistar, o olhar de Geraldo continuava sem o brilho de vida. Durante as revisões médicas obrigatórias, em todas elas, Iolanda temia que Geraldo não conseguisse ser liberado pela psiquiatria, mas isto nunca acontecia e continuavam felizes tentando completar as suas horas de voo. Enfim conseguiram o seu feito. Estavam com as horas de voos completas. Antes de planejarem a busca por um emprego em alguma companhia de aviação, incentivado por Iolanda resolveram fazer um passeio de avião à Espanha, terra de seus pais. Depois de preparados todos os documentos necessários para uma viagem sem riscos. Chegado o dia, seus pais, dele e dela, os levaram até o aeroporto de Guarulhos onde, em um avião  embarcaram com destino a Madri, aeroporto de Barajas. No entanto quando entrou no espaço aéreo de Portugal, dois sequestradores invadiram a cabine e obrigaram o piloto a desviar o voo e descer em um aeroporto de Lisboa, reabastecer e, ameaçando explodir o avião com duzentos e quarenta passageiros, mataram o copiloto para mostrarem que não estavam brincando. No aeroporto de Lisboa as autoridades policiais tentaram negociar uma rendição sem sucesso. Então o avião foi reabastecido, levantou voo e, segundo alguém que conseguiu traduzir a linguagem de um deles, o destino seria a Polônia.  Quando o Avião ainda decolava, um dos passageiros que depois foi identificado como policial, em uma fração de tempo atirou em um dos sequestradores matando-o, mas foi morto pelo segundo sequestrador. Nesta hora a arma do policial caiu perto de Geraldo que a pegou despistadamente e, instintivamente, atirou e matou o segundo bandido. Todos os passageiros que rezavam e choravam explodiram de alegrias e aplausos para os dois. Um médico correu para socorrer o policial, mas, não tinha mais o que fazer. Sabendo da presença deste médico, quando o avião já se encontrava em nova rota já estabelecida e, com o piloto automático no comando a aeromoça o chamou discretamente até a cabine. O piloto estava muito mal. Parecia ter infartado. Assim que conversou com ele o médico confirmou a possibilidade do infarto e, ao mesmo tempo o piloto desmaiou. A aeromoça comunicou imediatamente à torre de comando mais próxima e, dirigindo-se aos passageiros perguntou se por acaso havia algum piloto a bordo. Imediatamente Iolanda e Geraldo se apresentaram e mostram seus documentos de identificação e, não havia outra alternativa, apesar de sua falta de experiência, exceto em simuladores de voos internacionais, assumiram o comando do avião. Geraldo sentou-se na poltrona do comandante e Iolanda na do copiloto. Geraldo conversou com a torre, mostrou segurança e solicitou autorização para retorno a Madri, para onde todos pretendiam ir. Recebeu ordem para descer no aeroporto mais próximo que era o de Lisboa de onde acabavam de sair. Geraldo não desobedeceu. Desligou o piloto automático e assumiu o comando. Seguindo as orientações da torre de comando conseguiu aterrissar magistralmente no aeroporto de Lisboa, Humberto Delgado. Ali, depois dos depoimentos de rotina, trocaram de aeronave e seguiram para o destino inicial, Madri.

                Iolanda e Geraldo, depois do susto, se abraçaram e choraram de felicidade. Além de terem conseguido se salvarem do sequestro, ainda foram protagonistas daquele salvamento. Ao descerem do avião, caminhando em direção ao saguão de saída, após pegarem suas malas, foram cercados pela imprensa. Foram convidados para uma entrevista em uma televisão local e, confirmaram, mas depois que fossem para o hotel, tomassem um bom banho e jantassem. Então o repórter preferiu entrevistá-los no hotel durante o jantar. Seguiram para o hotel. Haviam reservado quartos separados e, assim se instalaram, mas, Iolanda separou uma roupa linda para vestir após o banho e, sem perder tempo, tocou a campainha do quarto do Geraldo. Ele abriu a porta e ela o abraçou e o beijou forte e apaixonadamente e, pela primeira vez ele respondeu ao seu beijo com todo fervor e todo amor que ele também sentia e teimava em não acreditar. Foram para o banho juntos e se amaram longa e perdidamente. Parecia que aquele amor não tinha fim. Depois se banharam. Se vestiram e, abraçados, desceram para a sala de espera do hotel, Hotel Puerta Del Sol. No Saguão a imprensa os esperava. Afinal, não é sempre que um avião sequestrado é salvo por um casal de passageiros. Foi repercussão, não só na Espanha, mas, no mundo inteiro. No Brasil, assim que a mãe de Iolanda viu a reportagem na televisão, ligou imediatamente para os pais de Geraldo que também já estavam vendo a mesma reportagem. Os dois casais, Spadaro e Samanta, Helena e Francisco, se sentiram muito orgulhosos e, mais ainda, quando amigos telefonavam querendo participar daquela alegria. Francisco e Helena, mais ainda, com o aumento da esperança de salvar o seu filho do mal que o afligia.

                Enquanto isso, respondendo às perguntas dos repórteres, no saguão do hotel, já incomodados pelo sensacionalismo que a impressa estava dando a um episódio, que para eles, Iolanda e Geraldo, apenas significava a felicidade de estarem salvos, uma radialista a interrogou sobre seu sobrenome espanhol. Sim. Seus pais fugiram da Espanha e, embora tenha nascido no Brasil, o nome de família não tinha porque ser eliminado e ela fora registrada como Iolanda Garcia Martinez, nome de sua mãe e de seu pai respectivamente. Inicialmente ela apenas respondeu ser descendente de espanhóis. Despediram-se da imprensa e caminharam para o bar do hotel onde planejaram tomar um bom vinho antes do jantar. Enquanto Geraldo escolhia o vinho, Iolanda, lembrando saudosamente de seu pai e de sua mãe mortos quando ela tinha apenas três anos de idade, e, que se não fosse a necessidade de fugirem da Espanha por ignorância da família, poderiam estar vivos, levantou-se abruptamente da mesa do bar do hotel, assustando Geraldo e, gritando, correu para a saída do hotel chamando a repórter que havia observado seu sobrenome espanhol.  Como o repórter vive de informações, sensacionalista ou não, todos voltaram curiosos e ávidos por novidade. E disse Iolanda:

                __Amigos, eu jamais imaginara fazer esta revelação que vou fazer agora. Como viram, meu nome é Iolanda Garcia Martinez. Meus pais eram espanhóis...

                Nesta hora Geraldo, trazendo duas taças de vinho, entregou uma para Iolanda, fez um brinde rápido, deu uma bebericada em sua taça e, entendendo a intenção de Iolanda, tentou convencê-la a não tocar neste assunto, mas, ela não o obedeceu.

                Depois de também degustar o gostoso vinho tinto seco, Iolanda continuou, desta vez com um engasgo de emoção.

__Eu hoje tenho vinte e dois anos. Há pouco mais de 24 anos, meus pais moravam aqui em Madri. Eram muito jovens, as famílias eram inimigas e, além disso meu pai não tinha trabalho. Eram apaixonados e, por estes motivos, foram impedidos de namorarem. Minha mãe tanto insistiu que, meu avô a agrediu. Ela continuou insistindo e foi expulsa de casa por meus avós. Eles sofreram muito. Fugiram para o Brasil de forma clandestina em um navio cargueiro. Escondidos entre as cargas, levando poucas provisões como biscoitos, frutas desidratadas e água. Não podiam levar muito, pois, tinham que passar desapercebidos. Segundo fiquei sabendo mais tarde, a viagem demorou dezoito dias e passaram fome e frio. Quando chegaram em Santos, SP, Brasil, por sorte e por pena um casal os acolheu. Meus pais eram pouco mais que duas crianças. Deram-lhes banho, roupas, água e comida e, depois de ouvir a sua história resolveram ajudá-los de verdade. Este Casal havia, há anos, passado por uma situação semelhante. A diferença é que tinham visto de imigrantes, fugitivos de guerra, mas segundo contam, sofreram muita humilhação até conseguirem se estabilizar. Este casal trabalhou muito e conseguiu ganhar muito dinheiro com uma fábrica de embalagens e material reciclável. Pois bem, deram ao meu pai um emprego de vigia da fábrica e à minha mãe um emprego de doméstica. Em poucos dias, em poucas semanas e em um punhado de meses meus pais provaram a sua honestidade, a sua capacidade de trabalho e, mais, a sua garra e vontade de vencer. A eles foi fornecido e adaptado um quarto que havia no fundo das fábricas que se transformou em sua moradia. Eu nasci ali. Devido à amizade, à honestidade e à dedicação de meus pais, seus patrões lhes deram uma viagem de passeio e minha mãe escolheu conhecer Manaus. Na volta o avião caiu na floresta amazônica e eu fiquei órfã.

                __E vocês não tentaram entrar em contato com seus familiares aqui na Espanha? Perguntou uma repórter...

                __Muitas vezes minha mãe tentou e não foi atendida. Ela chorava muito de saudades dos pais, dos irmãos, dos avós. Depois que eu fiquei órfã, os patrões de meus pais tentaram por várias vezes sem sucesso. Então resolveram me criar e esquecer meus parentes. Meus pais sofreram, eu não. Fui muito feliz. Fui muito bem-criada. Sofri sim com a fatalidade de meus pais, mas eu era uma criança de três anos e me acostumei com a ideia.

                __Você gostaria de mandar algum recado para os seus parentes aqui de Madri? Perguntou a repórter?

                __Quem necessitava deles e não foi ouvida foi minha mãe que já morreu... Eu sou brasileira. Agora, obrigada, mas, vamos jantar e descansar, pois, o dia foi muito tenso.

E despedindo-se dos repórteres, Iolanda e Geraldo saíram em direção ao refeitório. Antes, porém, Geraldo pediu para chamar a gerencia do hotel e pediu que quaisquer telefonemas e ou pessoas que os procurassem que fosse dito que eles não estavam mais ali, que haviam viajado pois certamente seriam muito procurados por curiosos e parentes arrependidos. Estavam mesmo com fome. Jantaram bem depois de várias taças de bons vinhos. O amor que ambos sentiam um pelo outro que parecia preso ao impossível, ao inconveniente e emparedado pelo respeito e pela amizade, acabara de se soltar. Orientados pela administração e levados pelo transporte do próprio hotel foram para uma famosa casa dançante de Madrid. Entre juras de amor e danças intermináveis com muito mais vinho, ali ficaram até madrugada alta. Quando voltaram para o hotel foram informados das diversas pessoas que os procuraram e telefonaram dizendo serem familiares. Os funcionários confirmaram que eles não estavam mais no hotel, conforme fora combinado.

 

                Geraldo e iolanda subiram para o quarto dele. Toda a bagagem dela ali já se encontrava. Resolveram assumir um ao outro e, suados de tanto dançar, embora já quase estivesse amanhecendo, voltaram a um banho e novamente e intensamente se amaram da mais forma divina, da mais linda pureza de entrega e, como se fosse a última, entre beijos, abraços e uma relação sexual das mais sinceras e honestamente puras se tornavam em um só corpo, um corpo flutuante que viajava pela imensidão do nada, pelo inexplicável do belo e pela gigantescamente desconhecida solidão do berço das estrelas,  das mais amadas, de todas as mais belas. Depois desmaiaram abraçados e, muito tarde, muito mais tarde depois, acordaram ainda com saudades de seus amores e, instintiva e incansavelmente amaram-se e, de novo se amaram como se fora a primeira ou como se fosse a última. Por fim se deram conta que estava quase terminando o horário do café no hotel e, banhando-se rapidamente, desceram para o refeitório onde poucos, certamente os últimos, hospedes saíam da primeira refeição. Embora felizes a insegurança os segurava no solo e não os deixava pular de alegria. Os olhos de Geraldo permaneciam sem o brilho da vida e, Iolanda se sentia insegura e temerosa com a perda iminente que a expressão da morte que encobria o rosto de seu amado. Mas, durante o café, segurando forte as mãos de sua amada, Geraldo prometeu voltar a se tratar. Assim que chegassem ao Brasil procuraria por um psiquiatra e voltaria a se tratar. Já havia vencido duas etapas importantes: estava amando e, já formado, pronto para trabalhar.  Neste instante, uma chamada na televisão, suplicante e emocionante, os familiares espanhóis de Iolanda, pediam perdão pelo passado e pediam uma reconciliação. Diziam inclusive, que, logo após a sua fuga para o Brasil, mesmo a contragosto do resto da família, a mãe de sua mãe, portanto sua vó, em vão, tentou encontrá-la em várias viagens. Inclusive, ressaltava o repórter, sua vó era uma das passageiras salvas do sequestro por eles evitado... E completavam:

 

__Minha neta querida, que eu não conhecia, que eu nem mesmo sabia de sua existência, deixe-me acabar com este remorso de ter impedido o namoro de sua mãe... Deixe-me sentir o seu perfume que deve ser o mesmo perfume de sua mãe... Por favor minha neta, deixe-me viver feliz os últimos anos de minha vida! Deixe-me secar as últimas lágrimas de minha vida em sua roupa de matizes brasileiras com desenhos espanhóis... 

 

Antes de tomar qualquer decisão, Iolanda, por orientação de Geraldo, telefonou para seus pais no Brasil para ouvir a opinião deles. Eles também já tinham ouvido a reportagem, pois, por se tratarem de brasileiros, as emissoras brasileiras estavam fazendo uma cobertura geral do caso. Iolanda queria saber se devia ceder e aceitar a aproximação com a família que expulsara a sua mãezinha sem nenhuma chance. Os pais dela já haviam feito uma opinião a respeito.  Se Iolanda se recusasse a aceitar o arrependimento, neste tempo já passado, ela sim seria reprovada pelo mundo.

 

Seu pai a aconselhou a aceitar a aproximação. Depois de matarem as saudades e receberem as felicitações pelo ato heroico a emoção não lhes cabia no peito. Há dois dias eram dois jovens desconhecidos moradores de Santos, SP e, hoje, conhecidos e falados em todos os telejornais do mundo inteiro. Há dois dias eram apenas dois enamorados que apenas se contentavam em se verem, em se tocarem e se beijarem, agora se sentem de corações trocados um no peito do outro e um amor que não lhes cabe de tamanha intensidade. Abraçaram-se e decidiram entrar em contato com seus parentes. Ligaram para a rede de televisão solicitando o telefone da casa de sua avó. Ligaram, pegaram o endereço e, sem perda de tempo, pegaram um taxi e foram até a casa de sua avó.

 

 

 

Quando chegaram ao endereço indicado, Iolanda e Geraldo se deslumbraram com a beleza da moradia. Parecia uma casa real, quase um palácio de tamanha beleza. O taxi teve que contornar gigantescos canteiros de um jardim maravilhosamente lindo e infestados de lindos pássaros que pareciam terem ensaiado um cântico em conjuntos para recebê-los. Na escadaria várias pessoas os esperavam. Dois casais com filhos ao seu lado e uma senhora que aparentava uns sessenta anos, chorava copiosamente e era amparada por um senhor mais jovem que parecia ser filho. Assim que desceu do carro a velha senhora correu até Iolanda e a abraçou ao mesmo tempo forte e carinhosamente, dizendo entre lágrimas:

 

         __Perdão, mil perdões Iolanda. Você é igualzinha à sua mãe. Aqui estão duas irmãs de sua mãe com seus maridos e filhos. Este que estava me amparando também é seu tio, meu filho caçula. Seu avô faleceu sem perdoar a sua mãe. Eu, durante muitos anos viajei para o Brasil na esperança de encontrar a sua mãe. Seu avô rasgava as cartas dela sem a gente ler e não nos deixava atender o telefone... ele não aceitou a fuga de sua mãe e nunca a perdoou. Vamos entrar conte-nos sobre sua mãe, conte-nos sobre seus pais.

 

 

 

Iolanda se derreteu em choro também. Foi encaminhada para dentro daquela casa que mais parecia um palácio de tanto bela e rica. Foi levada a um quarto onde se encontrava as fotos de família e logo, logo lhe mostram a sua mãe. Iolanda se lembrava pouco dela pois tinha três anos quando seus pais morreram e, nem os ver mortos ela conseguiu, pois, seus corpos não foram encontrados na floresta amazônica. Mas, suas tias e primos, tanto quanto sua avó afirmaram que ela era igualzinha à sua mãe. Sua vó não a deixava e, também não conseguia controlar o choro. Chorou muito mais quando Iolanda confirmou a morte de seus pais em um acidente aéreo. Todos pareciam morrer de remorso. Por outro lado, estavam felizes por terem encontrado Iolanda. Geraldo ficou à vontade no meio deles. Também se emocionou muito.  Todos da família deixaram claro que seu avô, machista, intolerante e ignorante não deixou que ninguém se interferisse em favor da filha o que, após expulsa de casa e, tendo seu namorado ameaçado de morte, não teve outra sorte a não ser fugir.

 

 

 

Depois de se conhecerem bastante, se entenderem bastante e sentirem que não tinham o que perdoarem uns aos outros, saíram, após avisarem por telefone, para visitar e conhecer a família de seu pai. Estes eram exatamente o contrário. Moravam em bairro mais simples e somente seu avô estava vivo. O pai de Iolanda era filho único e, sua mãe, vó de Iolanda, morrera de tristeza quando ele fugira. Certamente estes sofreram mais com esta história de amor. Seu avô vira na televisão todo aquele drama. Não conseguira dormir à noite na esperança de ver a sua neta e, jamais imaginou que ela iria visitá-lo. Ele a abraçou carinhosamente forte e, não chorou... sorriu, sorriu muito. Tinha uma neta e ela estava ali. A sua família não iria acabar quando ele morresse. Todos se emocionaram. Seu avô era médico. Médico psiquiatra. Estava no consultório. Pareciam simples as instalações, mas estava cheio. Muitos pacientes o esperavam. Ele quis dispensá-los para curtir a sua neta, mas ela não permitiu. Os familiares de Iolanda já a haviam convencido, como também a Geraldo, a deixarem o Hotel e ficarem em sua mansão. Embora eles cada vez mais buscassem oportunidades de ficarem sozinhos e aproveitarem o seu amor, a descoberta da família os fizeram concordar. Então Iolanda sugeriu que Geraldo fosse com suas tias e sua vó até o Hotel e buscassem as suas coisas enquanto ela esperava seu avô médico acabar de atender os seus pacientes. Geraldo obedeceu, mas, seu avô, Dr. Martinez, não a ouviu, remarcou as consultas para o dia seguinte e convidou sua neta até então desconhecida para entrar, contar a sua vida, contar a vida de seu filho, tentar preencher um vazio longo que insistia em não sair de sua vida. Iolanda contou tudo que ouvira de seus pais adotivos, pois, só tinha três anos quando seus pais morreram. Dr. Martinez, mesmo muito emocionado, não deixava a tristeza quebrar a felicidade de saber que tinha uma neta e, mais, que ela estava ali o enchendo de beijos. Ele quis lhe oferecer um chá mas ela preferiu um bom vinho e, sorrindo, ele a acompanhou. Seu Avó perguntou pelo seu “marido”, Geraldo e ela respondeu:

 

__Não, não, vovô. Ele não é meu marido; nem meu namorado. Nem sei se somos amigos. Ele é um depressivo grave que quer morrer a todo minuto. Eu o salvei de um suicídio há alguns anos e, desde então, ele adia a sua morte para me ver pelo menos mais uma vez. E, a cada dia que adia a sua morte, a cada dia que me vê mais uma vez, mais eu o amo e mais tenho medo de morrer também se ele, de repente, deixar de existir... vários tratamentos desde a sua infância ele fez sem sucesso. Isso, essa desilusão o faz não mais querer se tratar. O que o mantém ainda vivo é não querer fazer sofrer os seus pais que ele tanto ama... seus olhos são foscos, não tem o brilho da vida, não olham para fora... só enxergam para dentro do nada!

 

__Minha amada... deixe-me secar as suas lágrimas. Com tratamento ele pode levar uma vida quase normal, bem próximo do normal... até mesmo bem normal! Sem tratamento ele não conseguirá adiar seu suicídio por muito tempo e, em um momento ele não vai querer ver você mais uma vez e fará com que seus olhos não se abram nunca mais. Sou um velho psiquiatra, conheço todos estes casos e, muitos suicidas eu vi morrer. Não deixe Geraldo saber que conversamos. Ele mesmo vai me dar a oportunidade de falar quando eu lhe disser que seu olhar necessita ser abrilhantado.  Ele é potencialmente um suicídio sem salvação, mas, existem alguns freios nele mesmo que o impedem de fazê-lo e estes freios devem ser fortalecidos.

 

Algum tempo depois Geraldo e um tio de Iolanda chegaram. Suas tias e sua vó ficaram na mansão preparando uma bela suíte para os dois para que pudessem ter a mesma liberdade que tinham no Hotel, além de um belo e apetitoso jantar. Quiseram já pegar Iolanda e partirem de volta, mas, inteligentemente, Dr. Martinez convenceu a Iolanda e a Geraldo que ficassem mais um pouco pois sonhara com este momento por longo tempo e, sem querer ser inconveniente, gostaria de ouvir mais sobre seu filho que fugira para o Brasil e lá morrera. Ele fugira para ter direito de ser feliz com a sua amada. Fugira de encontro à morte. O único consolo é que tiveram um tempo para se amarem, para serem felizes o que aqui não teriam. Felizmente me deixaram esta neta linda que Deus me deu a felicidade de conseguir conhecer. Resolveram ficar e se sentaram na varanda da cozinha onde puderam ficar bem próximos um do outro, principalmente Geraldo e Dr. Martinez. Enquanto Iolanda contava o que ouvira de seus pais adotivos, pois, pouco se lembrava de seu pai verdadeiro já que tinha três anos quando ele faleceu, Geraldo correu e espantou um pássaro que estava prestes a ser “abocanhado” por um gato que já armava o bote. Quando Geraldo voltou e se sentou Dr. Martinez não perdeu tempo e, sem deixá-lo entender que já sabia de sua grave depressão, o parabenizou por salvar a vida do pássaro. Dr. Martinez pode observar nos olhos de Geraldo a ausência do brilho de vida, o olhar para dentro do irreconhecível e a opacidade da morte, mas, nada sobre isso ele deixou transparecer que notara.

 

__Aquele pássaro que você acabou de salvar, Geraldo, como sabemos, veio a ”este mundo de um Deus qualquer” sem pedir para vir, sem saber que estava vindo. Aqui chegando, para continuar vivendo, tem que, caçar, lutar para sobreviver e, ainda contar com a sorte de ser salvo de uma morte que parecia iminente. Da mesma forma, este Deus qualquer, levou você a fazer um curso de piloto, programou uma viagem de descanso em um avião que seria sequestrado. Os sequestradores foram mortos, antes, porém, mataram o copiloto. O estresse, bastante bem explicado, fez o piloto enfartar e desmaiar deixando duzentas e quarentas pessoas, em primeira análise, a caminho de uma morte rápida. Imagine você se ninguém respondesse à pergunta da aeromoça se, por acaso havia um piloto a bordo. Imagine você o caos e o desespero das pessoas se você demorasse a se apresentar... mas, não, você e Iolanda estavam lá. E a firmeza de posição e atitude que vocês tomaram seguindo a passos firmes e calmos para a cabine sem comando, deixaram os passageiros confiantes. A imprensa relatou tudo. O mundo inteiro ficou sabendo de todos os detalhes ocorridos naquele voo. Até mesmo quando você ao se comunicar com a torre, fez questão de deixar os microfones abertos para que todos no avião também ouvissem que estavam sendo levados por pilotos de verdade. A torre, em frações de segundos, confirmou pela associação de pilotos do Brasil a veracidade de sua formação completa bem com a de Iolanda. Brilhantemente vocês colocaram aquela máquina voadora no solo português. Aquelas pessoas, Geraldo, assim como aquele pássaro, não sabiam que você estava ali, não para salvá-las simplesmente, mas, para não as deixar morrer antes da hora predeterminada “por um Deus qualquer”.

 

Nesta hora Geraldo baixou a cabeça sobre a mesa da varanda da cozinha, onde estavam, com os braços pendentes em direção ao solo, ou apenas pendentes e, depois de segundos em silêncio, chorou copiosamente, chorou triste e penosamente o que fez os olhos de Iolanda também se inundarem de lágrimas. Iolanda tentou abraçá-lo e foi impedida pelo seu avô, Dr. Martinez. Depois de algum tempo de silêncio, enxugando os olhos com seu lenço, Geraldo pediu desculpas e explicou porque estava chorando.

 

__Perdão, Iolanda. Desculpe-me Dr. Martinez. Meu peito é um vazio enorme, como também o é meu cérebro. Eu durmo e acordo com vontade de estar morto. Eu luto dia e noite com a ideia de suicídio. Todos que estão em minha volta fazem com que eu adie esta ideia e, sempre, aos seus modos tentam tirá-la de minha mente. Eu finjo que aceito a ajuda, mas, minha mente e meus pensamentos não o fazem. A vida para mim não tem nenhum sentido, acho mesmo que o mundo não deveria existir... por que “um Deus qualquer” cria um mundo, cria as criaturas e as fazem nascer sem saberem que estão nascendo e depois são obrigadas a ingressar em uma caçada de sobrevivência?

 

 __Geraldo, Geraldo... perdão, mas Iolanda já havia me contado a sua história! Eu, de imediato poderia tê-lo chamado para conversarmos sobre isso, pois, como vê, essa é minha profissão, essa é minha missão...

 

__Não adianta, Dr. Martinez. Durante muitos anos vários psiquiatras tentaram a minha cura e não conseguiram me mostrar o gosto pela vida. A tristeza que eu causaria a meus pais me faziam adiar meu suicídio... depois apareceu Iolanda conseguindo desviar meu pensamento me  fazendo voltar a estudar e, a cada dia aumenta a responsabilidade sobre as pessoas que corro o risco de fazer sofrer com minha morte. Não seja mais uma frustração em minha existência, por favor...

 

__Sim, sim... não vou tentar, não vou tentar, Não, não! Não serei outra frustração em sua indesejada existência... Você parece um caso perdido! Sim, você é um caso perdido! Acho até que minha amada neta já começasse a se acostumar sem você.  E sabe porque você é um caso perdido? Os meus colegas tentaram despertar em você o gosto pela vida e, desta forma não conseguiram tirar de seus olhos o olhar invertido, o desbrio da vida e a sombra da morte... talvez se se tivesse invertido o sentido do tratamento...

 

__Como assim, doutor?

 

__Simples, meu amado Geraldo. Eles teriam que mostrar o gosto da vida sobre você e, não em você... O gosto da vida sobre você não lhe foi mostrado, mas, ele está sim em quem tenta salvar um mísero pássaro de ser morto por um gato, ele está sim em que obedece a uma desconhecida e deixa de pular em frente a um veículo em alta velocidade e morrer... ele está sim em quem obedece a uma adolescente e volta a estudar, completa o segundo grau... ele está sim presente em que, por simples incentivo de uma adolescente a pouco conhecida, fez e concluiu um dos mais difíceis dos diversos cursos profissionalizantes que existem, o de aviador... milhares tentam e apenas dezenas o conseguem dado a sua dificuldade... O gosto da vida sobre você existe sim senão você não teria nenhuma razão para preservar a vida das duzentas e quarenta pessoas daquele avião que você heroicamente pousou em solo português. Você meu amigo, quer morrer porque não está sendo tratado... O hipertenso toma remédios continuamente mantendo normal a sua pressão arterial e, não quer morrer... O diabético toma regularmente a sua medicação, trabalha, estuda, ama e vive e não quer morrer... também se tratam, amam, trabalham vivem e querem viver os cardiopatas, os neuropatas, os reumatopatas portadores de insuportáveis dores crônicas assim como os traumatopatas , como também os nefro patas dependentes de terapia renal substitutivas lutam para não morrerem. O mesmo acontece com você, a diferença é que você não se trata. Você apresenta um desequilíbrio bioquímico no cérebro. Este desequilíbrio existe em virtude de déficits de mediadores entre sinapses neurológicas responsáveis, entre outras funções, pelo instinto de sobrevivência e, sendo corretamente substituídos por medicamentos que existem em centenas de apresentações, você Geraldo terá de volta o brilhar da vida em seus olhos e, não tenha dúvida, será útil, fará as pessoas felizes e, mais importante, não pensará em se matar e até terá, creia, a chance de ser feliz. Não quero ser um conselheiro. Pense bem. Se quiser tentar novamente, não vou fazer caridade, pois, a caridade não é obedecida. Estarei trabalhando desde as seis horas da manhã; diga à secretária que eu autorizei o encaixe, pague a consulta e vamos desinteressar se você enxerga ou não enxerga a vida, mas, mostrar que a vida enxerga você... se você realmente pensasse em morte, não teria perdido a oportunidade de se deixar morrer naquele avião sem piloto, muito embora Iolanda o tivesse feito. Se você realmente pensasse em morte não teria salvo aquele pássaro distraído. Vá para casa e pense, ou não o faça se assim preferir. Não o faça tentando evitar o sofrimento de outrem... se o fizer faça-o por você e pela vida que enxerga você embora você não a enxergue. A partir de seis horas meu consultório estará aberto para quem quer enxergar a vida. Agora vão curtir os parentes de Iolanda que, como eu sofri pelo pai dela, eles sofreram pela mãe dela. Deixe seu coração no céu sem tirar os pés do chão... ame as estrelas no infinito, mas, as vendo, apenas em noites claras, sem tirar os pés do chão deste planeta “de um Deus qualquer.

 

Geraldo abraçou o Dr. Martinez e o beijou no rosto, pegou Iolanda pelas mãos e, juntamente com o tio de dela, voltaram para casa.

 

Na mansão da avó de Iolanda, depois de conversarem muito, assuntos diversos, mas, principalmente tentado saber muitas coisas da mãe de Iolanda, o que não muito sabia, pois, era muito criança quando ela morrera. O que sabia era o que seus pais adotivos contavam. Pelo o que ouvia deles, ela era muito feliz apesar de ter que ter fugido para ser feliz. Tomaram muito vinho antes do jantar. Iolanda foi levada por sua vó até o quarto que fora de sua mãe. Ela o conservou como se sua mãe fosse voltar a qualquer momento. Seu guarda roupa estava intacto e conservado pois as roupas eram lavadas e conservadas regularmente. Seus brinquedos favoritos (quando fugiu ela era pouco mais que uma criança) a esperavam onde ela os deixara. Seus perfumes preferidos permaneciam sobre a cômoda e, ao lado deles, a caixa de riquíssimas joias ainda tinha a bailarina que, em perfeito estado ainda bailava quando dava corda. Sua vó lhe sugeriu que ficasse com as joias, mas, Iolanda a convenceu de continuar cuidado do quarto exatamente como fizera até agora. Acabar com o quarto acabaria com a magia da esperança que ela cuidou por tantos anos. Prometeu vir passear mais vezes em sua casa e, quando ali estivesse, usaria as joias e, até mesmo algumas roupas para sentir sua mãe por perto. Nesta hora Geraldo chamou Iolanda para irem dormir que ele resolvera levantar cedo e procurar o Dr. Martinez em seu consultório. Resolvera tratar-se de verdade. Embora ele não visse a vida, disse, a vida o via e ele não mais se esconderia dela.

 

             Conforme conversado, às seis horas da manhã estava ele pagando a consulta para a secretária do Dr. Martinez. Algum tempo depois ele foi chamado pelo médico. Já entrou no consultório chorando, parecia ser o pior dia de sua vida. Desde criança ele passara em consultas por psiquiatras, dos mais famosos, e, nenhum medicamento conseguia limpar de seus olhos a nódoa da morte iminente e neles instalar o “sorridente” brilho da vida. Dr. Martinez não se importou com a reação emocional de Geraldo.

 

                __Sente-se, Geraldo.

 

                Geraldo se sentou, secou os olhos e ficou aguardando ouvir tudo que já ouvira, por dezenas e dezenas de vezes, centenas talvez, sem nenhuma melhora de seu mal, de sua depressão sem cura, de seu anoitecer e de seu despertar desejosos de morte. Diferentemente dos outros, o médico ao fundo da sala, bem em frente à mesa do paciente, abriu uma cortina e apareceu uma lousa, um quadro negro sem nada escrito. O professor pegou um giz, chamou Geraldo e a ele o entregou e pediu que fosse escrevendo o que lhe fosse ditado e, começou a ditar e Geraldo escrevia:

 

                __O hipertenso tem que tomar a sua medicação todos os dias de sua vida, pois a hipertensão sem tratamento, o faz perder progressivamente a função renal, a acuidade visual, o aumento progressivo do tamanho do coração e, sem contar o risco de ter um acidente vascular cerebral que pode matá-lo ou deixá-lo deficiente até a morte. Escreva aí que os diabéticos que não se tratam, perdem a visão, tem pés amputados e perdem a função dos rins que, como os hipertensos, anteriores terminam sua vida em hemodiálise e ou transplante renal. Escreva aí que outros nada têm e morrem baleados, atropelados, esfaqueados ou simplesmente morrem porque “um Deus qualquer” os chamou... Agora vá se sentar. Leia o que você escreveu...

 

                __E daí, Doutor? Onde eu entro nessa? Não sou hipertenso, não sou diabético... apenas não consigo permanecer vivo, não tenho vontade de estar vivo, ninguém conseguiu me convencer a permanecer vivo...

 

                __Geraldo, Geraldo... uma “toalha mágica” existe em sua vida para limpar de sua face este manto de morte, mas, você vira o rosto e a toalha não consegue fazer a função para que foi criada! Se você permitir que eu lhe prescreva uma medicação para a depressão, medicação que talvez haja necessidade de ser mudada caso não faça o efeito esperado e desejado. Estabelecida a melhor medicação para equilibrar os déficits de mediadores químicos das sinapses nervosas de seus neurônios centrais... Falta em você, meu amigo Geraldo, a medicação certa que, depois de acertada, você dela dependerá viver eternamente, mas feliz e querendo dela viver...

 

                __Baseado em que, o senhor tenta me convencer?

 

__ Simples, muito simples, meu amigo, Geraldo. Você, sempre que questionado, afirma odiar a vida e querer a morte. Vamos separar as coisas.  Você odeia a vida que tenta habitar em você, mas, incoerentemente, você ama a vida que habita fora de você...  a sua personalidade suicida não passaria desapercebida nos exames médicos que liberaram os seus brevês de piloto...um simples pássaro, uma adolescente desconhecida, duzentas e quarenta pessoas que nada representavam para você, o seu afinco pelo estudo... e, hoje, novamente pagou a consulta a um novo psiquiatra desconhecido de você até ontem... em que eu me baseio para convencer você?  Você me perguntou... eu, ou quaisquer médicos, eu ou quaisquer psicólogos não o conseguiremos fazê-lo. Mas, a vida que não perde você de vista, não tenha dúvida, o convencerá a adiar a sua morte... o que eu e uma boa psicóloga conseguiremos sim será, adiar a sua morte, mas feliz com a vida que o quer aqui, mesmo que continue querendo a morte.

 

                __Quer falar ou posso continuar?

 

                __Fale você, Doutor.

 

                __Muito bem. Voltemos na história. Certo dia “um Deus qualquer”, um dia os sobreviventes saberão como, criou o universo e, nesta imensidão do universo, nosso planeta terra ocupou o seu lugar em seu giro em torno do sol. Como nos conta a ciência, sugiram os coacervados, e daí em diante a vida evoluiu e, cada ser vivo cada vez mais complexo que os anteriores, em centenas de séculos de evolução, simplesmente nasciam sem pedir e, para sobreviverem, tinham que lutar e se defenderem de predadores vorazes. Séculos e séculos se passaram, milhares e milhares de anos se passaram até chegarmos nesta vida... não pedimos para vir e não podemos dela sair, simplesmente sair, sem deixar, dor, sem deixar sofrimento, sem deixar boas e más lembranças. Se você quer realmente morrer, pouco conseguiremos fazer, mas, se quer uma chance, muito podemos ter a felicidade de o ajudar a vencer. Você não tem culpa de ter este desequilíbrio bioquímico em seu cérebro. Não pense na tristeza de seus pais se quer realmente morrer, não pense na ajuda de Iolanda, não tente enxergar a vida, pois, você não vai conseguir... A vida é que não quer deixar de enxergar você...  Talvez isso lhe interesse muito, hoje é dia dos pais, certamente você não se esqueceu. Pegue aquele telefone, o meu, não o seu, pois, quero que ele saiba onde você está, em um consultório de um psiquiatra. Não minta para ele pois ele o conhece bem mais que você possa imaginar. Dê-lhe os parabéns pelo seu dia. Depois fale também com a sua mãe... ele jamais seria o seu pai se não fosse a coparticipação genética dela! Depois volte e sente para me ouvir.

 

Sem saber bem porque, Geraldo obedeceu. Embora emocionado, não chorou. Voltou e se sentou onde o médico mandara.

 

__Obrigado por ter ligado, Geraldo. Você tem um pai para abraçar. O último abraço que meu único filho me deu, o pai de Iolanda, eu ainda o sinto apertando o meu tórax e, ainda parece que as lágrimas dele que molharam o meu ombro, também ainda não se secaram. Não era dia dos pais... era sim o dia que estava escrito que jamais eu o veria. Ele era apena uma criança de quinze anos. Estava apaixonado pela mãe de iolanda que tinha apenas quatorze anos. Ela filha de uma poderosa família industrial dona de uma incalculável e inesgotável fortuna estava proibida de se aproximar de meu filho e, com a insistência dela, acabou sendo expulsa de casa e, acredite, ameaçada de morte pelo seu próprio pai. Eu fui até a casa dela tentar conversar e fui expulso pelos seguranças. Ele fugiu com ela e nunca mais se comunicou comigo. Acho que tinha medo de ser descoberto e ter a sua amada dele tomada. Minha esposa várias vezes foi à casa dos pais dela tentar saber alguma notícia e nunca foi recebida. Ela morreu de tristeza me pedindo que o procurasse, mas, onde procurar eu não sabia. Hoje, dia dos pais, depois de uma certa hora da tarde, desde aquele dia, eu não recebo mais ninguém... eu me isolo no quarto que foi dele, tomo um bom vinho, choro a sua falta e, me esforço para me lembrar e sentir o último abraço e as últimas lágrimas que ele me deixara de presente molhando meu ombro. Geraldo, meu amigo, tome esta medicação. Ela não fará você gostar da vida, mas, uma toalha mágica limpará os seus olhos enegrecidos pela desesperança e deixará a vida gostar ainda mais de você. Agora vá. Iolanda o espera. Eu pedi a ela que nunca tenha pena de você... eu pedi a ela que, se ela ama você, apenas o ame o mais profundamente que o possa fazer... volte em quinze dias, talvez tenhamos que ajustar a dose deste medicamento, ou, até mesmo substituí-lo.

 

                __Sim, Doutor. Até daqui a quinze dias.

 

                __Vá com Deus. Até daqui a quinze dias. Se houver necessidade volte antes.

 

                __OK, Doutor.

 

                E Geraldo voltou para a mansão da avó de Iolanda. Ansiosa ela o esperava, mas, já orientada por seu avô, Dr. Martinez, não falou de sua consulta, como também não deveria nunca falar da doença dele. Entraram e, como estava quase na hora do almoço, o tio de Iolanda ofereceu a Geraldo uma taça de vinho. Ele aceitou e voltou a ligar para seu pai, agora por vontade própria e, não, a pedido do médico. Também orientou Iolanda que se lembrasse do dia dos pais.

 

                __Papai, sou eu de novo.

 

                __Que bom meu filho. Não senti muita segurança em suas palavras quando me ligou pela primeira vez. Sua mãe ficou muito feliz quando você lembrou a ela que você não existiria se não fosse ela... ninguém se lembra disso, nem no dia das mães como no dia dos pais o que, na verdade é bastante lógico e evidente.

 

__Sim, papai. Aquela hora eu liguei por ordem de meu psiquiatra. Eu estava em consulta. Agora estou ligando por minha vontade. Eu amo você... eu amo a mamãe. Estou ligando para dizer que vou viver uma vida normal e que vocês vão se orgulharem de mim. Feliz dia dos pais. Eu serei um novo filho e, em consequência, você terá a chance de ser um pai sem angústias e sofrimentos.

 

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                __Divirta-se meu filho. Eu nunca duvidei disso. Curta bem o seu passeio. Parabéns por voltar a se tratar.

 

                __Estamos aguardando o almoço... uma paella! Depois sairemos para conhecer os principais pontos turísticos da cidade. Nossa intensão não era essa, mas, o incidente com o avião repercutiu muito e, o sobrenome espanhol de Iolanda chamou a atenção de seus parentes que apareceram e, embora tentássemos o contrário eles acabaram nos convencendo e nos trazendo para a mansão de sua vó materna. Um beijão. Já nos estão chamando para o almoço. Mando notícias mais tarde. Beijos. Um abração para a mamãe.

 

Depois do almoço, levados pelo tio de Iolanda, passearam muito e conheceram muitos pontos turísticos de Madri. Cansados voltaram à tarde para casa, se banharam e se trocaram, pois, já havia um convite de uma outra rede de televisão para entrevistá-los. Nas proximidades dos estúdios da rede de televisão, sobreviventes e seus parentes, bem com amigos além de uma multidão de repórteres, abriam caminho para que Iolanda e Geraldo pudessem passar até o salão de reportagens. Depois de muitas perguntas, elogios e respostas simples, sucesso absoluto, novamente, de audiência, eles voltavam para casa quando iolanda convidou, ou melhor, intimou Geraldo a ir novamente à mesma boate que foram inicialmente. E realmente foram. Inicialmente apenas conversaram. E muito tinham que conversar, pois, jamais poderiam imaginar a mudança que teria em uma planejada e simples viagem de passeio. Procuraram Madri sem se lembrarem, em nenhum momento, que era a terra dos pais de Iolanda e, muito menos que chegariam assim tão percebidos e notados. Depois de muito conversarem, depois de novamente dançarem e, dançarem muito, novamente se sentaram, desta vez longe do barulho da orquestra para muito conversarem e, com voz sempre convincente de sua posição sobre o viver ou não viver, Geraldo falou primeiro:

 

                               __Iolanda, minha Iolanda. Certo dia você não me deixou me matar... assim nos conhecemos... assim nos beijamos pela primeira vez... eu fugi de você e, tentando fugir de você, algumas outras vezes nos beijamos, algumas outras vezes eu tentei fugir de você e procurava uma forma de me matar que parecesse acidente diminuído, em parte, o sofrimento de meus pais... novamente você aparecia, conversávamos assuntos diversos, nos beijávamos e, mais uma vez eu adiava minha morte com a intensão de ver você mais uma vez e, quando isso acontecia, mais uma vez eu necessitava ver você antes de morrer... O tempo passou, embora até hoje eu sinta uma necessidade inevitável de morrer, você ao seu modo, talvez até sem pensar nisso, conseguiu e me levou a voltar a estudar e até, fazer um curso que jamais imaginaria fazer. Sem programação nenhuma conseguimos até ficar famosos e, em virtude disso, parecendo até um escrito de Deus, você encontrou a sua família. Pensei inicialmente que você jamais perdoaria a sua família, mas, você ficou tranquila e, me parece, adorou conhecer seus parentes aqui em Madri...

 

                               __Sim, depois que descobri que o culpado da fuga de minha mãe foi meu avô e que, segundo me contaram e, parecendo com sinceridade, e que, em virtude de não terem a mínima ideia para onde fugiram, não sabiam onde procurar... mesmo assim minha vó dedicou até hoje a sua vida viajando e pesquisando onde encontrar a sua filha injustiçada, a minha mãe. Realmente você tem razão. Eu os aceitei com muito amor. Agora eu tenho uma família maior. Saiba Geraldo, eu não vou morrer se você se matar, não vou. Creia não vou. Talvez eu considere que você tenha feito o melhor para você e, o que eu quero é o que seja melhor para você porque eu o amo muito, muito...Espero que eu consiga continuar adiando o seu suicídio pelo menos até que meus bisnetos conheçam seu bisavô... Aliás, sabe você, que você jamais passaria no psicotécnico que o liberaria para pilotar se realmente você tivesse um desequilíbrio de mediadores químicos cerebrais que colocassem você em risco e, consequentemente, quem estivesse sob sua proteção. Não foi, na verdade, o meu abraço silencioso na faixa de pedestre na praia de Santos que evitou o seu suicídio, muito menos meus beijos apaixonados que o fizeram adiar a sua morte. Nenhum psiquiatra e ou psicólogo conseguiu reverter o seu distúrbio suicida é porque na verdade ele não existe... Se eu notasse realmente a sua existência, a existência de sua personalidade suicida, meu amor, eu não teria desistido de você, mas, saiba, jamais deixaria você assumir o comando daquele avião sequestrado, eu, eu sim, o teria feito para nos salvar a todos como você o fez brilhantemente. Você sabe que conseguimos aprovação médica e psicotécnica para pilotar é porque não temos nenhum impedimento psicotécnico, psicológico ou psiquiátrico que nos impedisse. Meu avô, pelo que ele me telefonou assim que você saiu do consultório, você não tem nada de psiquiátrico... e mais, que a falta do brilho da vida de em seus olhos se deve a outro motivo que ele vai descobrir, mas, nunca, por um processo psiquiátrico incurável. Mas, para mim, Geraldo, com ou sem motivo para a morte, dê-me mais uma vez um motivo de vida, pelo menos de minha vida. Beije-me... beije-me com paixão, beije-me com toda a paixão que minha alma necessita ter. Beije-me com a paixão que me transporte por entre astros que nunca vimos e me leve por um caminho do qual eu jamais queira retornar, beije um beijo que me faça chorar se por acaso acabar sem terminar! Beije-me um beijo que nos faça um só corpo flutuante por entre todas as galáxias deste universo de um Deus qualquer e, certamente, não tenha dúvidas que, em algum astro atrevidamente escondido, eu reencontrarei o brilho de vida que algum dia foi roubado de seus olhos. Mesmo com o assombro da insegurança de sua vida e da ameaça de sua morte possivelmente a cada instante, Geraldo, meu Geraldo, eu viverei bem a cada minuto e, tão intensamente a cada momento, que terá valido a pena tamanha incerteza... não seque as minhas lágrimas, apenas cale a minha fala com seu beijo, um beijo que pareça nunca acabar!

 

                               E, como não poderia ser diferente, pararam em um motel e se amaram como se fosse a primeira, como se fosse a única e ao mesmo tempo, como se fosse a última, como se fossem crianças, menino e menina sonhadores em um mundo eterno, em um mundo que nunca se acaba, tendo apenas o amor nas mãos e a eternidade que nunca acorda e, apenas não acorda porque nunca dorme em seus silenciosos gritos de amor. Voltaram tarde para casa. Estavam de passagem comprada para dois dias depois. Já que o destino os fez encontrar com os parentes de Iolanda, resolveram ficar mais tempo, mesmo porque o avô de Iolanda, médico psiquiatra de Geraldo, Dr. Martinez, o esperava depois de quinze dias de tratamento. Ao chegarem na casa de sua vó, Iolanda telefonou para seus pais que, evidentemente, ficaram muito felizes com o tratamento de Geraldo. Ela disse que teriam que ficar por mais dias e pediram que seu Spadaro, seu pai, lhe mandasse mais dinheiro o que ele prometeu fazer imediatamente, não mandar, mas colocar em seu cartão de crédito. Neste Momento, já chorando de emoção, copiosamente, a vó de Iolanda pegou o telefone, interrompeu a conversação e, com toda autoridade de uma mãe sofredora que perdera a filha por ignorância do pai e, agradecida pelo socorro e pelo apoio que tivera daquele casal dando-lhe direito à vida mesmo que não longa, deixando-lhe uma neta como lembrança, ela, a vó de Iolanda solicitou, não apenas solicitou, mas implorou aos pais adotivos de Iolanda, que fossem para Madri para buscá-los, onde teriam uma grande surpresa e, apesar da insistência, não conseguiram saber do que se tratava. Assim fizeram depois que Iolanda pegou novamente o telefone, prometeram ir assim que encontrassem passagens, o que não seria difícil já que seus passaportes sempre estavam atualizados, pois, viajavam muito para o exterior. Dois dias depois conseguiram viajar. Quando  chegaram, todos os parentes os esperavam no aeroporto Barajas Airport, em Madrid. Foi um encontro emocionante. A vó de Iolanda estava frente a frente com um casal desconhecido que deram a oportunidade à sua filha viver uns anos de felicidades que o pai dela, seu marido, lhe negara. Embora tivessem reservado um hotel, a avó de Iolanda não permitiu e os obrigou a ir para a sua mansão. Depois da acomodação em um bom quarto da mansão que não era pequena, se banharam e desceram as luxuosas escadarias em direção ao salão de refeições. Antes, porém, enquanto sua esposa, Samara conversava com a vó de Iolanda, apenas confirmando toda a história que Iolanda apenas contara o que   ouvira,o Sr.  Sparato foi tomar alguma coisa antes do jantar. Preferiu aceitar a sugestão do funcionário e aceitou uma taça de vinho tinto seco. Durante o jantar a surpresa foi revelada.  A avó de Iolanda mostrou um documento, onde seu marido, antes de morrer, deixara a sua fortuna que era imensa já que era portador de uma empresa exploradora de minério de ouro, dividida entre todos. Ela e cada um de seus filhos... a mãe de iolanda, sem saber, tinha uma fortuna investida que daria para sustentar seis gerações, sem trabalho e, naturalmente, esta fortuna seria de Iolanda. Todos ficaram surpresos. Jamais imaginaram uma surpresa como esta. Iolanda falou primeiro e, de forma enfática, disse não aceitar este dinheiro já que o mais importante do que esta fortuna, fora negado à sua mãe, qual seja o direito de viver, de amar, de ser feliz e, mais, escolher a sua forma de ser feliz...e, por isso ela morreu! Minha mãe e meu pai trabalharam muito e, foram felizes sem esta fortuna. Eu já tenho profissão, meus pais não necessitam deste dinheiro. Vovó eu vou transferir este dinheiro para você e, dele, você faça o que quiser. Sua vó respondeu:

 

                               __Minha filha, o que meu marido fez já foi feito e não tem retorno. Eu e os outros filhos, os pais e os irmãos de seu avô, nunca concordamos com a expulsão dela de casa. Suplicamos a amigos e a religiosos que interviessem e, ninguém mudou a opinião de seu avô. Com o passar do tempo o remorso e a tristeza se juntaram para sufocar a sua vida. Ele nunca mais sorriu, ele nunca mais foi feliz. Tentou encontrá-la e, sem saber onde procurar, nada conseguiu. Ele não a odiava, ele a amava. Tomou uma decisão impensada de expulsá-la de casa, não se deixou comover pelos apelos iniciais e, quando se arrependeu tarde demais já era. Ele não deixou esta fortuna por pena, não, não foi. Ele dividiu em partes iguais e, sua mãe, minha neta Iolanda, teve direito à parte dela. Acho que deve reconsiderar.

 

                               Neste instante, com a sua forma educada de falar, Geraldo, pedindo desculpas, se intrometeu no assunto...

 

                               __Iolanda, a cada dia você me surpreende mais com as suas tomadas de decisões. Eu concordo com você. Você faz muito bem transferindo esta fortuna para a sua vó e ela certamente, não tenha dúvida, saberá empregar esta fortuna para ajudar entidades necessitas ou, se lhe parecer melhor, dividir entre os seus tios a parte de sua mãe. Você, Iolanda, tem toda razão e todo o direito de dizer não a esta fortuna e, saiba, isto engradece muito a sua vida, a sua alma e, sei, aumenta muito o amor de seus pais adotivos felizes por saberem do caráter que conseguiram passar para você... Você, Iolanda, só não pode dizer não à minha próxima pergunta. E, para que seja completa a opinião de toda a família, pelo menos, o conhecimento de toda a família, eu tomei a liberdade de mandar um taxi buscar o seu avô paterno, o meu novo psiquiatra, Dr. Martinez que acaba de chegar e espera você na escadaria central dos jardins da mansão... aliás ele não esperou e entrou sabendo e interessado na resposta desta pergunta que vou lhe fazer, minha adorada Iolanda. Alguém encha a taça do Dr. Martinez porque vamos fazer um brinde, dependendo, evidentemente, da resposta à minha pergunta... e perguntou: Iolanda, eu necessito de você para manter viva a minha vida... você quer se casar comigo?

 

                               __Geraldo, meu amor... eu quero me casar com você... nós nos amamos, mas, existe alguém que nos ama mais ainda, meu bem, o(a) nosso(a) filho(a)... estou grávida...

 

                               __Como assim, meu bem? Como assim Iolanda?

 

                               __Sim Geraldo, sim meu amor! Estou grávida, vamos ter um filho, ou filha.Teremos mais alguém para nos ajudar a correr por entre as galáxias, saltitando de astros em astros, como se fossem pedras das cachoeiras, procurando o salva vidas onde se esconde o brilho de seus olhos... com o brilho de seus olhos recuperado você poderá enxergar a vida como a vida enxerga a vida de seus olhos! Assim, meu amor, poderemos sepultar o fantasma da morte e vivermos para nós e para o nosso concepto.

 

                               Geraldo correu e abraçou a sua amada Iolanda, um abraço tão forte e sincero que fim parecia não ter. Ambos choraram e, se molhando um nas lágrimas do outro, se beijaram apaixonadamente e, aos outros que estavam em volta deles, só restou aplaudirem também, chorarem também e, em confraternização sincera, se abraçarem também.

 

                               E, felizes, cheios de agradáveis surpresas foram para a sala de jantar onde se fartaram com aquele delicioso cardápio espanhol. Depois voltaram para a sala de estar onde, conversando animadamente, aproveitaram para se conhecerem melhor. Já tarde da noite, o psiquiatra, avô de Iolanda, Dr. Martinez, pediu ao motorista que o buscara em casa, que o levasse de volta. Assim foi feito. Dr. Martinez estava com o coração confortado. Perdera seu filho, mas teve de volta um pedaço dele, uma neta muito bem-criada, uma família materna muito boa, pais adotivos que a amavam e um noivo que, embora necessitasse se encontrar, se amar, amar a vida que o amava, se tratava de uma boa pessoa. Como psiquiatra faria tudo fazê-lo a aprender a sobreviver e, assim pensando, chegou em casa, agradeceu ao motorista e entrou em sua casa que era também seu próprio consultório. Sentou-se na cozinha. Abriu outra garrafa de vinho. Não encheu a taça, apenas um pouco mais... apenas um pouco mais para ter tempo, ou um pouco mais de tento de curtir a saudade dos sonhos que aquela casa lhe trouxera um dia... o sonho dele e sua esposa sozinhos, depois o sonho dele, sua esposa e seu filho! Um filho que cresceu mais rápido que imaginara e, o que é natural, se apaixonou e deu mais importância à sua paixão e, para não a perder, com ela fugira sem dizer para onde. Sem dizer para onde e não correr o risco de ser encontrado. Certamente voltaria um dia, mas um “Deus qualquer” não lhe deu este tempo, não lhe deu este dia. Não tive a sorte de vê-lo brincar com a filha criança e não terá a sorte de brincar com o (a) neto (a) que vai nascer... Tenho que sobreviver para substituí-lo nessa missão e, sem beber o vinho, ali sentado ele adormeceu, desconfortavelmente ele ali adormeceu. Acordou pouco depois com o corpo todo dolorido, tomou um banho rápido e foi dormir onde já deveria estar, na cama.  Sonhou um sonho que nunca tivera sonhado e, que se bem orientado, poderia ajudar a muitos depressivos. Deixou para falar sobre isso com a sua neta Iolanda, mais tarde, depois do trabalho pois o consultório estava cheio.

 

                               Mais tarde Geraldo chegou, não como paciente, mas, já como parente, pois, sua consulta estava marcada para daí a quinze dias ainda. Dr. Martinez terminara a sua última consulta e convidou Geraldo a dar uma volta de carro e aproveitar para conhecer mais um pedaço de Madrid.

 

                               Saíram e conversaram sobre muitas coisas e o médico não deixou sair assunto de doenças, de depressão, de psiquiatria. Ali estavam para se divertirem.

 

                               Enquanto isso, também muito felizes com os acontecimentos, Dona Helena, Sr. Francisco e Iolanda comentavam sobre os acontecimentos dos últimos anos. Dona Helena lembrava a Iolanda sobre o impensado, mas, abençoado abraço que ela dera pelas costas em Geraldo naquela faixa de pedestres na calçada das praias de santos. Desde então, minha querida, embora ainda estejamos muito inseguros com a evolução da doença dele, muita coisa boa já aconteceu para nos aumentar a esperança. Continuemos o que estamos fazendo, não vamos cobrar dele a necessidade de permanecer vivo devido ao filho que deverá cuidar nem a responsabilidade do casamento assumido. Ele mesmo resolveu se tratar novamente, vamos esperar.

                Francisco e Helena, pais de Geraldo, Spadaro e Samara, pais adotivos de Iolanda, voltaram ao Brasil. Geraldo e Iolanda ficaram, afinal, Geraldo recomeçara o tratamento com o Dr. Martinez, avô de Iolanda.  O novo psiquiatra descobrira uma incoerência na visão de vida, na visão de viver e ou não viver de Geraldo. Ele era um paciente de caráter forte, de personalidade brilhantemente construída, de verdades incontestáveis em suas condutas, mas, sem dúvidas, o desequilíbrio bioquímico dos mediadores das sinapses de seu cérebro eram incoerentes e isto lhe dava uma esperança de fazer voltar a brilhar a vida em seus olhos. Incoerentes sim, pois, ninguém consegue amar a morte e desejar a vida de outros como fizera com o pássaro e com os passageiros que salvara do avião.  Embora já tivessem uma profissão, piloto de aeronave, Dr. Martinez aconselhou Iolanda que fizesse um curso de medicina e se especializasse em psiquiatria. Ela não só gostou da ideia como também convenceu Geraldo a fazer junto com ela. Ela tinha recurso para isso e poderiam muito mais se ajudarem como também, a outros ajudarem. Começaram e terminaram o curso em Madri. Neste período Geraldo não mais parou o tratamento, como, a cada dia mais sentia a necessidade de não se descuidar da medicação. Casaram-se. O casamento foi no Brasil bem no início do curso de Medicina feito em Madri. Hoje já formados, seu filho com 10 anos e outra filhotinha com 4 anos. Viviam muito felizes, mas, atentos à ameaça bioquímica do cérebro de Geraldo que parecia ter desaparecido. Parecia desaparecido mas preferiam considerá-la apenas adormecida. Resolveram vir trabalhar no Brasil e, aqui montarem um grande e diferente esquema de apoio, proteção e ajuda a pacientes necessitados de acolhimento e escora psicológica. 

 

Voltaram para o Brasil e em São Paulo, montaram uma casa de apoio ao paciente deprimido. Chamaram a casa de “LAR DOS ENCONTROS E ORIENTAÇÕES GERAIS” para que os pacientes não se sentissem constrangidos e discriminados e não a frequentassem. Até mesmo não quiseram trabalhar em psiquiatria para não despertar a discriminação. Procuram psiquiatras e psicólogos e os convenceram a aderir ao programa. Continuaram se atualizando, indo a congressos e especializações e, naturalmente, dando apoio, mas, buscaram a aviação como profissão. Ali a intensão era realmente a troca de experiências e busca de soluções para seus sofrimentos. Ali eles poderiam falar e serem ouvidos por pessoas iguais a eles. Uma pessoa normal não tem paciência para ouvir e nem mesmo entende as lamentações de um depressivo. Além disso poderiam trocar experiências e buscar soluções para outros problemas, como por exemplo atritos conjugais, atritos com pais e com filhos, atritos com parentes e amigos de um modo geral. Também poderiam se ajudarem com trocas de experiência em problemas financeiro, sociais, dificuldades escolares e de relacionamento. Uma equipe multidisciplinar formada principalmente por psicólogos, e, para disfarçar a finalidade principal que seria a ajuda a deprimidos, outros serviços eram prestados como assistência social, fisioterapia auxilio nas atividades escolares, bem como, educação financeira e advocatícia. No entanto para manter tudo isso Iolanda teve que aceitar o dinheiro que seu avô lhe deixara. Geraldo e Iolanda continuaram trabalhando em aviação.

         Todos nós, de quaisquer profissões corremos o risco de sermos acometidos deste desequilíbrio bioquímico cerebral e, consequentemente, desenvolvermos variáveis graus de depressão. Este lar deu muito certo pois cada profissional que ali entrava como paciente, dedicava seus conhecimentos profissionais, os conhecimentos profissionais de sua área para ajudar a outro que necessitava e, isto desviava o pensamento de cada um do mal que o acometia e, além disso, mostrava que não era um ser inútil na sociedade e, a cada dia, conseguia encobrir mais a angústia e o vazio da depressão com a oportunidade de ser útil a um novo amigo que fazia.

                Iolanda e Geraldo estavam muito felizes com a aviação, mas, duas coisas os incomodavam muito. Primeiro é que ficavam muito separados pois voavam em voos separados e, muitas vezes com escalas desencontradas. Segundo é que não conseguiam se dedicarem a algum tempo de consultório. Com a fabulosa herança deixada pelo seu avô, Iolanda convidou a sua vó, para, unindo as duas fortunas, formarem, montarem uma Companhia de Taxi Aéreo e assim o fizeram. Desta forma passariam a voar juntos e quando quisessem. Enfrentaram muitas dificuldades técnicas e burocráticas, perderam muito tempo, mas, enfim, conseguiram. Depois de um curto espaço de tempo preferiram contratar serviçais da aviação para manterem em funcionamento sua companhia de taxi aéreo e passaram a usar a aviação para entretenimento e passeios a sós, na maioria das vezes e, ocasionalmente com familiares. Tiveram mais tempo para se dedicarem ao consultório de psiquiatria, bem como à manutenção do “LAR DOS ENCONTROS E ORIENTAÇÕES GERAIS”, sempre com a preocupação de não o deixar   parecer um encontro de deprimidos.   Também tiveram mais tempo para curtirem seu casal de filhos que não paravam de crescer. Eram férias escolares, deixaram seu casal de filhos com os avós Samara e Spadaro, pais de Iolanda e pegaram seu jatinho e foram passear em um recanto qualquer deste Brasil maravilhoso. Partiram para um arquipélago, conjunto de ilhas situadas no mar de Pernambuco, conhecido por turistas do mundo inteiro, chamado Fernando de Noronha. Vinte e uma ilhas e ilhotas se aproximam e dão ao recanto beleza, paz e despertam o amor em quaisquer corações. Mereciam esta fuga, este descanso. Os últimos anos foram de expectativas, de insegurança e de esperanças incertas. Pegaram uma pousada mais próxima da praia. Os dias eram pequenos para se ver tudo, curtir os mergulhos em águas claras, se interagirem com os golfinhos e sentir a diversidade de peixes de tamanhos variados, belezas e atrações apaixonantes mostrando a necessidade da preservação dos mares, a preservação da natureza.

                Certa manhã, depois de um dia cansativo, Iolanda acordou Geraldo não estava no leito. Ela se assustou porque as palavras de Dra. Mariana nunca saíram de suas lembranças. (Que ele jamais teria cura). Iolanda se levantou rapidamente, procurou por toda a pousada e não o encontrou. Correu para fora da pousada e, que alívio, ele estava sentado na areia da praia. Respirou feliz e caminhou até ele. Chegou lentamente, pegou a sua mão, sentou-se ao seu lado...

                __Bom dia Geraldo!

                __Olá! Bom dia meu amor!

                E Geraldo se levantou, beijou a mão de Iolanda e a abraçou beijando docemente a sua testa. E perguntou, Iolanda...

                __Já tomou o seu café, meu amor?

                ---Não, meu bem, eu jamais o faria sem você. Vamos dançar?

                __Aqui? Com os pés na areia? Sem música?

                ---Não, não! Aqui sim, pois, meus pés não estão na areia e, sim, em seu coração... e a música também!

                E dançaram apaixonadamente e, quando se deram conta, estavam sendo aplaudidos por outros turistas que, como eles, ali estavam. Pararam de dançar e aplaudiram como agradecendo, correram em direção ao mar e, juntos, mergulharam nas águas claras. Nadaram e brincaram por muito tempo. Depois de cansados e com fome, pois, não haviam tomado o café da manhã, o desjejum necessário para começar o dia que, ali naquela pousada em que estavam, era exageradamente farto. Geraldo saiu correndo na frente perseguido por Iolanda que se divertia e se divertia muito. Quando se livravam da areia em um chuveiro externo à pousada, uma garçonete surgiu e, sabendo que estava quase terminando a hora de servir o café, ofereceu a eles que os serviria em uma mesa ali no jardim e, sem pensar muito, eles aceitaram, e assim foi feito. Depois de bem se alimentarem se juntaram a um grupo de turistas que em simpática embarcação os levou para conhecer as diversas ilhotas do lindo arquipélago, o que demorou todo o dia. Almoçaram em um restaurante flutuante, lancharam à tarde na própria embarcação. Voltaram para casa já à noite e, bem na hora, pois começava uma tempestade forte e, com ventos amedrontadores. E, estavam cansados, muito cansados. Sentiam saudades dos filhos embora soubessem que eles estivessem bem. O vento trazia frio. Escolheram uma bela roupa e foram para o banho. Apenas se admiram, apenas se elogiaram, apenas se beijaram, mas não fizeram sexo como sempre o faziam, pois, estavam cansados e famintos. Após o banho, naturalmente, se trocaram e desceram para a sala de jantar. Antes, porém, se dirigiram ao bar da pousada e tomaram um bom vinho. E, em seguida se dirigiram ao refeitório e buscaram comer comidas típicas da região que, evidentemente, se somariam às lembranças do lugar. Durante o jantar, em conversa com conhecidos, foram estimulados a irem dançar em bar famoso ali perto e, felizes, foram. Foram e dançaram, dançaram e dançaram muito. Nesta hora uma moça que acabara de sair do bar com seu companheiro, voltou gritando pedindo socorro, pois, segundo ela, do lado de fora, seu companheiro ameaçava se matar. Todos tentaram correr para fora do bar, ou querendo ajudar, ou, talvez, apenas por curiosidade, mas, impetuosamente, foram impedidos por Geraldo e Iolanda. Eles se identificaram como médicos psiquiatras e disseram que iam tentar resolver. E Geraldo pediu a Iolanda que fosse lá sozinha. E ela obedeceu, saiu e logo viu um homem com uma arma apontada para o ouvido direito e, calmamente, ela se aproximou. Em princípio nada disse, apenas manteve a mão espalmada em posição como se lhe pedisse calma... depois falou!

                __Não, nos conhecemos... você não tem que me dar satisfação, mas talvez eu possa lhe ajudar! Você vai sofrer muita dor se puxar este gatilho... Sua dor passará de imediato, mas, se existe alguém que ame você, este alguém nunca se livrará desta dor... e, se é algum problema que você quer resolver você apenas não mais saberá dele, mas, meu rapaz, ele não será resolvido. Posso pelo menos saber que problema é esse? Puxar este gatilho é, sem dúvida, mais fácil, no entanto, em algum lugar, a felicidade está esperando você e, desta forma, não a conseguirá encontrar... se quer mesmo morrer, adie esta hora e repense em mudar de caminho, em mudar de pessoas, em mudar de busca... em algum lugar, talvez longe, talvez perto, quem vai saber, a felicidade espera você! Deus o colocou neste mundo para ser feliz e, se por acaso, você não está feliz onde está, não se mate, não deixe a felicidade esperando, mude o seu caminho, “a felicidade é um anjo vagabundo”, não fica muito tempo esperando, mas se você se propuser a procurá-la, o seu caminho será mais curto... Você tem dois caminhos agora: o mais curto é puxar este gatilho e, o outro, ainda não sabemos se longo ou curto, mas, não tenha dúvida, em seu final está o pote de felicidades. Abaixe esta arma, adie a sua morte, abraça-me e chore todo o seu choro necessário em meus ombros. Sou Psiquiatra, talvez eu consiga carregar você em meu colo, mas quero fazê-lo com você vivo, não morto.

                __Não se aproxime, não se aproxime, pois, eu vou me matar...eu sofro muito um choro muito sentido. E, não consigo viver com esta dor em meu coração, em minha mente. O melhor é eu me matar...não se aproxime, não se aproxime! Encontrei aqui neste bar a minha noiva com outro homem e, saiba, estamos de casamento marcado!

                __Escute, escute. O mais fácil para você neste momento é, sem dúvida, puxar o gatilho. O mais fácil para a sua noiva também será torcer que você puxe o gatilho... Talvez ela chore em seu velório e em seu enterro...talvez sim... com certeza sim! Mas, ela terá vencido, pois, ficará livre para continuar traindo você sem ser reprovada, pois, você estará morto e esquecido. Temos um Deus qualquer que sabe escrever e desenhar o nosso caminho. Não puxe o gatilho. Termine o seu noivado de maneira digna... Deixe-a assustada com a sua conduta que ela não espera. Leve uma rosa para ela, agradeça o tempo que passaram juntos e, sem repetir ou lamentar frustrações, diga apenas que você vai procurar o seu “pote de felicidades”. Saia sem olhar para trás, nada comente sobre esta traição, pelo contrário, deixe que o povo assuma esta irresponsável responsabilidade e, não tenha dúvidas que a sua, agora ex-noiva, passará a ré e, brevemente você em algum lugar encontrará este “anjo vagabundo” “a felicidade” e sua honra não será afetada... sua noiva sim, terá que tentar provar que não mais cometerá traições amorosas.

                __Não tenho esta certeza. Não sei se obedeço ao meu coração ou ao meu cérebro!

                __O seu coração mandará você puxar este gatilho e, só. Sua ex-noiva vai adorar... O seu cérebro vai querer que você tente atravessar o arco íris de sua alma, o arco íris das almas de todos aqueles que amam você e, no final deste arco íris, sem dúvida, você tropeçará em seu pote de felicidades. Agora eu vou embora... se eu não ouvir um tiro, estarei à sua disposição para lhe ajudar! Encontre-me amanhã bem cedo na praia! Agora eu vou embora! Tchau!

                __Espere, espere! Vou em busca do arco íris! Leve este revolver e, não o entregue a ninguém, coloque-o sobre o balcão do bar... diga apenas, se perguntarem... não o faça se não perguntarem: “ele encontrou o seu pote de felicidades... estava além do arco-íris seguindo “o caminho das borboletas...”

                __Veja bem meu amigo. Eu tenho uma empresa em São Paulo. Vou deixar meu cartão aqui no chão. Se você tiver dificuldade me procure e eu posso ajudar. Vá com Deus!

                E o moço caminhou sem olhar para traz, deixou no chão o revolver, passou rapidamente na pousada, pegou suas coisas e pegou uma lancha que o levou ao continente deixando a noiva para trás. Enquanto isso, Iolanda pegou o revolver deixado no chão, caminhou até o balcão do bar onde o deixou, conforme prometera. Todos correram até ela querendo saber o que acontecera lá fora e, insistentemente, várias perguntas, muitas delas repetidas, lhe foram feitas e, como profissional, apenas respondeu que ele preferira atravessar “o arco íris” e ir em busca de seu “pote de felicidade”. Ninguém entendeu muito, mas, deixada pelo noivo e pelo amante, a noiva ficou isolada e perdida em não se sabe em quais pensamentos, sentada em uma mesa em um canto do bar. Geraldo se aproximou e Iolanda, contando o aconteceu, o convidou a voltarem para a pousada. Geraldo a elogiou pela bela atuação salvando mais um suicida. E completou Geraldo, você está se tornando uma especialista. E a parabenizou. Chegando à pousada, cansados como estavam, ainda inventaram de, no apartamento, conversando assuntos diversos, ainda abrirem e tomarem uma nova garrafa de vinho e, não seria diferente, ali dormiram e nem notaram a queda das taças de vinho que se quebraram no chão frio, pois, caíram de suas mãos ao serem roubados pelo cansaço e pelo sono que, quando intensos, não pedem licença para chegar... Iolanda acordou já com sol alto bem tarde naquela manhã que já terminava! Levantou-se lentamente daquela desconfortável posição em que dormira no sofá, telefonou para a recepção e pediu o café da manhã e, na bandeja, uma rosa vermelha. Não se banhou, esperou o serviço de quarto e, assim que chegou, estava na porta para que não fosse tocada a campainha. Agradeceu, deixou o carrinho com a bandeja no meio do quarto. Pegou a rosa vermelha e a escondeu nas costas. Foi até o sofá, acordou Geraldo e, em meio ao susto de seu amado por descobrir como dormira, ela lhe ofereceu a rosa e o convidou a dançar... sem música! E, não apenas dançaram, sem música, se beijaram, se apertaram, se acariciaram e se amaram como se fosse a única ou a primeira e, como se fosse a penúltima, pois, jamais queriam que a fosse a última... a última nunca poderia existir! Sempre que se amavam era como se transformassem em um só corpo, um corpo que se levitava e se transportava entre o real e o irreal, entre a verdade e o medo da realidade, flutuando por entre os astros, deles os mais belos, deles os mais distantes desta terra nossa, embora amada, muito maltratada pelo descuido de autoridades desconfortavelmente egoístas e indiferentes. E, felizes, acabaram de se acordarem debaixo do chuveiro em um prolongado banho de amor. Depois se secaram e tomaram o desjejum que já os espera há algum tempo no meio do quarto... Iolanda e Geraldo se amavam a cada dia mais e, a cada amada parecia se tornarem em um só corpo, em duas metades impossíveis de separação, pois, iminente seria a morte, não apenas do amor, não apenas de duas metades ocasionalmente unidas acidentalmente por heterossexualidades naturais, mas, por amor e mais amor e, apenas amor. Depois ainda viajaram para um congresso de psiquiatria em Fortaleza. Voltaram para casa e foram visitar a organização anônima de ajuda de depressivos. Quem estava lá à sua espera? O suicida que salvara no arquipélago de Fernando de Noronha.  Armando era o nome dele! Conversaram bastante e, explicando que ali não se empregava ninguém. Apenas se abriam as portas para as pessoas que necessitavam ser ouvidas, muito ouvidas, por muitas vezes ouvidas e, na família e, nos chamados amigos, não encontravam paciência para serem ouvidos como necessitavam, não como desejavam, mas, como necessitavam como principal fármaco. O suicida, como era o que se desejava, concordou. Começou a frequentar e a impressionar com a sua capacidade de ajuda!

                Eram férias escolares e Iolanda e Geraldo pegaram um jatinho de sua empresa, e, com seus filhos, Bernardo, o mais velho, de dez anos de idade e, sua filha, Ana Júlia, de quatro anos e viajaram para Orlando, nos USA, para conhecerem e se divertirem no mundo de Disney. Quando retornaram, ficaram felizes sabendo que Armando, o suicida de Fernando de Noronha, estava namorando com uma secretária daquela entidade de apoio anônimo aos depressivos. Dra. Iolanda sentiu que ele tentava encontrar o caminho do arco-íris.  Logo que chegou na entidade pode sentir como Armando estava sendo útil. Todos com os quais conversava só tinham elogios para ele e, sem dúvida, a certeza da ajuda e salvação daquele ser humano. Foi falar com a secretária namorada de Armando e, estranhamente, não sentiu muito entusiasmo naquela linda moça a respeito do namoro. Pensou em tentar saber porquê, mas, preferiu esperar. Seguiu para outras atividades suas que não eram poucas. Quando já tarde, bem tarde da noite, voltava para casa com seu amado Dr. Geraldo, seu celular tocou. Era um número desconhecido. Dra. Iolanda atendeu.

                __Alou... quem fala?

                __Boa noite, Dra. Iolanda. Desculpe-me por estar ligando. Você não me conhece e, portanto, não vai ter certeza se pode ou não acreditar em minha história. Você me viu apenas uma vez. Eu tive dificuldade de encontrar o seu telefone. A pousada que você ficou em Fernando de Noronha, por mais que eu implorasse, não me deu seu telefone. Você, heroicamente, achou que salvara um suicida traído por sua noiva. Agora fiquei sabendo que ele está trabalhando em uma de suas entidades voluntárias. Não pude esperar mais e corri atrás até conseguir o seu celular. Aquela pessoa que você salvou do suicídio, tem diversos documentos falsos, usa vários nomes falsos. Quando eu descobri e tive certeza desta verdade, terminei o noivado e ele não aceitou e fez toda aquela cena... Eu senti um medo enorme de me sentir responsável pela morte dele e, fique certa, fiquei feliz que você o tenha salvo. Já sei que aí ele está registrado como Armando... Eu o conheci como Roberto. Tente salvá-lo, pois, ele deve ser doente mental. Eu já não era mais a sua noiva. Ele quis fazer um espetáculo e conseguiu. Sinceramente, quer saber, eu acho que ele não se mataria. Tome cuidado com ele. Vou desligar. Tenha cuidado.

                ­--Alô... alô...

                Dra. Iolanda tentou religar, mas não foi atendida. Contou ao Seu marido, Dr. Geraldo e, ficaram preocupados. Dr. Geraldo ligou para o celular da secretária e ela não atendeu. Ligou para a casa dela e sua mãe respondeu que ela saíra com o novo namorado.  Chegaram então à conclusão que estudariam o caso no outro dia. Afinal, quem estaria mentindo?

                Não estava na sua programação, mas, depois esta dúvida que lhes roubaram o sono em sua totalidade, antes de irem para outros compromissos, foram direto para a sua entidade de apoio aos depressivos. Sorridente e em plena atividade “Armando” já estava lá. Deram falta da secretária e, foram interpelados por “Armando” que lhes perguntou:

                __Onde está Marina (a secretária)? Ela nunca se atrasa!

                --Não sabemos! Vou ligar para ela.

                E assim fez Dr. Geraldo, ligou no celular de Marina, insistiu e não teve resposta, então ligou para a casa dela e sua mãe respondeu que ela não voltara para casa. Saíra à noite com seu novo namorado e, até aquela hora, não tinha voltado. Dr. Geraldo agradeceu, pensou em interrogar “Armando”, mas Dra. Iolanda o impediu. Alegou que ele não tinha que nos dar satisfação. Resolveram esperar os acontecimentos.  Não demorou muito e os jornais policiais daquela manhã anunciaram o encontro do corpo de Marina em um matagal ali bem perto. Em seguida a mãe dela ligou querendo saber alguma explicação do novo namorado. Dr. Geraldo tentou encontrá-lo e, ele já não estava mais ali e, não tinha nenhuma obrigação de estar já que se tratava de um trabalho voluntário. Nesta hora, informada pela família sobre o último encontra da filha (secretária Marina), a polícia chegou querendo informações e depoimento de “Armando”. Ao mesmo tempo, desesperada e em choros, a mãe de Dra. Iolanda ligou afirmando que um mascarado entrara na sua casa, pegara a menina Ana Júlia, sua filha, de quatro anos e, depois de atirar em seu Spadaro que tentara reagir, fugira em um carro sem placa. Spadaro não resistiu e faleceu antes de chegar ao hospital.  Ligaram no celular de “Armando” sem resposta. Junto com a polícia foram para a casa da mãe de Dra. Iolanda E nada conseguiram que os ajudassem. Dra. Iolanda, desesperada, não sabia o que mais lhe doía o coração: seu pai morto em um Hospital aguardando o Instituto médico legal ou a sua pequena, de quatro anos, sequestrada e, ainda sem notícias. Neste instante o celular de Dra. Iolanda toca, e, logicamente, ela atende rapidamente:

                __Mamãe, mamãe, socorro... socorro mamãe! Um homem mascarado me amarrou em um quarto e foi embora. Eu consegui me soltar, mas, não sei aonde estou. Você pode me ajudar?

                __Claro que sim minha filha. Tem algum ponto de taxi aí perto?

                __Não sei, acho que não. Estou falando de uma padaria...

                __Por favor, chame alguém da padaria, funcionário, de preferência o dono...

                ­­E a garota fez isso. Chamou um funcionário que atendeu o telefone. Dra. Iolanda explicou os acontecimentos, depois de se identificar, e, pediu que protegessem a pequena Ana Júlia que ela iria buscá-la. Copiou o endereço e partiu a toda velocidade imaginando a angústia que passara a sua filhotinha. Quando chegou no endereço sua filha que a esperava na calçada sendo consolada por uma funcionária, correu e a abraçou chorando desesperadamente. Dra. Iolanda a consolou como sabia muito bem. Antes de voltarem a pequena, mas, esperta criança mostrou a sua mãe a casa onde ficara presa. Iolanda antes de voltar ligou para a polícia e esperou a chegada da perícia para mostrar a casa que servira de cativeiro. Depois entraram no carro, mãe e filha, e voltaram para casa. Tentou deixá-la na casa dos pais de Geraldo para evitar o clima de tristeza em que estava envolvida a família, mas, com medo, a pequena Ana Júlia não se desgarrou dela. Então, sabedora do sofrimento de sua filha e, acostumada pela profissão, preferiu explicar tudo que acontecera à pequena Ana Júlia e deixou que ela participasse de tudo, desde o velório até o enterro de Sr. Spadaro assassinado pelo sequestrador. Cansada, a pequena filhotinha cochilava alguns momentos e, em vários, novamente se despertava e voltava a se agarrar em sua mãezinha querida. Bernardo, mais velho, com dez anos de idade, entendia melhor o que estava acontecendo e, chorando muito, não se desgarrava do caixão de seu avô. Dra. Iolanda e Dr. Geraldo, seus pais, não o impediram de estar ali, mas, sabedores do sofrimento dele, não o deixaram só em um só momento. Algum tempo, não muito, ficaram sabendo pela mídia que “Armando”, ou seja, qual fosse seu nome, trocara tiros com a polícia e morrera. A senhora Samanta sofria muito e os amigos, vizinhos e, principalmente, sua filha adotiva, Dra. Iolanda, e seu genro, Dr. Geraldo, tentavam consolar a sua dor e a sua perda.

                Mas o tempo não para. O trabalho de Dra. Iolanda e Dr. Geraldo era cada vez mais intenso e eficaz. Dez anos se passaram e, inevitavelmente, muitas perdas envolveram o casal. Faleceram os pais de Geraldo, e, o que já era esperado, teve piorado o seu quadro depressivo, mas, habilmente, sua esposa, Dra. Iolanda, soube contornar a descompensação e fazê-lo voltar à realidade, à necessidade da vida e à responsabilidade da felicidade de seus filhos.  Também faleceram dona Samanta, mãe adotiva e a avó materna de Iolanda. Falecera também, em Madri, seu avô paterno, o psiquiatra Dr. Martinez. Bernardo, o filho mais velho, agora com vinte anos, já estava na faculdade, também de medicina. Ana Júlia, embora ainda com quatorze anos, parecia se interessar mais por aviação e muito se dedicava a acompanhar o progresso da companhia de taxi aéreo de seus pais. E, como, infelizmente, nada para o tempo, Bernardo já terminara o curso de medicina e pós-graduação em cirurgia geral e, apaixonava-se mais e mais a cada dia pela medicina. E, consequentemente, a cada dia, também, mais e mais aumentava o seu trabalho.

                ­­­­__Certo dia, em um feriado prolongado de fim de semana, Bernardo dirigia na rodovia de Curitiba em direção a Florianópolis onde participaria de um congresso médico. Lindas montanhas enfeitadas pelas belezas ainda existentes da Mata Atlântica tentavam insistentemente desviar a atenção dos motoristas em perigosas e numerosas curvas que insistiam em não sair do caminho. Repentinamente, passou por ele um carro em alta velocidade que, descontrolado, saiu da estrada e bateu violentamente em uma árvore que margeava o encostamento. Bernardo, como não poderia ser diferente, parou para prestar socorro. E, um incêndio começou no motor do carro. Rapidamente correu até o carro e retirou duas moças, aparentemente jovens e as arrastou para bem longe com medo de explosão. A primeira que tirou estava grávida. Enquanto arrastava a segunda ouviu um choro de bebê.  Quando correu em direção da primeira vítima, que estava grávida, observou que estava morta e entrara em trabalho de parto e o recém-nascido chorava vigorosamente. Voltou à segunda vítima que respirava bem e, ainda desmaiada, movimentava os quatro membros e gemia levemente. Dr. Bernardo voltou para concluir o parto da gestante morta. Cortou, após ligá-lo, o cordão umbilical. Neste momento o carro acidentado explodiu e o fogo se alastrou rapidamente por todo o veículo. Também nesta hora a outra acidentada acordou gritando desesperada e, se levantou correndo em direção ao Dr. Bernardo que, usando material de emergência que sempre carregava em seu carro, cuidava da bebezinha recém-nascida. Ela debruçou chorando desesperadamente sobre o corpo inerte a quem chamava de irmã. Dr. Bernardo, embalando a bebezinha, apenas a observava e a deixava chorar. Depois de algum tempo outro carro parou para ajudar. Uma senhora saiu do carro e ofereceu ajuda. Dr. Bernardo pediu a ela que segurasse a bebezinha. Ajoelhou-se ao lado da moça, perguntou se estava sentindo alguma dor, se apresentou, se identificou como médico. A moça se levantou e o abraçou chorando desesperadamente. Contou que eram irmãs, estavam sós em casa de seus pais em seu sítio, quando ela entrou em trabalho de parto, por isso estava em alta velocidade em direção à maternidade. Nesta hora chegou a ambulância do serviço local de emergência. Chegaram ao local monitorizados por câmeras da rodovia. Quando viram que uma das vítimas estava morta, ligaram para o Instituto Médico Legal e polícia técnica, pois, não poderiam tirar o corpo do local. Dr. Bernardo, depois de conversar bastante, prometeu à segunda vítima, viva, cujo nome era Larissa, que fosse na ambulância junto com a bebezinha para o Hospital e que ele ficaria ali aguardando a polícia técnica e que acompanharia o corpo de sua irmã até o serviço de verificação de óbito e a manteria informada. Trocaram telefones e Larissa seguiu levando a bebezinha, na ambulância de emergência, e, seguiram para o Hospital da cidadezinha mais próxima. Em seguida, não muito tempo depois, chegou o carro do IML e, Dr. Bernardo o seguiu até sua sede em seu próprio carro. Quando lá chegou, que surpresa... o médico plantonista, patologista, fora seu colega de faculdade e se abraçaram felizes pelo encontro, apesar da tristeza do momento. Depois de muito conversarem, seu colega determinou a maior rapidez da necropsia e, em pouquíssimas horas, o que não é comum, o corpo foi liberado. O diagnóstico foi fratura de costela com transfixação do miocárdio... ela estava sem cinto de segurança... Dr. Bernardo ligou para Larissa, a outra vítima. Ela havia passado por exames de imagem, assim como também, a bebezinha e, que, segundo a equipe médica estava tudo bem e que, já estavam liberadas. Neste momento chegava ao IML os pais e irmãos dela. Então, cumprida a sua promessa, Dr. Bernardo, após pegar o endereço do hospital, pediu que ela esperasse que ele iria buscá-la e levá-la junto com a recém-nascida, para casa. Assim fez Dr. Bernardo. Quando chegou no endereço anotado, do hospital de uma pequena cidade de Santa Catarina, foi até a recepção e, se identificando, disse que fora buscar a bebezinha que estava de alta e de sua acompanhante também acidentada! Pediram que esperasse. Ligaram para os setores relacionados e, em poucos minutos, uma técnica de enfermagem apareceu trazendo Larissa em uma cadeira de rodas e, ela, Larissa, trazendo no colo a bebezinha. Dr. Bernardo pegou a criança nos braços e acompanhou Larissa até o carro. Seguindo as orientações dela, Dr. Bernardo chegou até a casa de Larissa onde, não seria diferente, o clima era de uma tristeza profunda e todos choravam copiosamente.  Cumprida a sua obrigação de cidadão, após se despedir de todos, Bernardo continuou a sua viagem para Florianópolis onde um congresso o esperava. Ouviu de Larissa que manteria contato em agradecimento pela ajuda que dele recebera.

                Chegando e se instalando em um hotel preservado em Florianópolis, depois de um banho demorado, já tarde da noite, desceu para o restaurante para jantar. Ainda faltava uma hora para terminar o horário de janta e Dr. Bernardo se dirigiu ao bar e, como sempre fazia, pediu uma boa taça de vinho seco. Enquanto degustava o vinho o telefone tocou... era Larissa:

                __Dr. Bernardo, é você?

                __Sim, Larissa, sou eu. Aconteceu mais alguma coisa?

­­__Boa noite! Estou ligando para saber se você chegou bem!

__Sim Larissa, sim Larissa. Cheguei bem sim. Já estou no Hotel. Estou indo jantar. E vocês, como estão controlando esta dor?

__ Estamos aqui no velório de minha irmã e a dor e a tristeza nos corroem e, estranhamente, parece que você deveria estar aqui... o vazio ficou maior quando vi seu carro sumir na curva da estrada... esqueça o congresso, por favor, eu necessito de um colo, de seu colo, de seu abraço... em meus dezesseis anos de vida, embora eu tenha uma família linda e maravilhosa, pela primeira vez eu sinto que não consigo me conduzir sozinha e, entre todos, sinto que só a sua “escora” realmente me escora.

__infelizmente, minha amiga, não posso fazer isso. Serei parte importante do congresso, pois, tenho um trabalho para apresentar. Prometo que passarei aí assim que estiver de volta.

__Tudo bem Dr. Bernardo, perdão pelo meu egoísmo. Você já ajudou muito. Espero você depois do congresso. Bom jantar.

__Obrigado, Larissa.

Dr. Bernardo se sentiu estremecer diante daquelas palavras. Até então só apenas estudara e trabalhara... jamais ouvira de uma mulher palavras que o fizesse se importar e se sentir bem e, a dúvida de seguir ou não para o congresso passou a ocupar seu pensamento de forma bem incomodativa. Pediu outra taça de vinho e caminhou para a mesa onde escolheu uma sopa para o jantar. Enquanto a sopa não vinha, tomou outra taça de vinho e decidiu esquecer o congresso e voltar para atender os pedidos de Larissa, ou, quem sabe, alguma coisa em seu coração que o fazia, irresponsavelmente, esquecer a sua missão no congresso. Tomou, no total, quatro taças de vinho, tomou uma das melhores sopas dos últimos anos e, sob o frio intenso de Florianópolis, não poderia ser diferente, foi dormir algumas horas já que estava alcoolizado e não poderia dirigir, principalmente à noite pelas perigosas estradas de Santa Catarina. Na verdade, não conseguiu dormir. Apenas alguns cochilos sobressaltados. Seu relógio ainda marcava quatro horas da madrugada e, sem nenhuma possibilidade de dormir, levantou-se, tomou um bom banho e ligou para a portaria pedindo que fechasse a sua conta. Em poucos minutos estava com a sua bagagem sendo colocada no carro, depois, naturalmente, de pagar as suas despesas no hotel. Pegou a estrada na escuridão da madrugada. Dirigindo com cautela pelas traiçoeiras armadilhas de estradas apagadas pela escuridão da madrugada, contava a cada momento, cada quilômetro que deixava para trás e o deixava mais próximo de Larissa. Algumas horas depois, já com o sol alto tentando compensar o frio que era intenso, lentamente, o carro de Dr. Bernardo buscava uma vaga no estacionamento do necrotério e, enfim, estacionou seu carro e, lentamente saiu imaginando como deveria ser o encontro com Larissa que, sem pedir licença, entrara em sua vida...  Larissa tinha apenas dezesseis anos e, ele era doze anos mais velho. Ao vê-lo, aquela linda menina moça correu e pulou em seu corpo em um abraço frenético... agarrada fortemente em seu abraço, Larissa chorava intensamente e inconformada com a morte de sua irmã, encontrava naquele abraço um conforto indispensável para a sua dor. Discretamente, mas, sempre tendo Larissa ao seu lado, Dr. Bernardo acompanhou todo o velório até o final do enterro. Depois fez questão de ir ver a bebezinha que nascera no acidente... Todos da família vieram lhe agradecer a ajuda naquela hora de desgraça e tristeza. Foi convidado e, aceitou, jantar e dormir ali em meio a toda aquela angústia familiar. No outro dia, Dr. Bernardo foi para Florianópolis para participar do que ainda restava do congresso. Recebeu advertência por não cumprir a apresentação de seu trabalho como programado. Desculpou-se, mas não se livrou da advertência escrita conforme o protocolo. Ainda faltavam dois dias para o término do congresso. Cansado, ao final de mais um dia de muita atualização naquele encontro médico, Dr. Bernardo acabara de chegar ao Hotel. Tinha em mente apenas tomar um bom vinho, banhar-se, jantar e dormir. No entanto, ao pegar a chave na recepção do hotel foi informado que uma moça havia se hospedado naquela tarde e queria vê-lo assim que chegasse. Antes mesmo de conseguir entender o recado o elevador se abriu e uma figura linda de mulher, das mais lindas que seu coração pudesse querer encontrar, apareceu no saguão do hotel, Larissa. Dr. Bernardo se sentiu muito frágil, muito incapaz de esconder a felicidade daquela visão... ficaram parados se olhando sem saber ao certo, na verdade, quanta verdade poderia começar naquela atitude inesperada de Larissa. Seus olhares se fixaram um no outro e foram se aproximando lentamente e, tão romanticamente lento que lhes parecia que estavam parados e o chão é que se encurtava sob seus pés. E, sem desviarem os olhares, se deram as mãos e, não se importando com as lágrimas indiscretas que rolavam silenciosas pelos rostos dos dois, caminharam até o bar do hotel. Sentam-se em cadeiras de uma mesa bem à frente de todos que ali estavam. Dr. Bernardo pediu o vinho que já vinha programando tomar e, Larissa quebrou o silêncio dizendo que o acompanhava como também queria, dali para frente, em tudo acompanhá-lo. Músicas românticas completavam o clima de amor, muito baixinho elas tocavam, quase inaudível para os ouvidos, mas suficientemente audíveis para corações apaixonados... levantando-se, elegantemente, Larissa pegou as mãos de Dr. Bernardo e o convidou para dançar. Ele não sabia bem o que pensar. Larissa era doze anos mais jovem, era, para ele, ainda uma criança de dezesseis anos, mas sem conseguir coordenar seus pensamentos, ou pelo menos torná-los coerentes, levantou-se e se deixou levar pela tentação de seu abraço que o levou na magia da dança... e tão romântica e inocentemente o fizeram que o barman aumentou discretamente o volume da música e, todos que ali estavam aplaudiram o que parecia um amor começando a nascer. Dr. Bernardo inquiriu, preocupado, assustado e, ao mesmo tempo, feliz.

__Larissa, Larissa. o que faz aqui? O que trouxe você aqui?

__Você me trouxe aqui eu quero você...

__Minha filha, você ainda é uma criança... Você tem apenas dezesseis anos, eu tenho treze anos a mais, eu já tenho vinte e oito anos.

__Eu não sou mais criança. Aliás, eu gostaria sim de ser uma criança, pois, assim eu não teria me apaixonado por você quando o vi pela primeira vez naquele acidente onde minha irmã morreu e, mesmo morta deixou nascer uma linda meninha.

__Sim, é isso. Você está apenas com sentimento de gratidão por eu ter ajudado vocês.

__Dr. Bernardo, como eu gostaria de ser gratidão. Mas, gratidão, por maior que seja, não nos tira o sono, não arranca tudo que temos no peito e, para substituir o espaço vazio deixado, coloca a sua imagem linda, sempre linda exibindo seu lado protetor e amorosamente aconchegante. Não Dr. Bernardo, isto tem outro nome. Somente vou sair de sua vida se você já tiver outra ou simplesmente me rejeitar.

Bernardo tentou falar, mas, Larissa, colocando o dedo indicador na boca o intimava a não falar. E disse ela que ele a mandasse embora que ela sairia sem olhar para trás e, disse mais, vou sem olhar para trás para que você não me veja chorando e tenha pena de mim. Dr. Bernardo sentiu nela uma mulher decidida em um corpo de criança. Uma linda mulher criança.   Pararam de dançar e voltaram para a mesa. Ele a contemplou com um olhar e sentimentos diferentes dos até então manifestados. Ela estava elegantemente vestida, vermelhos e grandes lábio contrastavam com seus lindos olhos verdes de catarinense. Cabelos loiros caiam desordenadamente sobre seu ombro mal coberto, apesar do frio daquela noite.  Suas mãos não se soltavam. A mente de Dr. Bernardo misturava remorso e culpa por estar despertando aqueles sentimentos em uma menina moça. Mas, ao mesmo tempo, parecia que seu coração queria aquilo. Terminando a última taça de vinho ele perguntou:

__Você já jantou, Larissa?

Ela respondeu que não pois, o estava esperando. Então ele disse que ela aguardasse mais um pouco, pois, ele merecia um bom banho. Ela disse que o esperaria no jardim de inverno daquele majestoso hotel e, ele, subiu para seu quarto. Sua mente estava confusa. Banhou-se demoradamente tentando disciplinar os contraditórios pensamentos que confundiam seu cérebro. Vestiu-se e se perfumou. Desceu rapidamente e, ao chegar no jardim de inverno a encontrou chorando.

__Que foi, Larissa?

   __Estou pela primeira vez feliz em muitos anos e sinto que a minha felicidade não está segura. Não tenha pena de mim. Acredito muito em Deus e acho que ele nos põe à prova para testar nossa sapiência e tolerância. Desculpe-me o desabafo.

Caminharam para o restaurante e foram avisados qu o horário de janta já havia terminado. Poderiam, se quisessem, pedir algum lanche rápido. Preferiram não. Combinaram de sair e jantar e, assim o fizeram. Dr. Bernardo pegou o carro, abriu a porta para que ela entrasse e saíram em direção de um restaurante que ela conhecia. Lindas e românticas musicas tocavam no rádio do carro. Nesta hora a programação foi interrompida para uma notícia dramática. Em um hospital da capital chegaram, levadas pelo resgate, várias vítmas de ferimento por arma de fogo em um assalto e, no hospital, só havia um cirurião. Estavam convocando cirurgiões do hospital ou não. Dr. Bernardo, orientado por Larissa, digiu-se velozmente para ajudar.  Em lá chegando, identificou-se e foi imediatamente conduzindo ao centro cirúrgico. Prestou um bom serviço de ajuda, mas, logo, logo, muitos cirurgiões do mesmo hospital apareceram e, muito agradecido, dispensaram Dr. Bernardo que rapidamente voltou para o carro onde Larissa o esperava ansiosamente. Ao chegar a viu chorando, novamente.

__Larissa, Larissa... conte-me, vai, o que está acontecendo. Seu rosto lindo não foi feito para chorar. Deixe-me tentar ajudar. Não posso saber o que está acontecendo?

__Sim, sim. Sua vida é outra. Está ao meu lado, mas não deixa de cumprir a sua missão. Todos me chamam de linda e tentam me seduzir e, se eu permitir, me trocam pelo compromissso e ou responsabilidade. Você nunca tentou me seduzir e, pelo contrário, corrreu para a sua resposabilidade social, não me ignorando, mas não fugindo do que deve ser e fazer.

­­­__ Vamos lá, sorria. Nada me conte se não o quizer, mas não chore. Deixe-me secar o seu rosto.

__Sabe, Dr. Bernardo. Você assistiu a morte de minha irmã há alguns dias. Há dois anos eu passei a ter nojo de homens e jurei nunca querer ter um, até você nos salvar naquele dia fatídico. Desde então eu senti que estou de um lado e que necessito de alguém de outro lado, um homem. Um homem como você, lógico, se você me quizer. Há alguns dias eu perdi minha irmã que eu tanto amava. Há dois anos eu perdi um irmão, que inicialmente, eu amava e, depois passei a odiá-lo até o dia em que ele se enforcou. Se matou por remorço. Eu tinha quatorze anos e ele treze anos. Ele se matou por remorso...

__Que remorso, que remorço tão grande foi esse que o levou a se matar?

__Eu jamais disse isso a ninguém. Nem meus pais sabem disso. Mas ele me fez ter nojo de homem e nunca mais querer ter um. Éramos muito amigos e felizes. Estávamos sempre juntos e ele sempre me defendia de tudo e de todos. Um dia, em virtude de doença em família, todos lá de casa viajaram e, em virtude de provas escolares, só nós dois ficamos em casa. À noite, quando eu saia do banho enrolada em uma toalha como sempre o fiz, meu irmão me atacou e, sem eu conseguir sair dele, sem eu conseguir vencer a sua força, ele me estrupou violentamente. Eu chorei muito, não tinha com quem desabafar, adormeci chorando do jeito que saíra do banho, nua. Quando acordei pela manhã, carregando aquela tristeza no coração, encontrei no meu espelho um bilhete dele me pedindo perdão... vi que não estava em sua cama e, envergonhada e com medo comecei a procurá-lo pela casa. Quando cheguei na varanda do quintal, meu Deus, que tristeza... ele estava morto pendurado em uma corda do caibro do telhado, enforcado. Ele se matara arrependido do que fizera comigo. Eu destrui o bilhete e ningúem ficou sabendo do acontecido. Por sorte eu não me engravidei... mas a dor me corroi e sinto muitas saudades dele. Jurei nunca querer um homem em minha vida. Agora estou pensando o contrário. 

Pensativo, sem saber o que dizer, Dr. Bernardo chegou ao restaurante indicado. Já era tarde, mas, ele funcionaria até madrugada alta. Desceu do carro, deu a volta, abriu a porta para ela, pegou carinhosamente em sua mão, abraçou-a com carinho após secar as suas lágrimas. Depois caminharam para o restaurante. Ela escolheu a comida. Ele adorou a escolha dela. Dançaram ao lado da mesa do restaurante... não tinha pista de dança. Era tarde e o congresso continuaria no outro dia. Voltaram para o hotel. Dr. Bernardo não fizera nenhum comentário sobre o último relato de Larissa. Chegando ao Hotel, no elevador, Dr. Bernardo tocou no assunto de seu irmão e de seu estrupo, mas, dizendo apenas que lamentava muito. Quando chegou na porta do quarto dela, abraçando-o levemente, ela tentou beijá-lo, mas, ele se esquivou e lhe desejou boa noite, dizendo que a veria à noite quando voltasse do penúltimo dia de congresso. A porta do quarto dela se fechou e ele se dirigiu aos seus aposentos, mas,  voltou e bateu na porta do quarto dela e parecia que ela não saíra do mesmo lugar considerando a rapidez que a porta foi aberta. Ela o puxou para dentro do quarto e ele a beijou com toda a força que seu coração já perdidamente apaixonado não conseguia frear. Ele, depois de um longo e apaixonado beijo a carregou até a cama e se amaram intensamente. Depois dormiram abraçados ali mesmo. Dr. Bernardo acordou com o despertador, pois tinha que sair para o congresso. Levantou-se lentamente sem fazer barulho para não despertar Larissa e saiu para seu quarto. Tomou um banho rápido, vestiu sua melhor roupa como se fosse para uma festa, saboreou o delicioso desjejum do hotel e saiu rapidamente para o congresso. Chegou cedo. Ligou para a sua mãe. Conversaram muito, mataram a saudade. Perguntou por seu pai e pela irmanzinha Ana Júlia. Se despediram e desligaram os telefones. No entanto, rapidamente e imediatamente, Dr. Bernardo voltou a ligar para a sua mãe:

__O que foi meu filhote? Por que ligou novamente?

__Porque eu menti para você, mamãe. Eu lhe disse que minha apresentação foi um sucesso e, que todos gostaram. Não é verdade, perdão pela mentira, eu não apresentei o trabalho. Perdão pela mentira.

__Você não tem que me pedir perdão, por ter mentido. Pelo que eu e todos que lhe conhecem sabemos, certamente você mentiu por algo que tem que ser respeitado. Não necessita me contar.

__Não, não, minha maezinha querida. Tenho que me desabafar. Estou muito feliz e meu cérebro tenta proibir meu coração de ter esta felicidade e, mais, me reprova e me deixa com remorço. Vou contar tudo, tudo... como psiquiatra e, principalmente, como mãe, me reprove e me puna se necessário... foi a razão de eu ter perdido a apresentação de meu trabalho durante o congresso.

__Meu filho, só me conte se isto lhe fizer bem!

E, Dr. Bernardo contou tudo... desde o desastre na estrada, não escondendo nenhum detalhe, passando pelo velório e pela perda do dia de apresentação do trabalho no congresso, pelos jantares e pelas danças inesperadamente fora de pistas, ao lado de mesas de bares ou restaurantes, sem esconder o que acontecera com o irmão dela...

__Não entendi ainda a razão do remorço.

__Mamãe, mamãezinha, eu tranzei com uma criança de apenas dezesseis anos, doze a treze anos mais nova que eu.

__Você não amou sozinho... vocês se amaram e, pelo que sinto em sua voz, você gostou bastante... sinto que está apaixonado. Isto é muito belo. Convide-a a vir nos conhecer. Larissa, você disse, é o nome dela. Se ela quiser, ficaremos muito felizes em conhecê-la. Mande-me uma foto dela.

__Aí vai, munha mãe. Essa é larissa!

__Que linda meu filho! Não me parece tão criança assim! Tem condutas e pensamentos de adulto e, como você disse, sabe amar como adulta. Diga a ela que eu fiquei muito feliz com o acontecido e, que continue acontecendo pelo resto de suas vidas, já que eu senti muito amor em seu relato e muita verdade em suas palavras. Já gostei dela. Vou mandar uma foto de sua família, você, sua irmanzinha Ana Júlia, eu e seu pai, juntos. Diga a ela que é a família se apresentando.

Aquele dia de congresso pareceu ser o mais longo dos dias. Chegou ao hotel e, no saguão, Larissa o esperava. Ela correu para ele e o abraçou com ternura. Conversaram de como fora o dia de cada um. Dr. Bernardo mostrou a ela a foto que a mãe dele mandara. Larissa ficou muito feliz com a aceitação e quis ligar para ela. Dr. Bernardo fez a ligação e passou o telefone para ela e, enquanto caminhavam para os seu aposentos, Larissa conversava,pelo telefone, animada e simpaticamente com Dra. Iolanda, mãe de seu amado. Enfim se despediram e, chegando aos aposentos dele, disse Larissa:

__Eu quero dar banho em você, meu querido!

__Só banho?

__Qualquer coisa além do banho só depende de você.

Larissa foi até o quarto dela, pegou as suas coisas, as suas pagagens e levou para o quarto dele, afinal estavam mesmo ficando juntos. Dr. Bernardo concordou e gostou daquela atitude. Ele a ajudou a guardar as coisas delas. Abraçaram-se carinhosamente, demoradamente e apaixonadamente. Cada um a seu modo, se sentiu sumir de seu próprio corpo e, como se estivesse em outra dimensão, em outro mundo, antes do programado banho, beijaram-se intensamente e, como se não fossem eles, como se fossem mitológicos anjos mágicos transaram com todo o amor e respeito que uma relação duradoura deve ter. Depois ficaram abraçados em silêncio. Dr. Bernardo chegara a não acreditar que fosse uma relação duradoura, Pensou que talvez fosse apenas uma aventura de uma garota irresponsável e resolveu perguntar:

__Larissa, minha querida. Como seus pais deixam você sair sozinha e ficar sozinha  hospedada em um hotel qualquer, com um desconhecido qualquer?

__Eu conversei muito com minha mãe e meu pai. Também com meu cunhado esposo da minha irmã morta naquele acidente. Eu fui muito clara e convicente. Eu lhes disse que pela primeira vez eu me apaixonara por alguém... eu disse a eles que não era uma paixão qualquer, era uma paixão tão grande que não cabia em meu peito! Lembrei a eles que, inesperadamente, em dois anos, eu perdera dois irmãos... e, dizendo que eu necessitava de uma grande aventura para esvaziar a explosão que se armava em meu coração. Sim, eles sabem que eu vim procurar você e, mais, todos sabem de tudo que está acontecendo conosco. Como eu já disse antes, se você não me quizer, mande-me ir embora. Eu irei imediatamente. Irei sem olhar para trás para que você não me veja chorar...

__Por favor, ligue para seu pai, eu quero falar com ele. Mas, antes me responda: você quer se casar comigo?

__Claro que quero, meu amor. Estou assutada porque eu não esperava por isso. Vou ligar para meu pai. Alô papai, tudo bem? Tem algúem querendo falar com você, vou passar para ele.

__Alô, Sr. Cristiano. Sou eu Dr. Bernardo.

__Oi, Dr. Bernardo, tudo bem com vocês?

__Tudo bem sim, tudo muito bem. Estou ligando para anunciar que hoje à noite eu vou ficar noivo de Larissa. Nós vamos juntos em um Shopping comprar as alianças. Amanhã termina o meu congresso e vamos passear por aqui e chegaremos aí em dez dias. Marque uma equipe do cartório para ir em sua casa para realisar o nosso casamento. Eu quero voltar para a minha casa levando Larissa como minha esposa.

__Tudo bem, Dr. Bernardo. Até lá então.

Nesta hora Larissa, chorando muito, abraçou seu amado dizendo não merecer tanta felicidade. Dr. Bernardo respondeu que chegara a hora de parar de sofrer. A sua noite, disse ele, foi muito escura até hoje e está na hora de clarear, e, mais, a vida sempre começa de novo, continuou ele, e a sua começou a recomeçar.

Assim fizeram, depois do amor intenso, se banharam juntos demoradamente, não ficaram para o jantar. Saíram e foram até uma joelheria famosa na cidade e, ali mesmo, cada um colocou no outro a aliança de noivado e, em meio a aplausos e até choros emocionantes de outros clientes que estavam na joalheria, eles se beijaram emocionadamente felizes. Depois saíram em busca de um restaurante para jantar e comemorar. Mandaram fotos para as famlias, dele e dela, mostrando as alianças, sem deixar passar despercebido a felicidade dos dois.

Novamente, em torno da própria mesa, dançaram bem juntinhos como se etivessem enfaixados e presos um ao outro. Depois do jantar voltaram para o hotel onde começaram a fazer os planos para o futuro que começava.

Terminado o congresso, conforme combinado, passearam por dez dias e voltaram para o sítio dos pais de Larissa onde deveria já estar pronto o preparo para o casamento. E, sim estava. E também estava preparada uma surpresa inesperada. Ali estavam para testemunharem e abençoarem aquela união, os pais e a irmã de Dr. Bernardo. O encontro foi emocionante. E, Dra. Iolanda, ao  ser questionada por que estaria ali, ela respondeu:

__Meu filhotinho querido. Desde bebezinho, todos os passos que você deu na vida, eu tava presente e, não faltaria a esse. Já conhecemos a família de sua noiva e ficamos muito felizes com a receptividade. Larissa, minha querida, seja bem vinda à minha família. Você é muito linda, razão indiscutível de meu filho ter se apaixonado.

__Não, não minha sogra, se existe alguém apaixonado aqui, sou eu. Obrigado por não terem questionado o meu comportamento.

A equipe do cartório já está a postos e logo, logo, foi oficialisado o casamento de Larissa e Dr. Bernardo. Enquanto todos se confraternizavam, entrou um rapaz, que segundo ficaram sabendo depois, tentara por várias vezes namorar com Larissa e fora rejeitado. Com a arma em punho gritou que se Larissa não fosse dele não seria de mais ninguém e disparou tres tiros em sua direção. Mas, seu pai, Sr. Cristiano, pulou na frente e foi atingindo e ela não. O facínora saiu correndo. Dr. Bernardo correu para a vítima, Sr. Cristiano. Ele respirava mal. Dois tiros atingiram o braço, sendo um apenas de raspão e o segundo provocou fratura do úmero. Porém o terceiro atingira o tórax. Rapídamente pegou seu material de emergência no porta mala de seu carro e, à ausculta pulmonar verificou que em um lado do tórax, o pulmão não se expandia, o murmurio vesicular totalmente abolido e concluiu que um volumoso derrame pleural dificultava a sua respiração. Enquanto o SAMU era acionado por telefone, em rápida assepsia e anestesia local, Dr. Bernardo fez uma pequena incisão no quinto espaço intercostal do lado acometido e, colocou um dreno de tórax em selo dágua. Neste momento o sangue saiu, o pulmão expandiu e o sr. Cristiano voltou a respirar confortavelnmente. Nesta hora chegou a ambulância do Samu e assumiu o comando do socorro. Dr. Bernardo e Larissa acompanharam a ambulância até o Hospital onde o paciente foi imediatamente operado. A cirugia mostrou que a bala que atingira o tórax lesara uma veia de médio porte que fizera um volumoso sangramento provocando a colabação do pulmão direito. Graças à intervenção oportuna e rápida de Dr. Bernardo com a colocação do dreno torácico em selo de agua facilitou a descompressão pulmonar e volta da respiração normal do paciente. Após a cirugia e reposição do sangue perdido, Sr. Cristiano, pai de Larissa saiu muito bem da recuperação que nem necessitou de UTI e foi direto para o apartamento para a alegria de todos. Dois dias depois recebeu alta hospitalar e voltou para seu sítio levado pelo genro, Dr. Bernardo e a sua filha, a jovem, meiga e linda Larissa. Quando chegaram ao sítio ficaram sabendo da prisão do atirador. Dr. Bernardo ficou por mais dois dias acompanhando a recuperação de seu sogro. Como estava muito bem, decidiram voltar, ele e sua esposa Larissa, para a sua casa. Ele recebera um convite para trabalhar em um hospital em Florianópolis e aceitara. Neste período em que por ali esteve, Dr. Bernardo comprara uma cobertura em um lindo bairro em florianópolis, com linda vista para a praia e, para lá é que foram. Sua mãe, Dra. Iolanda e seu pai, com palpites de sua irmã, Ana Júlia, seguindo os desejos de Larissa, mobiliaram confortavelmente o belo apartamento. Combinaram uma churrascada na cobertura quando o pai de larissa estivesse bem recuperado. Dr. Bernardo, juntamente com sua amada Larissa, passava pelo menos uma vez ao dia no sítio, mas, na maioria das vezes pelo menos duas visitas ele fazia para garantir uma boa evolução clinica da cirurgia de seu sogro. Felizmente ele se recuperou muito rapidamente. Mas tiveram medo de deixá-los sozinhos no sítio e compraram um apartamento no mesmo prédio em que moravam e venderam o sítio. O viúvo, pai da bebezinha órfã da mãe morta no acidente, mudou-se com a criança para a casa de seus pais que , por acaso, moravam em um edifício próximo, na mesma linda praia por eles escolhida. À noite, quando todos já cansados se despediram e foram dormir, Dr. Bernardo e sua esposa Larissa permaneceram na cobertura do edifício... sozinhos, mais relaxados em relação às diversas turbulências dos dois últimos anos, olhando um lindo céu estreladamente belo os dois pareciam envolvidos  por uma auréola de um só nome chamado, amor! Larissa desceu correndo os degraus da ecadaria da cobertura, foi até a adega e pegou uma garrafa de vinho tinto seco, não do mais caro mas, sim do que mais gostava ,e, seu marido também. Voltou com duas taças. Beberam o que parecia ser o inicio de uma nova temporada de vida e fim de dois anos de muita desgraça na família. Tendo apenas as estrelas como testemunho abraçaram-se com carinho e se beijaram com amor, um amor que a cada dia, parecia, era maior o que o do dia anterior. Pareceram se transformarem em uma só pessoa, pareceram se acomodarem dentro do coração um do outro. Pareceram caminharem ema larga estrada de luz de todos os matizes sendo levados pelas mãos inconfundivelmente santas de um Deus qualquer. Mas foram chamados à realidade, pois, era tarde e, pela manhã muito cedo, Dr. Bernardo teria muito trabalho no Hospital. No dia seguinte, antes de sair para o trablho, Dr. Bernardo preparou e levou um gostoso desjejum para Larissa que, tendo acabado de acordar, ainda sonolenta, deitada de bruços com o rosto virado para o outro lado, com a mão distendida o procurava na cama. Quando ela sentiu que ele ali não estava sentou-se rapidamente, inicialmente assustada e decepcionada por ele ter saido sem se despedir, mas, logo o viu em pé à sua frente carregando uma bandeija de café da manhã que ele levara para ela, na cama.

__Bom dia, Larissa! Dormiu bem, meu amor?

__Confesso, Bernardo, que eu preferia ficar acordado, mas, dormi muito bem...

__Trouxe as coisas que você gosta no café da manhã e, tive o cuidado de não comer nada na cozinha... vamos comer juntos.

__Amor da minha vida, o que eu fiz para merecer isso?

__Simples, muito simples... não existe merecer ou não merecer... existe apenas que eu amo você e, isto é tudo!

Depois que, conversando animadamente, tomaram seu café deliciosamente preparado, Bernardo disse que já passara no apartamento dos Pais dela (como sabem, mudaram-se para o mesmo prédio) e que estava tudo bem com ele. Disse que estava indo para o Hospital, que não voltaria para o almoço, mas, se algo acontecesse ligasse imediatamente para ela. Beijou-a carinhosamente na testa e saiu para o trabalho. Larissa não se conformou com um beijo na testa, correu atrás dele e o agarrou em um longo beijo na boca e, aí sim, o deixou ir. Bernardo saiu sorrido e, feliz, naturalmente.

Quando chegou ao Hospital assustou-se com o grande movimento de policiais e curiosos na entrada do nosocômio. Logo viu que se tratava de uma senhora que fora surpreendida tentando fugir com uma criança do beçário. Ao lado dela um homem armado com uma arma de uso exclusivo das forças armadas, lhe dava cobertura. Tentavam forçar a saída até que o facínora foi baleado no tórax por um policial e caiu, ainda vivo, mas, deixara cair a arma. A mulher foi dominada e a criança recém-nascida levada de volta para o berçário. Imediatamente Dr. Bernardo correu para o bandido e baleado e sentiu que necessitava da cirurgia de urgência. Funcionários e técinicos de enfermagem o ajudaram a colocá-lo em uma maca e levá-lo para a sala de imagens. De lá saiu direto para o centro cirúrgico e, foi, operando um bandido que Dr. Bernardo começou seu trabalho naquele hospital de Florianópolis. A cirurgia fora um sucesso e o facínora, que estaava predisposto a matar, fora salvo porque esta é a função do médico. Em seguida fora chando no PS para opnar sobre uma garota de 13 anos, obesidade mórbida, que chegara com uma dor abdomonal mal definida. A família falava em cólica renal, que já tivera antes, inclusive teria elinado um cálculo há alguns anos atrás. Antes de falar, Dr. Bernardo ficou observando a jovem que chorava muito. Ele nada disse,  mas secou as suas lágrimas. Obervou as contrações ritimicas do abdome da jovenzinha muito obesa, fez um toque vaginal e, chamando a enfermeira disse com firmeza e tranquilidade:

Leve esta paciente para a sala de parto, urgentemente. Tem uma criança nascendo. Peça à família para me esperar. Quando os pais tentaram acompanhar a maca com filha, o que seria um direito por ser menor, Dr. Bernardo pediu que eles lhe acompanhasse até o consultório.

O pai dela perguntou se ela ela iria fazer algum exame... mas, Dr. Bernardo lhe respondeu, calmamente...

__Não, meu senhor. Não, não. Posso lhe assegurar que você vai ficar muito nervoso, chateado, envergonhado e, possivelmente, até agressivo em um primeiro momento... mas com o passar das horas e dos dias, ficará mais gostoso voltar para casa... Você vai ser vovô... sua filha não eatá tendo cólica renal. A obesidade escondeu a  verdade neste período, mas, sua filha está em trabalho de parto...

Como já se imaginava, inicialmente, com agressividade e chorando muito, o pai da garota jurava não acreditar e queria ver a filha. Mas não pode entrar na sala de parto. Foi levado pela enfermeira até a psicóloga que acompanhou o casal e, com ele,  permanceu sala de espera da maternidade. Algum tempo depois a porta da sala de parto se abriu e a enfermeira apareceu com uma linda meniniha e, embora ainda muito assustado e chateado, um sorriso tímido tomou conta dos rostos dos avós desprevenidos. A psicóloga chamou os avós à realidade, dos novos tempos, da independência dos adolescentes e préadolencentes e, mais, agora, mais do que nunca, aquela criaturinha de treze anos apenas, muito precocemente mãe, nunca necessitou tanto de apoio, muito mais e, muito mais mesmo do que quando necessitava aprender a andar, aprender a falar e a comer com as próprias mãos. Várias ocorrências comuns em um hospital, fizeram passar o dia de Dr. Bernardo. Terminado o seu horário ele se dirigiu até à administração e ficou feliz com a  com a resposta à sua reinvidicação. Preferiu falar sobre isso direto com a sua paixão Larissa. Correu para casa. Ao chegar ela o esperava no saguão de entrada do edifício.

__Boa noite, meu amor!

__Boa noite, Larissa, como foi o seu dia? Esteve no seu pai, naturalmente, e, como está ele?

__Bernardo, meu bem... ele está muito bem! E, sabe? Ele me obrigou a vir esperar você! E ainda me aconselhou a dar um bom banho em você e, eu concordei e já preparei o seu banho.

__Sim meu amor! Aceito o seu banho, mas, antes necessito de duas coisas: a primeira é lhe dar uma notícia boa para nós dois, mas, necessito da segunda coisa primeiro. Quero alimentar o meu vício, quero uma boa taça de vinho. Você sabe que nos devemos uma coisa impotantíssima, a nossa lua de mel. O incidente com seu pai exatamente no dia do casamento, me impediu de completar a surpresa que eu preparara para a nossa lua de mel. Ana Júlia que cuida da companhia de

__ aviação de nossos pais já estava com o jato preparada para nos levar para Paris, a cidade luz, quando, em virtude do ocorrido com seu pai, tivemos que esquecer tudo. Agora eu lhe pergunto? Onde você quer passar dez dias para esquecer por completo os últimos traumas?__Não, meu bem... não importa onde estajamos... apenas importa que estejamos juntos. Vamos alugar uma casa aqui mesmo no litoral de Santa Catarina? Sou louca para conhecer Balneário Camboriú , pode ser?

__Claro, meu bem! Podemos ir até de carro. Partimos amanhã, certo?

__Certo, certo, meu amor... mas agora me beije, me beije o maior beijo que você pode me oferecer e vamos que seu banho o espera...
 
 
 

 Domingo, 10/11/2018
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