quinta-feira, 26 de março de 2020

"VOCÊ ME DEVE UMA ESRELA"


 

 

VOCÊ ME DEVE UMA ESTRELA...

 

 DR. AFRANIO BASTOS

 

 

 

 

 

 

 

 
DEDICATÓRIA:

À minha esposa Fátima

Aos meus filhos Danilo e Daniel, às minhas noras Renata e Lívia

Aos meus netos Bernardo, Thomas, Benjamin e à minha Deusa Ana Júlia

Em especial à minha irmã Therezinha que fez de mim um médico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      Vitor, treze anos de idade, sentado na grade de proteção da grama do jardim, junto com amigos, apenas conversando e vendo o movimento de ida e volta de carros e pessoas pela rua de sua pacata cidade do interior de Minas Gerais, não podia imaginar como naqueles minutos seguintes, seriam magicamente traçados no seu destino. Outros adolescentes e pré-adolescentes brincavam correndo em torno dos floridos canteiros do lindo jardim. Repentinamente um ladrãozinho tentou roubar a bicicleta de uma linda garotinha e Vitor, vendo que a garota teimava em não entregar a bicicleta e, ainda, sentindo que o ladrãozinho a ameaçava com uma arma resolveu intervir e, correndo, empurrou o ladrão que caiu no chão. Ainda no chão, o bandido atirou três vezes em Vitor que caiu sangrando muito. O bandido saiu correndo sem levar a bicicleta deixando a garotinha, que tinha mais ou menos a mesma idade de Vitor, espantada e chorando desesperadamente. Pessoas que ali estavam socorreram e levaram Vitor para o Hospital. Da emergência foi levado inconsciente direto para o centro cirúrigico.

         Amigos e parentes ansiosos esperavam no saguão do hospital. Mais de seis horas depois, terminada a cirurgia, dois médicos vieram conversar com eles. Os pais de Vitor, assustados e ansiosos, perguntaram em uma só voz:

         __Então doutores?

         __Foi uma cirurgia muito difícil. Uma bala perfurou o estômago e os dois pulmões saindo pelo ombro. As outras penetraram também no abdome perfurando o intestino em dois pontos e o baço. Ele perdeu muito sangue, mas é jovem e saudável e, certamente, vai resistir bem. Neste momento está em coma induzido, respirando com auxílio de aparelhos na UTI.

         __Podemos vê-lo?

         __Não hoje. O quadro é grave e devemos deixar o médico intensivista cuidar dele sem ter a sua atenção desviada. Voltem dentro de duas horas e teremos mais condições de falar sobre a evolução...

         _Por favor, doutor, não deixe meu filho morrer...

         __Estamos contando com a ajuda de Deus. Vamos ter fé!

         Familiares e amigos saíram cabisbaixos, demonstrando uma tristeza natural, enquanto os pais e irmãos choravam copiosamente. A revolta estava estampada em suas faces. Enquanto aguardavam passarem as duas horas de espera solicitadas pelos médicos, foram para a delegacia saber se o atirador tinha sido encontrado. Ficaram sabendo que o meliante não era do município e, que mais nada sabiam dele. Todas as cidades vizinhas estavam alertas e, que mais cedo ou mais tarde seria encontrado. Pela descrição de testemunhas, não parecia ser uma pessoa qualquer. Estava bem vestido, cabelos bem penteados e calçado de boa aparência. Certamente se tratava de um adolescente oriundo de família média a alta. Nestes casos, normalmente, roubam para comprar drogas. Frustrados e decepcionados voltaram para o hospital. Tiveram autorização para subirem até a UTI. Lá chegando o médico plantonista já os esperava na porta do centro de tratamento intensivo. Foram logo perguntando:

         --E então doutor, como está o Vítor?

         --Ainda temos pouco tempo para fazer um prognóstico seguro, porém, podemos dizer que até o momento ele está se recuperando bem. Já estamos reduzindo a sedação e, embora ainda inconsciente, ele já comanda o respirador. Acredito que amanhã conseguirá respirar sozinho, sem auxílio do aparelho. Lembro, no entanto, que ele sofreu graves ferimentos internamente que, não queremos isso, mas, podem infeccionar e nos dar trabalho. Agora vou deixá-los entrar, dois de cada vez, mas, não tentem falar e nem nele tocar. Será uma visita rápida, por favor, não insistam no contrário.

         Depois da visita rápida, todos voltaram para casa carregados de fé, embora, ainda seus pais não conseguissem parar de chorar. Não conseguiram dormir naquela noite e, já muito cedo já estavam na porta do hospital aguardando o próximo horário de visita que seria às onze horas e, passavam poucos minutos das sete. Mas, valeu a pena, pois, repentinamente viram o médico intensivista que os atendera na noite anterior e que, se encaminhava em direção deles. Chegou dando boas notícias.

--Bom dia, como eu dissera, ele já respira espontaneamente. Conversa bem e com lucidez. Perdera muito sangue o que já foi reposto. Movimenta-se espontaneamente no leito e, com certeza, amanhã cedo já tomará banho sozinho no banheiro. Acredito até que amanhã à tarde já estará de saída da UTI para a enfermaria. 

--A mãe de Vítor abraçou fortemente o médico e, deslizando pelo seu corpo com aquele abraço, ajoelhou-se aos seus pés repetindo chorosas palavras de agradecimento.

E, realmente, como dissera o médico, naquela manhã estava muito bem e, no dia seguinte, após o horário da visita ele foi encaminhado para a enfermaria. Não tinha convênio. Quando o pai da garota que seria assaltada e defendida por Vítor, ficou sabendo que ele estava em uma enfermaria e, que ali não poderia ficar com visita, além de uma só pessoa por ser menor, ele pediu a sua transferência para um apartamento e bancou toda a despesa. Dez dias depois o garoto recebeu alta hospitalar, muito bem recuperado, mas, com recomendação de não ficar muito na cama, caminhar sempre que possível, dentro de casa, sem sair para a rua até segunda ordem. Assim foi feito.

No outro dia, os pais de Sâmela, a garota da bicicleta, inclusive ela, foram até a sua residência para visitá-lo. Foram muito bem recebidos. Eles não se conheciam muito bem, mas, demostravam gratidão recíproca. Da parte de Sâmela por ele ter defendido a sua filha e, da parte de Vítor, por terem assumido os gastos do hospital. Sâmela correu e abraçou Vítor agradecida e perguntou:

--Por que você correu o risco de morrer por minha causa se nem nos conhecemos direito?

Respondeu Vítor bastante sério e reprovador:

--Tive que fazê-lo pois ele iria atirar em você. Você se recusava a entregar a bicicleta. Seu pai daria a você outra no mesmo dia. Mas, não, você teimou em não largar e ele certamente atiraria em você. Nunca mais faça isso. A sua vida vale muito mais.

--O que posso fazer para lhe agradecer?

--Deus já fez isso salvando a minha vida e, seu pai completou me atribuindo um conforto maior em minha recuperação no hospital me transferindo para um apartamento confortável. Estou bem. Você nada me deve. Continue a passear de bicicleta. Você é muito linda e embeleza aquele jardim e contagia os olhos de nós outros que lá estamos.

Sâmela deu-lhe um beijo no rosto e, olhando o céu que estava lindamente estrelado, foi dizendo:

--Como você fala bonito... se eu pudesse eu lhe daria uma estrela!

Por algum tempo seus olhares se fixaram e, na inocência de seus treze anos, parecia nascer algo mais que uma simples amizade. Seus pais nada notaram de diferente e, se notaram, não interferiram. Entraram para a cozinha onde um café os esperava deixando os dois jovens no jardim admirando o lindo céu que os cobria.

Dois anos se passaram e, nunca mais se viram, pois, moravam em bairros diferentes, pertenciam a diferentes classes sociais e não estudavam no mesmo colégio, como também frequentavam religiões e igrejas diferentes. Estava acontecendo na cidade o campeonato intercolegial de futsal e os dois colégios, dele e dela, se enfrentariam naquela noite. Vitor jogaria naquela noite. Quando entrou na quadra para um pré-aquecimento junto com seus colegas de equipe, Vitor viu na arquibancada a sua, jamais esquecida, Sâmela. Estava dois anos mais velha e dois anos mais linda. Estava junto com a família dela, pais e dois irmãos. Logo ele foi também visto por Sâmela que ficou feliz tão bem recuperado que já praticava esporte. Muito entusiasmada, pediu licença a seus familiares, correu até o alambrado e chamou por ele:

--Vitor, Vitor!

Vitor a viu e correu ao seu encontro, do lado de dentro do alambrado. Ela perguntou emocionada...

--Vitor, Vitor, meu salvador. Estou alegre com a sua recuperação... está até jogando futsal. Que bom meu Deus! Você se lembra de mim?

--Claro que me lembro. Sua beleza não sai de meu coração e.... ainda estou esperando a estrela que você me prometeu.

--Em nenhum dia da minha vida, Vitor, eu deixei de pensar em você. Sua coragem me impressionou muito. Você quase morreu para me salvar e, nem me conhecia, como ainda não conhece também...

--Acho que você sente por mim, Sâmela, nada mais é que piedade pelo que eu passei, não?

--Vitor, nada disso. Vou lhe dar o meu endereço e quero que você vá me visitar. Você vai?

--Claro que vou, Sâmela.

--Então me espere que vou pedir uma caneta ao meu pai e escrever meu endereço...

--Não posso ficar aqui, Sâmela. Meu técnico já está fazendo sinal de reprovação

Mas, sem ouvi-lo, ela correu até a arquibancada onde estava seu pai e, muito rapidamente, entregou a Vitor o seu endereço. Vitor saiu andando de costas de olhos fixos nos olhos dela que também se afastava sem desviar o olhar da quadra, ou, mais especificamente, dos olhos de Vítor. O técnico do time não perdoou e chamou bravamente a atenção do jovem atleta. E, mais, ele que sempre foi titular absoluto foi intimado a ficar no banco de reservas. Mas, Deus estava a seu lado. Foi chamado para entrar no lugar de um atleta que se machucou já quase no final do jogo. Faltavam apenas dez minutos para terminar o jogo. Seu time perdia de 2 a 1. Em uma jogada individual, desferiu um petardo que foi interrompido com a mão por um defensor. O juiz marcou penalidade máxima. Ele não era cobrador oficial, mas, enraivecido pela punição que sofrera pegou fortemente a bola, não deixou que ninguém a tomasse e, bateu a penalidade, marcando e empatando a partida. Todos correram para abraçá-lo felizes. Não muitos minutos depois, novamente Vítor recebeu um cruzamento e, de bate pronto, colocou a bola no fundo da rede e virou o jogo. Logo, logo o juiz terminou a partida. Vítor saiu ovacionado e carregado pelos companheiros. Sâmela não gostou de ver seu time perder, mas, vibrou muito com seu herói e correu até ele e o abraçou com lágrimas nos olhos. Vítor combinou com ela que iria à sua casa na noite seguinte e, ela, muito feliz, concordou. O técnico se desculpou pela severidade da punição e agradeceu pela sua reação raivosa que levou a[AB1]  sua equipe à vitória.

Na noite seguinte, conforme combinado, Vitor chegou na casa de dos pais de Sâmela. Foi recebido pelos pais e irmãos dela como herói. Ficou constrangido com tanto carinho e atenção. Foi avisado que Sâmela estava no banho. Foi acolhido como se fizesse parte da família e, em pouco tempo estava na sala, muito à vontade e descontraído. Neste momento, mais linda como nunca, apenas coberta por uma toalha de banho, cabelos molhados amontoados em um dos ombros e água escorrendo pelo seu rosto angelical. Imediatamente a sua mãe ordenou que ela fosse secar o cabelo o que ela obedeceu, mas, não antes de beijar o rosto de Vítor, que, se estremeceu de prazer e excitação. Algum tempo depois ela voltou lindamente vestida com um vestido leve e soltinho, sandálias rasteirinhas e um perfume tentador. Avisou a Vítor que já havia pedido aos seus pais se podiam ir a um shopping e, lá, assistir a um bom filme. Já estava certo que iriam e voltariam de taxi. E os próprios irmãos de Sâmela os apressaram senão perderiam o passeio no shopping ou o filme e, eles mesmos já haviam chamado o taxi. Radiantes, de mãos dadas, os dois jovens saíram correndo em direção ao taxi enquanto ao mesmo tempo se despediam dos familiares. O pai de Sâmela bradou:

--Juízo, minha filha!

--Pode deixar, papai!

Chegaram ao shopping, meio desajeitados, meio sem assuntos, ficaram andando em lojas de celulares e computadores, conversando e sabendo de lançamentos e de novidades com os vendedores. Sentaram-se em um corredor saboreando um sorvete enquanto aguardavam o horário do filme. Uma áurea os envolvia. Uma áurea de beleza, de verdade, de felicidade mutua que se misturava e, que, mesmo invisível, mesmo intocável, os unia em uma magia que não passava despercebida. Terminada a degustação do sorvete, lavram as mãos, naturalmente cada um em seu banheiro e, saíram, encabulados ainda, sem graças e se, assunto ainda, porém, com decisões iguais. Resolveram não irem ao cinema e apenas continuarem passeando pelas lojas e atrações do shopping. Sentiam-se bem apenas se olhando em silêncio e tendo as mãos entrelaçadas como uma necessidade de união permanente. Nenhum dos dois sabiam ao certo o que os prendia, que prendia as suas mãos... sabiam apenas que qualquer minuto assim parecia ser bom demais e, se se desligassem sentiriam, ambos, um inexplicável sentimento de tormenta. Em sua ainda inocência de seus lindos quinze anos, eles sabiam que apenas se sentiam muito bem juntos e, não se importavam em definir aquele sentimento. Apenas estavam bem e muito felizes assim. Ainda estava longe de terminar a seção de cinema e resolveram voltar para casa. 

Assim que entraram em casa, bem antes do momento esperado, seus pais, inicialmente assustados, questionaram, mas, sua filha Sâmela a tranquilizou.

--Não mamãe, não se angustie, está tudo bem. Apenas, juntos, resolvemos que o momento é de conversarmos entre nós dois e, vocês, nossos familiares. Juntos entendemos que o que aconteceu entre nós, justifica muito mais nos conhecermos, vocês e nós, do que apenas olhando um filme qualquer, não acham?

--Muito bem minha filha. Se preferem assim, fiquemos juntos e conversemos. Só um momento que vou olhar as janelas pois a chuva está aumentando e ventando. Depois vou à cozinha pedir à Maria que nos prepare algo para comermos e bebermos.

Logo estava de volta e, juntamente com seu marido e filhos, começaram a se conhecerem, sem cerimônias, sem preconceitos ou comparativos desnecessariamente humilhantes. Sâmela e Vitor não se desligavam, mas, participavam muito atentos às conversações. Falavam das condições sociais de suas famílias. E, já sabiam, eram muitas diferenças entre as suas condições financeiras. Neste momento começou a chover. Vitor e Sâmela agradeceram por terem voltado antes da chuva. E a chuva não parava, não diminuía, pelo contrário, aumentava assustadoramente e, já era muito tarde. E quanto mais a noite chegava, parecia uma competição, mais a chuva aumentava, assim como também ventos fortíssimos. Vitor recebeu uma chamada de sua mãe, naturalmente, com uma bronca por ter esperado a chuva aumentar tanto antes de ir embora para casa. A que ele respondeu...

--Perdão mamãe. Estou na casa de uns amigos e já estou indo.

--Não venha agora. O bairro está todo alagado. Nem ônibus consegue passar. As casas baixas e os apartamentos térreos estão alagados. Peça desculpas aos seus amigos e espere a chuva diminuir e a água abaixar.

--Ok, mamãe. Vou esperar.

Acontece que a água não parava de subir. A chuva parecia aumentar. O serviço de meteorologia e, também, a defesa civil previam um temporal cada vez mais forte e, durante toda a norte. O pai de Sâmela se ofereceu para levá-lo de helicóptero e se comunicou com seu piloto que lhe respondeu:

--Patrão, dois problemas. Primeiro o vento não nos permite decolar, segundo, onde mora este rapaz não tem heliporto. Um campo de futebol, que poderia ser uma opção, além de ser bem longe de sua casa, está com mais de dois metros de alagamento. Pode esquecer. Já são mais de meia noite e, como vimos na imprensa, esta chuva vai permanecer a noite toda. Acho melhor, me desculpe o palpite, a sua visita dormir aí em seu apartamento.

Assim ficou decidido. Um dos irmãos de Sâmela chamou Vitor e lhe disse a única solução.

--Meu amigo, Vitor. Depois dos acontecimentos você passou a ser muito unidos a nós. Jamais deixaremos você sair neste temporal. Você terá que dormir aqui.

--Como assim, dormir aqui? Eu não tenho este direito. Molhar não mata ninguém!

--Não meu amigo. Você mora a muitos quilômetros daqui. Tente abrir a janela e veja a força da água e o rio que se forma lá em baixo.

Vitor tentou relutar, mas, viu que eles tinham razão. E, mais, cada vez ficava mais tarde e sentiu que estava atrapalhando Sâmela e a sua família. Resolveu concordar dizendo que dormiria na poltrona, o que a mãe de Sâmela respondeu com carinho:

--Não, meu filho, não, meu querido. Você é mais um filho que apareceu em minha vida. Jamais deixaria você dormir na poltrona. Nosso apartamento é muito grande e, temos quartos de hóspedes. Maria já arranjou o seu. Em cima da cama tem toalhas limpas e pijamas e, em baixo da cama, chinelos a escolher. Amanhã não tenha pressa para acordar. E, mais, tem escova nova e creme dental no banheiro. Se gostar tem também um gostoso perfume no armário.

--Então, meus amigos, vou subir e vou dormir. Estou atrapalhando a noite de vocês. Boa noite.

O pai de Sâmela o abraçou com carinho dizendo.

--Boa noite, meu querido. Durma bem. Se tiver fome pode ir até a cozinha e preparar o que quiser. Vá com Deus. Nós jamais conseguiremos pagar o que fez por minha filha.

--Por favor, esqueçam isso. Boa noite minha amiga Sâmela. Boa a noite a todos. E subiu para o seu quarto.

Nesta hora, a mãe de Sâmela convidou a todos que fossem dormir pois já estava muito tarde. E todos foram os para seus quartos.

Quando todos já dormiam, Sâmela, pé, ante pé, entrou no quarto de seus pais, chamou a sua mãe, bem baixinho para não acordar o seu pai que a acompanhasse até a sala. Lá chegando, disse Sâmela:

--Mamãe, mamãe, minha querida. Venha dormir comigo em meu quarto. Estou com medo de ficar sozinha com um estranho dormindo aqui...

--Que isso minha filha. Ele já demonstrou que quer o seu bem, quase entregando a vida dele para salvar você, não vai lhe fazer nenhum mal. Volte para o seu quarto e durma em paz.

--Não, não, mamãe. Eu não estou com medo dele. Estou com medo de mim mesma!

--Como assim filha?

--Sim, minha mamãezinha. Você vai dizer que sou ainda uma criança, mas, minha querida mamãe, Deusa de minha vida. Eu nem sei bem o que isso significa, mas, estou perdidamente apaixonada por ele. Acho que não saberei me controlar. Por favor minha mãe...

--Está bem, está bem. Espere um pouco e vou falar para seu pai. Vou dizer a ele que você está se sentindo mal e, amanhã, nós duas conversaremos sobre isso, certo?

--Certo, mamãe. Obrigada por mim entender.

E, depois de avisar ao seu marido, a mãe de Sâmela foi dormir com ela preocupada com a revelação que acabara de ouvir, no entanto, deixou o assunto para o outro dia. Durante a noite foi um temporal de grandes proporções, mas, todos dormiram bem. Todos se levantaram cedo, alguns por causa do trabalho e outros pela escola. Dr. Eduardo perguntou à sua esposa, Zíngara Sâmela havia melhorado do mal da noite anterior o que ela respondeu que este tipo de mal, nesta idade, demora um pouco a melhorar. Ele não entendeu bem, mas, não deu continuidade ao assunto. Vitor, muito tímido, não tinha mais o que repetir como agradecimento. A mãe de Sâmela conseguiu entender o brilho de amor que ameaçava saltar de seus olhos quando olhava para Vitor. Enquanto isso, discreto e tímido, Vitor não demonstrava, pelo menos aparentemente, o mesmo sentimento. Agora, sem enchentes, o pai de Sâmela a convocou e aos seus irmãos para irem pegar o carro e irem para a escola. Ficou de, depois de deixar seus filhos no colégio, levar Vitor até a sua casa, já que não tinha como ir à escola, pois, além do uniforme estava também sem a sua mochila com o material como livros, cadernos, canetas e lápis.

Assim aconteceu. Depois de deixar os filhos no colégio, o pai de Sâmela levou Vitor até a sua casa. No caminho, Eduardo, pai de Sâmela, sem saber do ocorrido na noite anterior, perguntou a Vítor, meio constrangido, mas seguro em sua pretensão...

--Vitor, desculpa-me a intromissão na vida de sua família. Acontece que, há dois anos, naquele episódio dramático onde, para salvar a minha filha, você quase morreu, naquela oportunidade eu tive a chance de conhecer a sua família e vi que vocês vivem muito bem, mas, confesse, no limite financeiro não?

--Sim, sim, Dr. Eduardo. Meu pai trabalha muito para nos sustentar. Mas estou inscrito no programa “jovem aprendiz” e aguardando um chamado. Quando isso acontecer, mesmo ganhando pouco, eu poderei ajudar um pouco.

--De que você gosta mais?

--Dr. Eduardo, meu sonho é fazer faculdade de programação de informática. Adoro e entendo muito de computação.

--Você só está esperando ser chamado por uma empresa?

--Sim, sim, Dr. Eduardo.

--Qualquer uma empresa?

--Qualquer uma, e, nela, me desdobrarei para, não só agradar, mas, para progredir na tarefa que me for ofertada, não acha?

--Claro que acho. E digo mais. Se você quiser trabalhar na minha empresa, considere-se contratado. Você topa?

--É sério, Dr. Eduardo.

--Sim, você já está contratado como jovem aprendiz. Só tem quinze anos e é o que eu lhe posso oferecer. Aceita?

--Claro que que aceito. Farei tudo para não decepcionar. Quando começo?

--Agora. Vá lá dentro (já haviam chegado à humilde moradia) e chame a sua mãe.

--Não Dr. Eduardo, desça do carro. Vamos entrar. Vou chamar minha mãe. Meu pai já está no trabalho.

E desceram, entram e Vítor correu a chamar a sua mãe e já foi contando a maravilhosa novidade.  Ela chegou emocionada e agradecida. Dr. Eduardo confirmou o que havia prometido. Enquanto isso Vítor correu para seu quarto e voltou com uma bem organizada pasta de documentos e mostrou ao Dr. Eduardo. Ele ficou satisfeito de ver a organização de seus documentos e, já foi dizendo. Vamos nos dar bem. Entregue esta pasta no departamento de recursos humanos que as funcionárias providenciarão seu uniforme e seu crachá. Se quiser começar agora vamos voltar juntos. E, logicamente ele não perderia esta oportunidade, despediu-se de sua mãe com um grande abraço e um beijão cheio de amor e voltou com Dr. Eduardo. A mãe de Vítor agradeceu muito e, depois que saíram, ainda emocionada, ligou para o seu marido dando a notícia que, evidentemente, também ficou muito feliz e emocionado.

Ao chegar na Empresa, depois de deixar o carro com o manobrista, Dr. Eduardo chamou uma funcionária e pediu a ela que levasse Vítor ao departamento do pessoal e dissesse que ele seria admitido como jovem aprendiz. Na fábrica ninguém sabia do ocorrido com Vítor e Sâmela. Na verdade, não era uma fábrica qualquer e, sim, uma gigantesca indústria de componentes eletrônicos. Algum tempo depois Dr. Eduardo ligou para o departamento do pessoal pedindo que ele fosse colocado no setor de informática, que fosse submetido a uma avaliação e, observar bem, qual a sua real capacidade no setor para que fosse bem aproveitada a sua capacidade. Algumas horas depois recebeu de volta a informação que o garoto Vítor estava admitido como “aprendiz” só por causa da idade, mas, sabia tudo de computação e que poderia ser encaixado em qualquer setor.  Dr. Eduardo recomendou que ele usasse uniforme e crachá de “jovem aprendiz”, mas que o deixasse trabalhar no melhor que ele pudesse fazer. E assim foi cumprida a ordem do dono da empresa, Dr. Eduardo.

Naquela noite seria o jogo de volta de futsal do campeonato intercolegial entre os times do Ginásio de Vitor e o Instituto de Cultura de Sâmela. Desta vez o jogo seria no campo de domínio do time de Sâmela. Não nos esqueçamos que, no jogo anterior, Vítor, titular absoluto, fora punido por deixar o aquecimento e ficar conversando com Sâmela no alambrado. Fora substituído, ficara no banco de reservas entrando a poucos minutos do final do jogo e, milagrosamente, conseguiu virar o resultado, vencer e se tornar o herói da noite. Desta vez, Sâmela apenas fez sinal para ele do camarote e, ele respondeu prontamente sem deixar isso interferir no aquecimento e preparos pré-estabelecidos pelo seu técnico. Estava tão feliz com a sua nova condição de vida e, devia tudo isso a um impulso quando ela fora ameaçada de morte. Ela ainda não sabia e, ansioso, não se aguentava para ter oportunidade de contar a ela.

Durante o aquecimento, Vítor reconheceu, no time adversário que também se aquecia, o garoto que tentara assaltar Sâmela e que atirara nele. Sentiu que também fora reconhecido. Sem despertar atenção, correu até o seu técnico e lhe falou, mas, não foi ouvido. Não poderia ser. Ele era de uma família importante da cidade, fora procurado incansavelmente e não fora encontrado. A conclusão, há dois anos, é que o assaltante era de outra cidade. Vítor não aceitou. Voltou para a quadra, mas ficou atento aos movimentos dele. Sâmela poderia ajudá-lo, mas, estava longe, muito longe dele. O colégio dela era muito rico, e ela estava com a mãe e um dos irmãos em um camarote e não tinha como falar com ela.

E, sob o apito do Juiz, começou o jogo. Se o time do colégio de Vítor voltasse a vencer estaria classificado para a nova etapa e, o do Instituto de Educação fora da nova etapa. Se por acaso o time de Vítor perdesse, deveria haver uma disputa de pênaltis.

Durante o jogo Vítor sofreu várias entradas duras, de seu suspeito e, nenhuma falta era marcada. Todo o time reclamava, mas, em vão. Foram tantas entradas sem punição que chamaram a atenção da torcida e, principalmente de Sâmela, que pegou o binóculo de seu irmão e, depois de observar bem, falou para a sua mãe. Mamãe, aquele garoto que está fazendo muitas faltas em Vítor, eu acho, pelo menos se parece muito com ele, foi o garoto que atirou em Vítor. Saiu rapidamente do camarote, correu até o alambrado e teve certeza, depois de observar bem, que era ele. Afastou-se sem que fosse vista, mesmo por Vítor, e telefonou para o seu pai. Em princípio ele também não pareceu acreditar, mas, em virtude do insistente medo de sua amada filha, pegou o carro e foi até lá.

E o jogo terminou com a vitória do time de Sâmela. A decisão iria para os pênaltis, conforme já fora estabelecido.  O time de Vítor já havia feito todas as substituições e, na cobrança do quarto pênalti, em virtude de uma conduta inconveniente quando sofreu o quarto gol nas cobranças das penalidades, o goleiro brasileiro foi expulso e, evidentemente, seu reserva não poderia entrar. Um jogador comum do time deveria ir para o gol. Estava 4 X 4. Vitor seria o batedor do próximo e, marcando, deixou o placar em 5 X 4. Sem aceitar outras decisões, o próprio Vítor, vestiu a camisa do goleiro reserva e foi para o gol. E, apenas o fez, pois, pela escala, já sabia que o moleque que nele atirara há dois anos, seria o cobrador do próximo pênalti. Se marcasse ficaria empatado. Caso ficasse empatado, conforme manda a regra, deveriam ser cobradas batidas alternadas, quantas fossem necessárias até que houvesse um vencedor. No meio do gol, calmo e concentrado, Vítor estava alheio às vaias da torcida bem como o olhar cínico e provocador de seu agressor. O facínora desferiu um violento chute a meia altura, mas, Vítor, em um salto quase milagroso, abraçou a bola em pleno ar e, com ela, caiu na quadra brilhante de um lindo piso importado. Todos os seus colegas correram a parabenizá-lo no exato momento em que seu malfeitor tentava agredi-lo.

O time saiu comemorando a classificação. Neste momento o pai de Sâmela chegou e, como nunca tinha visto o tal rapaz, procurou saber de seus amigos que estavam no Ginásio de Esportes naquele momento. Ficou sabendo que era usuário de drogas, filho do delegado de polícia e, ninguém sabia porquê, ficou dois anos fora da cidade. Agora voltara. Estudava no mesmo Instinto de Educação de Sâmela, mas, em outro horário por isso não o conhecia. Interrogado por qual razão queria saber Dr. Eduardo disse qualquer coisa e saiu levando a sua filha. Estava explicado porque não fora encontrado. Chamou Zingara, sua esposa, seu outro filho e, juntos foram até onde estava Vítor. Dr. Eduardo falou com pausada lucidez e sábia conclusão:

--Sâmela e Vítor. Está perfeitamente entendido porque ele não foi encontrado no dia do crime. Ele é filho do Delegado. Ficou por dois anos fora até que o caso fosse esquecido...

--Mas, papai, ele não pode ficar impune. O senhor tem uma grande equipe de advogados na empresa. Vamos denunciá-lo.

--Sâmela, minha querida, ouça bem. Que provas temos contra ele? Será a sua palavra e a de Vítor contra a dele, que, certamente, terá uma série de álibis e defensores a seu favor e, aí sim, vocês dois ficarão marcados por sua maldade. É revoltante sabê-lo impune, mas, por outro lado, mal caráter e bandido como é, certamente continuará a fazer vítimas e, em uma dessas ele levará a pior. Vamos esquecer isso. Vamos deixar nas mãos de Deus.

--Tudo bem, papai, tudo bem. Eu ficarei com medo de estudar no mesmo Instituto de Educação que ele.

Zíngara, embora com depressão, revolta e tristeza, também concordou com a conduta de seu marido.

--Sâmela, seu pai tem razão. Embora você estude em horários diferentes, eu também concordo com você minha filha. Você deve mudar de colégio pois, certamente vocês se cruzarão em festas e reuniões sociais no Instituto. Você quer estudar em outra cidade? Ou mesmo no exterior?

--Não, não mamãe! Eu não quero ficar longe de vocês! Eu posso estudar no colégio do Vítor. O que você acha meu irmão?

--Sim, Saulo meu filho, o que você acha?

--Papai e mamãe. Eu concordo com minha irmãzinha querida. O colégio de Vítor é um bom colégio. Só não tem luxo como o nosso, mas, luxo em nada acrescenta em nós. É bem equipado, tem um bom quadro de professores, inclusive muitos professores de lá também lecionam em nosso Instituto.

Então Dr. Eduardo e Zíngara concordam em transferir Sâmela e Saulo de colégio e fizeram isso imediatamente.

A rotina da vida continuou e, a escolar também. Vitor, Sâmela e Saulo iam sempre juntos para a escola. Vítor e Sâmela conversavam muito, ela profundamente apaixonada e, ele, entendia ela, indiferente parecia distante e não enxergava este amor nele. O colégio tinha muitas atividades sociais e, observou que Vítor aparecia em apenas algumas delas. Uma tarde ela foi até a casa dele para saber de seus pais o que ficava fazendo neste período. Foi recebida como uma rainha e como uma amiga muito querida.

--Boa tarde, Dona Denise; boa tarde “seu” Raimundo.

--Minha linda princesa, minha querida Deusa. Que prazer recebê-la em minha casa. Entre.

--Com licença. Como vão as coisas? Tudo bem, “seu” Raimundo? E a senhora Dona Denise, tudo bem?

Graças a Deus, querida, respondeu Denise e repetiu Raimundo. Denise perguntou a Sâmela o que ela fora fazer ali, assim, inesperadamente, embora fosse um prazer vê-la em sua casa. Sâmela respondeu...

--Onde está Vítor?

Assustados, Denise e Raimundo perguntaram ao mesmo tempo se ele não havia ido ao trabalho e, Sâmela, surpreendida, indagou se ele estava trabalhando, desde quando, pois, eles sempre se encontram e conversam muito e, jamais ele disse que trabalhava fora, até porque não tinha idade para fazê-lo. Denise respondeu...

--Minha querida, Vítor trabalha na indústria de seu pai como jovem aprendiz. Há vários meses seu pai esteve aqui pedindo o nosso consentimento para contratá-lo como jovem aprendiz de sua indústria. Nós ficamos muito felizes e, ele, muito mais. Quando você chegou perguntando, nós ficamos com medo dele estar faltando ao compromisso. Ele, minha amada, é muito orgulhoso. Talvez não tenha falado para você evitando que você tentasse influenciar em seu progresso na firma. E, valeu, sabe porquê?

--Por que Dona Denise?

--Porque ele, embora use roupa e crachá de “jovem aprendiz”, com a sua própria determinação, força de vontade, dedicação e vontade de acertar sempre, hoje, em pouco tempo, ele trabalha de igual para igual com os principais funcionários no setor de informática no mais alto nível de programação e robótica. Se você soubesse, certamente, não tenha dúvida, ele pensaria que você pudesse ter influenciado no progresso dele. Uma das condições que ele exigiu de seu pai é que você não soubesse. E, aqui nesta sala, seu pai prometeu.

--E ainda, você aceita que um homem possa chorar? Pois, já há muito, desde que ele viu uma arma apontada para você naquele assalto fatídico, algo estranho explodiu dentro do peito dele. Chorando, ele me contou que, naquele momento, descobriu que, embora fosse a primeira vez que via você, estava, em frações de segundos, apaixonado, loucamente apaixonado. Ele empurrou aquele bandido, não para salvar você, mas, sim, para salvar o amor da vida dele. Chorando, depois que descobriu a enorme diferença sócio econômica entre vocês, chegou a dizer que deveria ter morrido naquele hospital já que jamais teria coragem de declarar o seu amor...

Sâmela se surpreendeu sentindo uma lágrima atrevida deslizar pelo seu rosto e saiu correndo sem se despedir. Pegou a sua bicicleta e correu em direção ao prédio da indústria de seu pai onde funcionava o setor de informática. “Seu” Raimundo e Dona Denise entenderam bem o que estava acontecendo, afinal, um dia, foram jovens também.

Em pouco tempo chegou no complexo industrial. Todos a conheciam. Antes de ir para o prédio de informática, primeiro foi à sala de seu pai no décimo segundo andar do escritório central da empresa, entrou sem bater interrompendo, por pouquíssimos minutos, uma importante reunião, sentou com toda liberdade, no colo de seu pai, deu-lhe um apertado abraço, um beijo na testa e, dizendo “obrigado papai” saiu correndo. Todos ficaram sem entender e continuaram a reunião. Ela foi, apressadamente até o setor de informática, em outro prédio, e lá, viu logo que estavam comemorando uma grande descoberta, como um atalho valioso, na velocidade, fidelidade e segurança na programação robótica. Ficou observando pela larga porta de vidro e, sentiu que, seu Vítor é que estava sendo elogiado pela descoberta. Ao vê-la, Vítor abriu a porta e a mandou entrar e, ela, sem entrar, disse a ele para ir na casa dela às 21horas para uma comemoração.

--Que comemoração, Sâmela?

--Não importa, você faz parte daquela casa. Prometa que vai!

...Claro, sim, claro... não vou perder uma comemoração em sua casa!

--Então combinado, a família o espera, não falte! Volte para a sua comemoração. Até à noite!

Ao chegar em casa, Dr. Eduardo, pai de Sâmela foi por ela interrogado.

--Boa tarde, papai, tudo bem? Obrigado por ter empregado Vitor lá na fábrica. Por que não me falou.

--Olá filhotinha, boa tarde. Desculpa-me, mas ele pediu para não lhe falar. Ninguém soube através de mim. Eu respeitei o pedido dele. Mas, minha filha, eu é que estou curioso que felicidade era aquela que levou você na minha sala hoje?

--Eu atrapalhei a reunião?

--Não, minha filha. Eu fiquei muito feliz. Só fiquei curioso com a sua felicidade...

--É por ter contratado o Vítor.

--Sabia que foi a melhor contratação que fiz neste ano. Eu solicitei ao sistema financeiro para lhe dar um presente financeiro pela grande descoberta que ele fez hoje. Fiquei alegre que tenha gostado. Tem certeza que não quer mesmo ir para os Estados Unidos hoje comigo, sua mãe e seu irmão? Só vim pegar uns documentos. Sua mãe e seu irmão já estão só me esperando. Temos que sair rápido para jantarmos no aeroporto antes do voo.

Neste momento Zingara e Saulo se juntaram ao seu pai e todos perguntaram, ao mesmo tempo se ela realmente não queria ir.

--Não, não. Vão com Deus. Vou aproveitar o fim de semana para estudar umas matérias em que estou tendo dificuldade. Aproveitem. Apressem-se. Se não terão tempo de jantar antes do voo.

--Então, até breve minha filha. Qualquer coisa ligue para nós.

E um dos motoristas da família levou a família para o aeroporto. Sâmela chamou a governanta e a dispensou dizendo que iria dormir cedo, acordar de madrugada para estudar mais descansada. Depois de confirmar se era esta mesmo a vontade dela e, como já acontecera de outras vezes, a governanta concordou, mas, mesmo assim ligou para a sua patroa que respondeu que Sâmela sabia se defender. No entanto pediu que antes de ir embora, orientasse a cozinheira que, também antes de ir embora, deixasse uma janta bem gostosa pronta para ela. Assim foi feito.

Sâmela se banhou, vestiu a roupa que mais gostava, perfumou-se e, verificando a geladeira viu que tinha bastante cerveja. Aquela noite eles iriam beber pela primeira vez. Estava ansiosa com a demora de Vítor. A toda hora olhava o relógio e, mesmo vendo que ainda não estava na hora combinada sonhava a sua chegada antes da hora. Até que soou a campainha e, pelo sistema de vídeo viu que era ele. Ficou em dúvida se corria até ele ou se o espera com as portas abertas. Mas o coração falou mais alto e ela desceu correndo as escadarias e o abraçou um dos mais diferentes abraços que ele já tivera recebido. Felizes eles subiram correndo as escadarias da mansão. Vítor jamais imaginaria o que o esperava e, quando viu que estavam sozinhos em casa e, na sala de jantar, uma magicamente linda mesa posta para alguma comemoração, ele indagou...

--Sâmela, onde estão todos?

--Eu dispensei os empregados!

--Mas, e seus pais? E seu irmão?

--Estão viajando para os Estados Unidos, neste momento estão voando.

--Você sabia disso, que estaríamos sozinhos, Sâmela?

--Vítor, sabendo desta viagem eu me desculpei alegando tarefas escolares e não quis ir, mas, na verdade, Vítor, eu queria estar a sós com você e, mesmo com remorso da mentira, eu planejei este encontro.

--Por que fez isso, Sâmela?

Confiante no que ouvira da mãe dele, Sâmela não teve medo de declarar um amor imenso, que, inocentemente nascera nos seus treze anos de idade, por ocasião do assalto quando Vítor colocou a vida em risco para salvá-la da morte iminente. Nestes últimos dois anos este amor apenas crescera e, engasgado em sua garganta, apenas esperava o momento certo de gritá-lo a todos, mas tinha medo de não ser correspondida e muito sofrer por isso.

--Calma, calma Vítor. Eu tenho algo a confessar. Se você, ao começar a ouvir, não gostar pode virar as costas e ir embora. Se gostar esteja convidado a jantar comigo. Mas, eu não tenho coragem de falar e, por isso, pela primeira vez, eu vou beber uma cerveja na vida, para me encorajar. Você me acompanha?

E, ao ver Sâmela abrindo a geladeira, pegando uma cerveja e, vendo a abundante quantidade de cerveja concluiu.

--Sâmela, se a coisa é tão importante que você precisa de coragem, confesso que, também necessito me encorajar, mas, se você não se importa, eu prefiro um vinho tinto seco, assim como meu pai. Eu também nunca bebi, mas não gosto de cerveja.

--Sim, sim Vítor. Então farei como você. Também beberei vinho. Vamos na adega pegar assim você pode escolher, pois, eu não conheço nada de vinho.

Neste momento o telefone toca. É a governanta perguntando se estava tudo bem e se ela necessitava de alguma coisa. Sâmela respondeu que estava bem que ela não se preocupasse e, enquanto ela atendia o telefone, Vítor retornou da adega com uma garrafa. Assim que Sâmela desligou o telefone ele falou...

--Também não conheço de vinho, pois, nunca bebi. Peguei esta porque é um que papai sempre toma. Mamãe fala que vinho seco é muito ruim, mas, papai completa que vinho suave ou doce parece refrigerante. Pegue duas taças enquanto eu abro a garrafa.

Sâmela trouxe as taças, Vítor encheu as duas e, ao fazerem um brinde, Sâmela o surpreendeu com um tímido beijo na boca. Ambos se olharam tremendo de emoção, insegurança e voltaram a se beijarem agora louca e longamente que parecia não ter mais fim. Aquele beijo que povoava seus pensamentos, sofrendo esperançosa e silenciosamente nos dois últimos anos, parecia ser, não o primeiro, mas o beijo de amor jamais beijado.

--Eu amo você Vítor. Desde o dia em que vi você pela primeira vez, caído na calçada, todo ensanguentado, desmaiado me parecendo morto. Naquela hora me pareceu uma metade pareceu sair de mim. Eu sempre quis gritar ao mundo o meu amor por você, mas, duas coisas me freavam: os meus apenas treze anos de idade e, o pior, você não pensar igual e não me querer.

--Sâmela, obrigado por falar primeiro pois eu jamais teria coragem de me declarar. Eu sempre ficava trêmulo e vermelho quando via você. Sabe, quando dormi aqui em sua casa na verdade eu fiquei acordado durante toda a noite. Eu estava tentado a ir ao seu quarto, mas não tive coragem ou não quis trair a hospitalidade...

Neste momento Vítor foi interrompido por uma gargalhada de Sâmela.

--Por que está rindo?

--É que naquela noite eu pedi a minha mãe para dormir comigo. Eu aleguei que estava com medo de você. Ela se recusou, inicialmente, dizendo que você chegou a se arriscar a morrer para me defender e, que jamais me faria mal. Ela foi sim, dormir comigo, apenas depois que eu disse a ela que eu não estava com medo de você e sim, de mim mesma. Eu confessei a ela que eu estava loucamente apaixonada e que um calor enorme invadia meu pensamento e, que acabaria me levando até ao seu quarto, meu amor. Obrigado por me amar também. Mas, por que você não disse antes...

--Eu disse sim, no hospital quando você foi me visitar, mas, você não entendeu quando eu disse: “você me deve uma estrela”...

Sâmela saiu correndo dizendo que ouvira, achara linda a declaração e jamais a esquecera. Foi até ao aparelho de som e colocou um CD com lindas músicas românticas que seus pais gostavam de ouvir. Voltou e sentou-se ao lado de Vítor e, repetindo o gesto dele, levou à boca a taça e tomou um bom gole de vinho. Vítor se levantou e, suavemente, pegou a mão dela e a convidou para dançar. Ela também se levantou, abraçaram-se e deslizaram uma romântica dança e, apertando-o contra seu corpo disse a ele que ela é a estrela que queria e, que, há muito já a deveria ter entregue. Olharam-se emocionados. E, novamente se beijaram, agora com mais intensidade ainda, como se fossem adultos de quinze anos de idade, com toda energia de cada um de seus corações.

Estavam muito felizes e se entregaram àquele amor em abraços e carinhos, desconhecidos até então pelos dois. Embriagados por aquele sentimento que cada um guardou em si por dois anos e, que crescia a cada vez que se viam, sozinhos em casa, embalados por um fundo de suaves e românticas músicas, não poderia acabar diferente... o sexo venceu e acabou com aquela louca e adiada vontade que os dominava a cada dia. Fizeram um sexo ardentemente abençoado por um amor sincero na cama de Sâmela e, o repetiram em gostoso banho em sua linda banheira de hidromassagem. Já passava de uma hora da manhã. Já era sábado e, no outro dia não teria aula nem trabalho. Denise, mãe de Vítor, ligou preocupada, pois, ele nunca ficara tão tarde fora de casa, a que ele respondeu...

--Mamãe, boa noite!

--Já é dia meu filho, bom dia! Estou preocupada, pois, você nunca ficou até tão tarde fora de casa.

--Desculpa-me, mamãe. Estava distraído e não vi a hora passar. Daqui a pouco estarei aí. Um beijão.

Então, os dois, Sâmela e Vítor, procuraram organizar toda a desordem que fizeram e deixaram a casa arrumadinha, sem deixar nenhuma alteração que pudesse levantar suspeita. Depois Vítor voltou a beijar loucamente a sua amada, chamou um taxi e, ao começar a descer a escadaria foi interrompido por Sâmela que o beijou novamente, louca e apaixonadamente e perguntou:

--Gostou da estrela que me pediu?

--Eu peguei um pedacinho dela. Esta estrela é muito grande e, a cada momento eu pegarei outro e outro pedacinho e, certamente, levarei décadas e muitas décadas para tê-la todinha para mim. Ligo para você amanhã, meu amor. Fica com Deus.

--Vá com Deus.  Aguardo o seu telefonema. Sonhe comigo. (CONTINUA)


domingo, 2 de fevereiro de 2020

ALGUÉM ME AJUDE (MAIS UM TRECHO)


ESCRITOR NAS HORAS VAGAS -

Casos médicos e romance








Dr. Afranio Bastos



ALGUÉM ME AJUDE



DEDICATÓRIA



Aos meus filhos, Danilo, Daniel, à minha esposa Fátima, aos meus netos Ana Júlia, Bernardo, Benjamin e Thomas
E, à minha irmã Therezinha Bastos que fez de mim um médico...



O cansaço dominava Dr. Bernardo. Levantara cedo, trabalhara durante todo o dia, não conseguira almoçar, pois, tinha uma pendência para solucionar em um banco. Já havia guardado seu computador, receituários, carimbos e pedidos de exames. Já havia guardado seu jaleco e, fazendo um alongamento, tentava aliviar as dores de sua hérnia de disco L5-S1 que maltratava a sua dor ciática de seus poucos vinte e seis anos de má postura. Neste instante, pedindo licença uma das secretárias abriu a porta dizendo que, do lado de fora da clínica, sentada no chão e recostada na corrente que já fechava o estacionamento, uma moça linda e bem vestida chorava copiosamente. Ela, a secretária tentara falar com ela, tentando convencê-la a voltar no outro dia já que a clínica já se fechara, mas a linda moça apenas chorava e dizia que necessitava falar com o médico e, mais, não tinha convênio e nem com o que pagar...Dr. Bernardo sentiu doer mais ainda a sua “ciática”, que mais lhe alertou a fome, até sentiu que o egoísmo e a fraqueza humana tentaram responder por ele, mas, acreditem, ele não fora passear na faculdade e, no juramento, ele não mentira. Voltou a montar tudo, vestiu o seu jaleco pediu que a deixasse entrar. A secretária perguntou se a atenderia de graça e, Dr. Bernardo respondeu que o choro dela já havia pago a consulta... E perguntou a secretária:
__ Eu abro o fichário dela no sistema?
        __ Claro, como vou me lembrar dela amanhã?
        __ Mas o sistema já está fechado...
        __ Esqueceu como reabrí-lo?
        __ Não, não, perdão...
        Alguns minutos depois a linda moça entrava no consultório. Em seus dezesseis anos de idade era realmente linda. Pedindo desculpas, sentou-se e, como dissera a secretária, copiosamente, não parava de chorar.
Como fazia sempre nestas situações, Dr. Bernardo cruzou os braços, afastou a cadeira e nela se recostou e a deixou chorar. Depois de algum choro, secando os olhos com uma toalha de papel que Dr. Bernardo lhe fornecera, ela olhou firmemente em seus olhos e, que olhos lindos ela tinha, como eram lindos os seus olhos...
       __Perdão doutor... Necessito de algum médico que me dê um medicamento para que eu me mate. Eu não deveria ter nascido... não faço parte deste mundo. Ninguém me entende... não tenho vontade de sair da cama, não tenho vontade de me embelezar, não tenho vontade de comer, não consigo enxergar meus colegas como amigos, nenhum amigo me parece amigo, meus parentes, meus pais, meus irmãos não me parecem confiáveis e eu não vejo razão para permanecer aqui neste mundo. Nenhum medicamento que me foi receitado me ajudou.
     __Eu sei como é...
     __Ajuda-me doutor, eu necessito morrer...
     __Mas, veja bem! É muito fácil matar você... com a sua morte tudo em sua volta deixará de existir e, consequentemente, você estará livre de sua existência sem sentido. Agora, veja bem... como ficará sem sentido a vida das pessoas que amam você, das pessoas que acham você bela... das pessoas que amam seus olhos lindos e, a quem seus pais e seus irmãos abraçarão em seu lugar? Dá-me uma chance? Diga-me os remédios que já tomou e deixa-me tentar uma coisa mais moderna. Você não sabe onde está o seu coração, você não sabe onde está a sua alma, você não sabe onde está o seu instinto de sobrevivência e, por não saber onde buscá-los, esta imperiosa necessidade de chorar, de ser ouvida e, ninguém o quer fazer, não? Venha aqui todos os dias neste horário. Não, não... venha uma hora mais cedo para você não ficar sozinha comigo sem a secretária. Eu não direi nada, eu não perguntarei nada. Eu apenas deixarei você falar, se assim o quiser, ou chorar se necessitar e, até chorar muito se houver vontade. O medicamento leva alguns dias para fazer efeito, talvez semanas ou meses... no entanto, a cada minuto, a cada hora, a cada dia, a cada semana e, a cada mês, você sentirá progressiva melhora... se quiser pode me convidar a passear e passearemos. Passearemos sim estando você se achando bela ou feia. Entenda, eu fiz um juramento para salvar e não para matar...
        Nesta hora a secretária entrou na sala e, com lágrimas nos olhos, disse com ternura e fraternidade:
        __Doutor Bernardo, não tenha pressa. Eu conheço bem o senhor... posso ficar aqui quanto tempo a sua paciente necessitar, Ok?
         __Obrigado, Andrea. Sua hora extra está garantida...
         __Não, doutor, não quero hora extra de uma boa ação, fique à vontade.
        E, Marli, este era o seu nome, conforme estava no sistema que a excelente secretária havia aberto, teimava em não querer um novo experimento. Dr. Bernardo, com o seu endeusado modo de acolher lhe disse com voz firme e, também com lágrimas atrevidamente brotando em seus olhos:
      __Minha querida, Marli. Você me pediu um medicamento para matar você, certo? Eu lhe darei sim. No entanto, antes você vai tomar este medicamento novo por dois meses... todo dia eu quero você aqui chorando em minha mesa... venha bela ou venha feia, venha com ou sem banho, mas, não deixe de vir. O remédio você tomará aqui. O dia que que você não vier eu levarei o medicamento até você, certo. Se em dois meses você não enxergar sinais de melhora, eu lhe dou um remédio para você morrer. Tudo bem? Saiu pegou um pouco de água e lhe deu o primeiro comprimido dizendo que não esperasse um milagre em poucos dias. Agora seque as minhas lágrimas enquanto eu seco as suas e me dê um abraço. Espero você amanhã. Agora vá...
        __Até amanhã, Dr. Bernardo.
        Finalmente, Dr. Bernardo conseguiu sair, jantar e almoçar ao mesmo tempo. Antes, no restaurante, bebeu, com vontade, um bom vinho enquanto meditava sobre a forte formalidade do eterno e a injusta fragilidade do efêmero.
        No dia seguinte, a menina não apareceu... Marli, não compareceu conforme combinado. Dr. Bernardo não perdeu tempo e, conforme prometera, foi até à sua casa levando o comprimido milagroso, a pílula da felicidade. Lá chegando, recebido pelo pai de Marli, Dr. Bernardo explicou a sua função e o ocorrido na noite anterior em seu consultório e, que, seria a última derrota da sua vida se ela realmente ocorresse. Embora o pai da menina Marli, inicialmente tentasse impedir que ela fosse importunada conforme prometera a ela, não conseguiu se livrar da demonstrada insistente boa vontade do nosso Dr. Bernardo e, cheio de boas esperanças, o levou até o quarto dela. Qual não foi a surpresa dos dois, pai e médico, ao vê-la se maquiando diante do espelho... e tão bela ela estava que os três se emocionaram... E, primeiro ela falou:
      __Desculpa-me doutor... eu tentei, mas, não consegui responder à sua pergunta a quem meus pais e irmãos abraçariam depois de minha morte e, embora muito atrasada, eu estava correndo para tentar encontrar você no consultório... Certamente eu não chegaria, mas, você veio... obrigado por ter vindo...
Então o pai de Marli perguntou por que ela estava tão bela como nunca estivera, ao que ela respondeu:
     __Meu paizinho querido... eu amo vocês... eu quero ficar ao seu lado... nenhum médico conseguiu me responder: quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Por que eu não vejo graça na vida? Por que nada me interessa na vida? Por que as pessoas não me entendem? Por que todos não me ouvem e, mais, alegam que além de bela, eu tenho tudo para ser feliz e que nada justifica a minha depressão? Por que os amigos insistem que o meu mal não se justifica e, em grupos, me criticam, me humilham? Recomendado por uma farmacêutica, que sempre minha ouvia e me orientava, eu fui até ao consultório do Dr. Bernardo. Segundo ela, a farmacêutica, ele resolveria meu caso. Eu fui sim, mas cansada de tantos médicos, de tantos conselhos e incompreensões, eu fui sim, mas já cheguei lá solicitando um medicamento para morrer. Um remédio para eu morrer sem sofrimento. Ele me convenceu a fazer um trato com ele que, se em dois meses eu não sentisse sinais de melhora, ele me daria um medicamento para eu me matar. Na hora eu prometi, mas depois, como sempre, tive dúvidas, mas, repentinamente, eu tive vontade de o encontrar me esperando e tentei me aprontar e conseguir chegar a tempo de tomar o medicamento por dois meses, conforme combinado. Agora eu me senti mais confiante, pois, conforme ele afirmara, se eu não fosse lá, ele viria aqui, como veio.
Meu paizinho querido, uma dor enorme mora dentro de mim, um vazio que não tem tamanho pesa dentro de meu peito, um nada de todo tamanho insiste em me manter dormindo, insiste em me manter longe de tudo e de todos. Amar vocês e gostar do amor de vocês não nutrem meu instinto de sobrevivência... eu vejo a tristeza em seus olhos por não entenderem que a minha felicidade se chama, morte.
Lágrimas correram pelo rosto entristecido do pai de Marli. Dr. Bernardo impediu que o pai dela a abraçasse conforme tentou fazê-lo. Dr. Bernardo falou claro e, em alto e bom som, para que pai e filha entendessem que estavam na mão com uma doença a ser curada e, que, ele ditaria as regras do tratamento ou perderiam a guerra. Dr. Bernardo esperou que Marli tomasse a medicação e, antes de sair, novamente falando em alto e bom som, disse:
     __Sua filha Marli não é, ainda, uma menina linda... mas confie em mim e, ela será linda um dia. Sem parar nunca o tratamento, ela se fará realmente linda e se sentirá amada e amante e orgulhosa de se olhar no espelho...



No outro dia, por volta de cinco horas da tarde, Dr. Bernardo apareceu na casa de Marli. Era sábado e ela não poderia ir ao consultório tomar a medicação e não poderia ficar sem ela. Conforme haviam combinado antes, ele levaria a medicação na casa dela e, assim, o estava fazendo. Foi recebido pelo pai dela como da primeira e única vez que ali fora, mas, em seguida chegaram seu irmão mais velho seguido de sua mãe. Respectivamente Valter, Cícero e dona Amália. Dr. Bernardo cumprimentou o pai de Mali, que Já conhecia:

         __Boa tarde, Sr. Valter!

         __Boa tarde, Dr. Bernardo. Este é meu outro filho Cícero e, esta, minha esposa Amália. Estamos tentando tirá-la do quarto desde cedo e ela nem responde. Não tomou o café da manhã e nem almoçou e, pelo que parece vai fazer o que faz com muita frequência, vai continuar dormindo. Nós ficamos muito tristes, mas já nos acostumamos.

         E, chorando dona Amália concluiu:

         __ Toda a família sofre, Sofremos duas vezes. Primeiro por vê-la perder a juventude e, segundo pelas indagações maliciosas de parentes e amigos que não acreditam e não aceitam este comportamento de nossa Marli, como doença.

         __Eu vim trazer o remédio dela conforme combinado. Amanhã, domingo, como a clínica não abre também, novamente estarei aqui. Podemos ir ao quarto dela?

         __Claro que sim, vamos. Marli, é o seu pai. Seu comprimido chegou e, seu médico junto.

         __Só um minuto papai, eu vou me banhar rapidamente e já abro a porta, ok?

         A mãe dela, ainda com a porta fechada, fez um comentário feliz...

         Que bom, Dr. Bernardo, ela parece já estar melhorando. Em outras situações ela nem responderia e, sair, muito menos.

         __Não tire conclusões precipitadas, dona Amália. Ela apenas está cumprindo uma promessa que nós nos fizemos. O tratamento é a longo prazo.

         Alguns instantes depois, muito rapidamente, Marli abriu a porta e, a cada dia, mais linda parecia, cabelos molhados, chorando abraçou o seu pai e a sua mãe, que, tentando sufocar a emoção, choraram também, embora despistada e levemente. Juntos caminharam até a cozinha, Dona Amália insistiu que Marli comesse alguma coisa. Como sempre, ela recusou, apenas tomou a medicação, o comprimido, levado pelo médico. E, calma e docemente, disse Dr, Bernardo:

         __Se a nossa Marli tivesse, em suas sinapses neurogênicas, quantidades suficientes de serotonina, nora adrenalina e dopamina, eu convidaria vocês todos para atravessarmos a avenida, pisarmos na areia da praia e tomarmos um sorvete, aproveitando esta linda tarde de calor.
E a linda Marli respondeu dizendo que iria com eles se prometessem que se comportariam como se ela não estivesse ali, quaisquer que fossem as reações que, durante o passeio, ela apresentasse, fosse de alegria, tristeza ou quaisquer outros sentimentos... Dr. Bernardo não perdeu tempo e fez com que todos aceitassem aquela condição e, de pés descalços, atravessaram o asfalto quente e, apressadamente correram para as águas das ondas que, mansamente e artisticamente, beijavam as areias das lindas praias de Santos.
         A tarde estava linda. Pessoas de todas as classes se divertiam à sua moda. O sol tentava já se esconder atrás de uma longínqua montanha azul, acenando os seus derradeiros raios, de ouro flutuante, que beijavam a imensidão do mar. Alheios, ou indiferentes ou, melhor expressando, todos se comportavam como se Marli ali não estivesse, conforme promessa feita antes de saírem de casa. Conversavam e aproveitavam para se conhecerem, a família do médico e a família de Marli. Repentinamente todos, emocionados sem deixarem transparecer, ouviram de Marli:
__ Eu tomaria um sorvete de coco...
Sem perda de tempo, seu irmão caçula deu a ideia de se sentarem em um quiosque e, todos, tomassem um sorvete e, assim o fizeram. Já era noite e Marli nada comera ainda, o que, com frequência, acontecia. Pediram os sorvetes, cada um escolheu o seu sabor. Que felicidade de todos quando, terminado o seu sorvete de coco, Marli quis repetir e o fez mostrando prazer em saborear seu geladinho de coco e, mais, depois de terminar, pediu uma água de coco. Dona Amália, feliz, em voz baixa no ouvido do médico, disse que o remédio já estava fazendo efeito. Dr. Bernardo a advertiu que não se iludisse, pois, era muito cedo para assim se pensar. Neste momento, passa um colega de colégio de Marli com uma prancha de surfe em uma das mãos. Ele a cumprimenta, mas, ela, muito friamente, responde com um breve e inexpressivo sorriso. Mas, o acompanhando com o olhar ele diz:
__ Eu gostaria de saber surfar...
Estas palavras explodiram no coração de todos como se alguma coisa verdadeiramente estivesse mudando. Voltaram para casa.
No dia seguinte, domingo, conforme previamente combinado, Dr. Bernardo foi levar o comprimido, a pílula da felicidade, para que a menina Marli não interrompesse o seu tratamento. Ela não estava. Todos da família estavam felizes pois, já matriculada, ela estava fazendo aulas de surfe, conforme insinuara na noite anterior.  
__ Que bom! Vamos apostar que Deus está ao nosso lado. Vamos apoiá-la em tudo, sem questionamentos e perguntas sobre a sua depressão. Quando ela chegar, peça-a que não esqueça do medicamento. E que, amanhã, segunda feira, eu a aguardo lá no consultório.
O tempo passou. Tudo ia muito bem. Marli se destacou muito bem no surfe. Chegou a ganhar medalhas em competições...
Certo dia, como fora combinado, ela não foi buscar o seu remédio. Dr. Bernardo foi à sua casa e, ao lá chegar, encontrou um clima de angústia e desespero. Ela, na noite anterior, depois de tomar o comprimido que buscara no consultório, saiu com alguns amigos do surfe e não voltou para casa. E, ainda, confessaram para o médico que Marli estava, já há algum tempo, fumando maconha. Imediatamente tomaram a decisão de saírem à sua procura, com a intensão de interná-la em uma clínica de recuperação. Não foi difícil encontrar o seu grupo através de colegas do surfe. Quando chegaram e tentaram abordar Marli, que naquele momento fumava um cachimbo de crack, foram impedidos por seus novos colegas, e, reagindo e tentando se aproximar à força, Cícero entrou em luta corporal com um morador de rua, alcoolizado que o baleou no abdome e pescoço. Dr. Bernardo imediatamente o colocou em seu carro e partiram para o hospital, mas lá chegou sem vida. O resto da noite e o dia seguinte ficaram envolvidos com os procedimentos normais nestes casos, polícia civil e Instituto Médico Legal, velório e enterro de Cícero.
      Que tristeza imensa invadiu aquela família. No dia seguinte, em vão, procuraram Marli em toda a Costa da Mata Atlântica. Os surfistas conhecidos se negavam a falar, afinal, havia envolvimento policial e, o medo, bloqueava quaisquer informações. Sem desistirem de procurar, durante quatro anos nunca mais souberam falar de Marli. Dona Amália, sua mãe, de tristeza pela perda do filho e desaparecimento da filha, faleceu dez dias depois do enterro de Cícero. Seu pai, juntamente com o filho caçula, Pedrinho, não desistiam e não perdiam a esperança de encontrá-la.
         Um dia, Dr. Bernardo, enquanto fazia uma cirurgia, recebeu um telefonema de um colega médico, da UTI de um hospital de Bogotá, na Colômbia. Naturalmente, pediu que deixasse o telefone que ele ligaria mais tarde.
         Assim que terminou a cirurgia, curioso, Dr. Bernardo ligou para o telefone indicado e, qual não foi a sua surpresa. Seu colega de plantão na UTI de um hospital de Bogotá, na Colômbia lhe contou que, uma jovem brasileira, internada sob cuidados intensivos em virtude de um quadro de hemopneumotórax por projétil de arma de fogo, insistia em falar com ele.
         __Quem? Qual o nome? Não conheço ninguém na Colômbia!
         __Caro colega... ela conhece bem você... é uma linda jovem usuária de drogas. O nome dela é Marli. Diz que conhece você de Santos e, ainda, que você era tão conhecido, que levava o remédio da depressão, para ela, todo dia na casa dos pais dela.
         __Sim, colega. É verdade. Tentamos curá-la da depressão. Um belo dia ela saiu de casa acompanhando usuários de droga. Na tentativa de resgate dela dos moradores de rua, seu irmão mais velho foi assassinado e, eu acho, ela nem percebeu, ocupada que estava com seu cachimbo de crack. Alguns dias depois sua mãe faleceu de desgosto e, nestes quatro anos que se passaram, ela tem sido procurada, incansavelmente, pelo pai e pelo irmão caçula que, em momento algum, se acostumam com a ideia de perdê-la. Vou dar a eles a boa notícia e iremos até aí. Obrigado pelo seu contato.
         __De nada colega, faz parte de nossa missão fazer tudo o que há de melhor pelo paciente, não? Ela queria isso e, simplesmente, eu fiz. Venha. Teremos prazer de conhecê-lo pessoalmente.
         __Até breve, colega!
         __Até breve.
Terminado o plantão, Dr. Bernardo ligou para o Sr. Valter perguntando se ele podia ir até o seu apartamento para conversarem.
__ Claro, claro doutor. Pode me adiantar o assunto?
__É sobre Marli. Ela foi encontrada, está viva e, unidos podemos mais uma vez tentar buscá-la para o nosso lado. Não quero falar por telefone e estou muito cansado para ir aí. Estou aguardando você e, seu filho, naturalmente.
Algum tempo depois, Valter e seu filho caçula, chegaram ao apartamento de Dr. Bernardo. Foram recebidos e, inicialmente, o médico tentou acalmar a ansiedade dos visitantes para saberem detalhes sobre a sua amada Marli. E, com um sorriso nos lábios, o médico os chamou a sentarem em torno da cozinha, dizendo:
__ Estou tomando um vinho. Sirvam-se.
__Sim. Dá licença, doutor, vou aceitar...
__Bem meus amigos. Um pouco da angústia passou, mas, ainda temos muita luta pela frente e, creiam, grande. Hoje eu recebi um telefonema de um médico plantonista de uma UTI, a pedido da própria Marli. Ela queria falar comigo por telefone, mas, o colega não permitiu. Eu pedi a ele para dizer que eu iria lá. Devemos todos nós irmos juntos. Ela, segundo meu colega, já está fora de risco, deve ainda permanecer internada na UTI por mais uns dois dias e, em seguida, mais uns cinco na enfermaria. Ela está na UTI de um hospital fora do Brasil...
__ Fora do Brasil?
__ Sim. Em Bogotá, capital da Colômbia. Ela foi baleada no tórax, teve uma lesão cardíaca com sangramento intenso, teve o espaço plural invadido por sangue e ar, mas, foi operada com sucesso e ficou por dez dias inconsciente, no respirador artificial e com dreno torácico. Segundo o meu colega, está programado para hoje a retirada do dreno. Eu não sei o porquê do tiro. Acho que        deveríamos ir no primeiro voo que tiver vaga, concordam?
__ Claro, claro.
__ Posso reservar as passagens agora?
__Sim, sim, vamos fazer isso.
E, procurando pela internet, Dr. Bernardo viu que tinha passagem logo cedo pela manhã, partindo do aeroporto internacional de São Paulo em Guarulhos. Reservou sem pensar.
No dia seguinte, muito cedo partiram para Guarulhos. No horário marcado estavam a bordo e, algum tempo mais, em pleno ar, cheios de ansiedade em seus corações, principalmente nos corações do pai e do irmão de Marli, o caçula Pedrinho.
__ Dr, Bernardo, na noite anterior, em seu apartamento, sob uma cautelosa e cuidadosa gustação de um vinho seco, esclareceu o tamanho do problema que enfrentariam daqui para frente. Antes eles tinham uma Marli depressiva e, agora, somadas à depressão, estão as diversas drogas com as quais está viciada. Não vamos parar de lutar, mas, podemos perder novamente. Vamos sonhar com a esperança.
__Sim, meu amigo, sempre lhe seremos gratos por tudo que tem feito. A nossa única arma é a esperança e a fé em Deus. Antes tínhamos as medicações e, agora temos a falsa independência de ser maior de idade, como também, com mais gravidade, a dependência de sei lá quais e quantas drogas.
         Enfim, chegaram. Do aeroporto, depois de se informarem, saíram em um taxi para um Hotel mais próximo do hospital. Após um bom banho, sem perda de tempo, se encaminharam para o hospital. Ainda era hora de visitas e, minutos depois, estavam ao lado do leito de Marli. Seu rosto e seus olhos continuavam lindos, mas, estava muito emagrecida, desnutrida e com uma face de imensa tristeza que se deixou banhar por um mar de lágrimas quando viu seu pai e seu irmão caçula, Pedrinho, que não poderia se esperar diferente, também choraram muito. Nesta hora, o médico plantonista veio até eles, cumprimentou seu colega Bernardo e disse que ela estava de alta da UTI. Pediu que esperassem na antessala de espera que em minutos ela iria para a enfermaria. Dr. Bernardo pediu que aguardasse um pouco que ele iria descer e reservar um apartamento para ela, na recepção do Hospital. Algum tempo depois ela estava, junto com eles em um luxuoso apartamento. Depois das emoções iniciais, Marli agradeceu ao Dr. Bernardo e perguntou por sua mãe e pelo seu irmão Cícero. Bernardo respondeu rapidamente para que ela não soubesse da verdade assim, ainda em recuperação.
         __ Não puderam vir por falta de passagem. Mas, me conte sobre você. Podemos saber porque foi baleada?
         __ Sabendo por onde e com o que eu me envolvera, vocês podem imaginar. Fiquei muito tempo nesta UTI e, depois que eu saí do estado de coma, depois que saí do respirador e, com a diminuição dos sedativos, eu tive muito tempo para pensar... se eu tivesse me matado quando eu tive a ideia e, não consegui, nada disto teria acontecido. Convidada para usar maconha que eu sairia da depressão em que me encontrava. Não só eu não consegui sair da depressão, como, pior, em consequência, eu abri caminho para todas as outras drogas conhecidas. Como eu não tinha dinheiro para pagar as drogas, eu virei empregada do grupo. Virei cozinheira e lavadeira e, só comia o resto que sobrava. Várias vezes tentei voltar para casa e, ameaçada de morte minha e de minha família e, sempre drogada, deixei o tempo passar... sinto muito papai e irmãozinho Pedrinho, por tê-los feitos sofrer.
         Dr. Bernardo interveio.
__Não está cansada? Poderemos conversar depois. Não acha melhor?
__ Não, não. Não estou cansada. Apenas não consigo imaginar como será a minha vida daqui para frente e quero contar tudo. Como eu disse, eu tinha que lavar, passar, cozinhar em troca de drogas e o resto de comida que sobrava. O sexo rolava solto, mas eu não aceitava. Todos tentavam me fazer mudar de ideia e aceitar o sexo livre, mas, embora sobre efeito de drogas, eu resisti por todo este tempo, várias vezes ao dia. Um dia, alguém do grupo, revoltado com a minha resistência a me entregar ao sexo, quase quatro anos com eles, assistindo a todo tipo de barbárie e animalescas entregas sexuais, me disse que se eu não me entregasse a ele, eu seria morta. Como eu resisti ele atirou em mim e todos fugiram. Fui salva pelo resgate municipal. Continuei, virgem, viciada a todos os tipos de drogas e, ainda, com a minha depressão que não me deixa ver sentido na vida! Mas, mamãe e Cícero? Eu necessito vê-los. Fiquei quatro anos fora de mim, não me lembrava de ninguém, quase não tinha na memória de vocês e deles. Já me reaproximei da memória de vocês, mas, deles, mamãe e Cícero, ainda tenho, em minha mente, suas imagens distorcidas. Eles já estão vindo?
Esconder a verdade por muito tempo não ajuda a reduzir o sofrido impacto que ela pode causar em alguém, pensou Dr. Bernardo e, decidiu abrir o jogo, contar sobre a morte dos dois, o que assustou muito ao Sr. Valter e Pedrinho. Disse ele:
         __ Marli, minha paciente especial. Até hoje e, pior, nos quatro últimos anos, conforme você mesma nos contou, sua vida foi de sofrimento, de dores, de incompreensões e, solitariamente, você caminhava em uma estrada paralela e, sem nenhum sentido em sua vida, o que só nós médicos compreendemos. Buscava em todas as margens e curvas desta estrada uma forma simples de morrer, e nunca a encontrou. A mais próxima e, nada eficiente, foi a tentativa covarde que seus amigos fizeram baleando você. Nada disso normaliza os hormônios sinápticos, nada disso desperta o gosto pela necessidade imperiosa de vida que seus parentes sonham brotar em você.  Marli, minha querida, chore bastante, chore muito, chore tanto quanto você o fez a vida toda... antes todos diziam e, por muitas vezes, disseram, que você não tinha razão para chorar, mas agora não o dirão porque agora você vai chorar, pela primeira vez, um choro que eles entendem. Quero dizer, minha menina, que sua mãe e seu irmão Cícero, por sua culpa, estão mortos. Você não conseguiu se matar como sempre desejou e, sem saber, conseguiu matar Cícero quando ele tentou resgatar você dos usuários de drogas e, você saboreando um cachimbo de crack, nem notou que seus amigos assassinaram seu irmão. Alguns poucos dias do enterro de seu irmão e, de seu desaparecimento, Marli, de tristeza, a sua mãe faleceu após um ataque cardíaco.
E, como se era de esperar, Marli, debruçando o rosto no travesseiro, e, soluçando forte, chorou e chorou muito. Chorou o mais triste de tantos choros chorados durante toda a sua a vida. Todos no quarto se emocionaram, mas, estavam concordantes, a verdade não podia ficar desconhecida, nem adiada. Em qualquer momento que fosse revelada faria o mesmo impacto de tristeza e emoção das perdas irreparáveis da mãe e do irmão. Será que pioraria o lado emocional de Marli? Só o tempo o diria e, se por acaso piorasse, nada que fora feito antes no sentido de melhorar a doença mental de Marli, nada e nada mesmo, em nenhum momento, funcionara. Depois de demonstrar uma tristeza imensa, Marli pediu que, assim que tivesse alta hospitalar, iria direto pedir perdão nos túmulos de sua mãe e de seu irmão. E, completou que gostaria de ir para uma clínica de recuperação de drogados. Alertada por Dr. Bernardo, Marli ficou bem ciente que uma grande maioria que entrava em uma clínica de recuperação, lá não permanecia e, quando saía, com uma grande tristeza dos familiares, começava tudo de novo.
__Mas, eu vou ficar até me curar. Me curar dos vícios das drogas e, auxílio da sua medicação, Dr. Bernardo, manter a minha depressão sob controle. Você pode me ajudar a arranjar uma clínica?
__Claro que sim. Porém, antes, vou pedir a sua alta daqui deste hospital e iremos, em taxi aéreo, direto para Santos e, até você se recuperar totalmente desta agressão, até você se recuperar totalmente desta desnutrição, você ficará internada em meu hospital. Uma equipe multidisciplinar, incluindo eu e, nutricionistas, psicólogas, fisioterapeutas, se entregará ativamente para proteger e ajudar você a sair desta. Vamos começar agora. Aqui está o remédio que eu prescrevi para a sua depressão. Pode tomar. Segure o comprimido que vou pegar água no frigobar.
E, assim foi feito. Marli voltou a tomar o antidepressivo. Conforme combinado, no dia seguinte, sob pedido de Dr. Bernardo, Marli recebeu alta hospitalar e voaram para o Brasil, aeroporto de Congonhas. Dali, de taxi, seguiram direto para Santos. Embora fragilizada, Dr. Bernardo deixou que ela fosse até o cemitério. Ali, debruçada no túmulo de sua mãe e de seu irmão ela chorou muito e várias vezes repetiu pedidos de perdão. Depois seu pai sugeriu que ela passasse em casa, tomasse um bom banho, pegasse roupas, digo, pijamas e material de higiene pessoal, comesse alguma coisa antes de ir para o hospital. Dr. Bernardo concordou.
Algum tempo depois estava sendo internada em um hospital onde Dr. Bernardo trabalha. Foi avaliada por vários especialistas. Passou por vários exames e, apesar do deplorável aspecto de desnutrição, laboratorialmente ela estava bem. Não portava nenhuma doença infecto contagiosa. Os dias se passaram e Marli se recuperava muito bem. Apenas o lado depressivo, com frequência, se manifestava, mas a equipe de psicólogos e psiquiatras estavam atentos e, prontamente, atuavam como necessário.  Logo, como clinicamente estava bem, ela foi transferida para uma entidade de internação psiquiátrica para continuidade de seu tratamento depressivo e, ao mesmo tempo, permanecer longe de drogas. Ela pediu para ir um convento de freiras onde, além de continuar os seus estudos, ficaria mais protegida, não só das drogas, como também dos antigos amigos de rua e fornecedores de drogas, pelo menos, até que ela tivesse certeza de estar fortalecida o bastante para não correr o risco de uma recaída.
Dr. Bernardo procurou um convento onde também tem uma enfermaria que cuida de drogados em uma cidade de Santa Catarina. Ela foi para lá. O pai e o irmão dela também se mudaram para a mesma cidade para ficarem mais perto dela e não faltarem nos dias de visita.
As freiras cuidavam e a protegiam muito bem. Ela se despertou para o lado religioso, que a sua família não tinha muito, e foi se aconselhar com a madre superiora se conseguiria ser freira. Recebeu orientações que, antes de tomar uma decisão por impulso, esperasse a certeza da segurança de ter se livrado das drogas completamente. Ela já sabia dos psiquiatras e psicólogos pelos quais passou que jamais se curaria completamente da depressão, mas, com auxílio da medicação, levaria uma vida normal, com algumas leves recaídas de tempos em tempos. Leves recaídas de curta duração e fáceis de se superar.
O tempo passou com Marli, sempre se tratando da depressão, se recuperando continuamente. Voltou a estudar e completou o segundo grau. Passou a ter autorização para saídas temporárias, aos finais de semana para passar com os pais. Por muitos meses, sem ter nenhuma lembrança das drogas. Ela telefonou, certo dia, para o Dr. Bernardo e pediu que ele a visitasse. Ela não queria vir a Santos com medo de encontrar seus antigos companheiros de drogas. O médico concordou e foi passar um fim de semana com ela e os pais dela em Santa Catarina. Ele aceitou e, sexta-feira à noite, se encontraram no Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis. Marli estava com Valter, seu pai e, Pedrinho seu irmão. Todos ficaram muito felizes em se encontrarem. Dirigiram-se para o estacionamento, pegaram o carro de Valter e, alguns minutos depois, estavam em casa.
Conversaram muito e, com muita alegria, Dr. Bernardo sentiu que Marli estava muito bem. Recuperada, sem nenhum sinal de depressão e muito animada com o vestibular que prestaria naquele ano. Queria ser professora e, confessou que, em sala de aula, teria a oportunidade de ensinar a crianças e jovens, pré-adolescentes e adolescentes, o caminho para se desviar do risco de drogas.
__Dr. Bernardo, desculpa-me a minha idiotice de, na primeira vez que nos vimos, eu pedir um remédio para me matar. Obrigada por ter me ajudado a sair dos caminhos das drogas. Perdão por eu ter abandonado o seu remédio e tentado me esconder em entorpecentes. Obrigada por ter atendido o meu chamado e ter ido até o Hospital em Bogotá, na Colômbia, onde eu fui salva da morte naquela UTI abençoada.
__Não tem que me agradecer. Estou muito feliz em ver você assim tão bem. Você voltou a ser aquela garota linda, de olhos lindos que esteve em meu consultório, chorando desesperadamente por não saber onde se encontrar e, por isso, querendo morrer.
__ Então, meu amigo, vá se banhar e se trocar que uma janta gostosa espera por nós.
__Sim, sim. Com licença, estou mesmo com fome.
Durante o jantar, Dr. Bernardo foi comunicado que no dia seguinte, sábado, iriam para um sítio de um casal amigo que conhecera em Florianópolis e, lá passariam o fim de semana. Este casal de amigos tinha este sítio em uma serra catarinense para alugar para turistas. Eles lhe emprestaram o sítio para passarem o fim de semana, depois que ficaram sabendo que o médico salvador de Marli os visitaria.
Dr. Bernardo gostou de passear em um sítio, pois, embora gostasse muito da natureza, não tinha este hábito de com ela conviver. Marli disse, depois do jantar:
__Vamos passear em um shopping, tomar um sorvete, ver lojas e gente bonita?
__Boa ideia. Assim tenho a oportunidade ficar mais tempo com vocês nesta noite linda e, conhecer mais um pouco de Florianópolis.
Pedrinho disse que não iria com eles, pois, a sua namorada o estava esperando. O senhor Valter, por sua vez, também se desculpou alegando que iria se dedicar aos preparativos para o dia seguinte, quando iriam para o sítio na serra. Dr. Bernardo concordou com os dois e quis convencer Marli a desistir de sair e, ajudarem na arrumação para o dia seguinte, mas, Valter os convenceu a saírem sim e, aproveitarem bem o passeio. Então, despedindo, o casal, com Marli dirigindo, partiu em direção ao shopping. Depois de algum tempo em silencio, Dr. Bernardo falou primeiro.
__Marli, você se lembra de um dia que eu disse ao seu pai que você voltaria a se sentir linda, depois da continuidade do tratamento da depressão? Eu estou estarrecido de tanta beleza. Você é linda, toda linda, seus olhos são apaixonantes, seu corpo uma tentação em movimento, seu sorriso encanta com seus grandes lábios vermelhos a moldurarem bem desenhados dentes brancos. Você já se consegue se ver assim.
__Dr. Bernardo, desde o primeiro dia em que eu vi você, em seu consultório, onde você me atendeu gratuitamente, me negou a prescrição de um medicamento para eu me matar, arrastou a sua cadeira para trás, cruzou os braços e, apenas observando em silêncio, me deixou chorar por muito tempo e, depois me convenceu a tentar tratar a depressão, novamente, com um medicamento novo, que eu não consigo deixar de pensar em você. Nas várias vezes em que tivemos a oportunidade de nos ver depois daquele dia, eu ensaiava falar e não tinha coragem, pois, eu me colocava muito inferior a você. Depois, com o envolvimento com as drogas, é que não teria mesmo coragem de falar. Eu amo você Dr. Bernardo. O que me importava eu ser linda se eu não podia merecer um amor que apareceu repentinamente em minha vida? O que me importava eu ser linda se nem coragem de me declarar eu tinha. Eu amo você, Dr. Bernardo!
__Marli, minha menina. Por que você acha que eu me interessei tanto pelo seu tratamento? Desde o primeiro dia que a vi eu também me apaixonei por você, mas, como profissional eu não poderia falar e, esperando a sua melhora para eu me declarar, você desapareceu por quatro anos. Eu não sabia se você estava viva ou morta. Eu, seu pai e seu irmão não deixamos de tentar saber de seu paradeiro em nenhum dia. Eu sofri muito neste período. Fiquei muito feliz quando você apareceu, mas, eu preferi não me declarar, pois, tinha medo de você não pensar igual a mim. Eu amo você, Marli.
Neste momento já estavam no estacionamento do Shopping e, lágrimas silenciosas corriam dos lindos olhos de Marli e, Dr. Bernardo a envolveu em um delicado abraço e a beijou com toda a paixão que ambos guardaram por quatro anos. Durante anos, ambos guardaram no peito, um amor, um engasgo de dor por não sentirem a possibilidade de concretizarem aquele amor e, uma lembrança de um olhar, que, mais parecia um caminho pelo qual deveriam caminhar, por todos os tempos, unidos como se fossem um corpo só, em uma só direção de ida, sem volta! Dr. Bernardo lhe ofereceu seu lenço para que, ela secasse as suas lágrimas. Por algum tempo, permaneceram em silêncio, como envergonhados de uma decisão que poderia ter sido precipitada, porém, a verdade lhes mostrou que era o que realmente sentiam e, novamente, se abraçaram e se beijaram, ainda com mais paixão, um mais longo e envolvente beijo de amor.
Saíram do carro em silêncio, cada um, em trocas apaixonantes de olhares, desejando que aquele amor fosse realmente eterno e, que, juntos, seguissem o mesmo destino.
Subiram pela escada rolante. Abraçados, Marli, com a cabeça recostada em seu peito e, não querendo apenas estar em um sonho, ambos se imaginavam estar viajando para um mundo só seu, um mundo onde só existia um revezamento contínuo entre um lindo sol durante o dia e, um lindo, estrelado e romântico céu à noite e, com sol ou estrelas vivessem anestesiados pelo amor de tanta felicidade.
Depois de um belo passeio pelo shopping, voltaram para a casa de Marli, pensando no passeio pelo sítio da montanha no dia seguinte. Resolveram, em comum acordo, não revelarem ainda, o romance que os transformava no melhor que queriam ser, para sr. Valter e Pedrinho.
Após tomarem um bom vinho, contarem apenas o que poderia ser contado sobre o passeio no shopping, jantaram uma gostosa janta que os esperava, conversaram animadamente sobre os últimos acontecimentos e, principalmente sobre o passeio do dia seguinte. Foram dormir.
Muito cedo, depois de um reforçado café da manhã, Valter ao volante, Dr. Bernardo sentado ao seu lado e, no banco traseiro, Marli e seu irmãozinho, que nada tinha de menininho, se apertavam de felicidades e, alegrias por estarem novamente juntos, partiram rumo à Serra de Urubici, onde passariam o fim de semana em um sítio, gentilmente emprestado por um vizinho amigo. Depois de um tempo de muitas conversas animadas, Dr. Bernardo e Marli, flertando pelo retrovisor, chegaram ao sitio onde passariam o sábado e o domingo. Desceram do carro e, após o conhecimento estratégico das proximidades e, principalmente da casa do sítio, retiraram a bagagem do carro. Escolheram seus quartos e ali deixaram seus pertences. Valter e Pedrinho ficaram em um só quarto porque assim o quiseram. Dr. Bernardo escolheu o seu e, Marli, um outro, bem longe do dele, pois queria se proteger e não correr o risco de ser traída pela paixão e pelo amor que só aumentava a cada troca de olhar.
Saíram em passeio pelas redondezas do sítio. Todos, não acostumados com a convivência de perto com a natureza, estavam alegres, encantados e muito felizes com a nova experiência. Saíram já orientados onde buscar os pontos turísticos mais visitados e os buscaram e neles sentiram a divina beleza do eterno... eterno se o ser humano não o transformasse, não o destruísse e não o contaminasse.
Muito já se passara do horário do almoço quando voltaram para a casa do sítio. Embora tivessem levado comida congelada e carne para um programado churrasco, dado o avançar das horas resolveram almoçar em um dos muitos hotéis turísticos ali próximos deles. E assim o fizeram.
Após o almoço, continuaram visitando, entusiasticamente, os pontos turísticos da região, que eram lindos e muitos, quase impossível de se conhecer em apenas um fim de semana. Chegaram na sede do sítio, ao anoitecer, extremamente cansados, conversaram alegres e felizes até muito tarde, cada um degustando a bebida de sua preferência e, ambos envolvidos em um disputado jogo de baralhos. Até que, muito cansados, se despediram e foram dormir.
Assim que se deitou, Pedrinho começou a gritar que sofrera o ataque de uma cobra que estava em sua cama e, com auxílio de um quadro decorativo que estava pendurado na parede, conseguiu matar o réptil. Todos correram ao seu socorro. Assim que chegou ao quarto que Pedrinho dividia com seu pai, Dr. Bernardo, ao ver a cobra morta, verificou que se tratava de uma Bothrops Jararaca e, que tinha em sua maleta de emergência, que nunca deixara para trás por onde quer que fosse, o soro antiofídico ante bothrops, específico contra o veneno da jararaca. Assim que, ainda em Santos, soube que passariam um fim de semana em uma floresta de uma serra catarinense, teve o cuidado de colocar em sua maleta de emergência, com o devido cuidado de conservação, soros específicos para os diversos repteis mais comuns naquela região, como também soros polivalentes. Naquele caso, como a víbora estava ali presente, morta e, confirmada ser uma Bothrops jararaca, Dr. Bernardo não perdeu tempo e começou a infundir o soro específico após teste alérgico. Imediatamente correram para o melhor hospital da região. Mesmo tenha tido o teste negativo, considerando que estavam longe do hospital, resolveu administrar potentes antialérgicos.
Marli e Valter choravam inconsoladamente. Finalmente chegaram ao hospital. Dr. Bernardo se identificou e explicou a sua conduta, inclusive a aplicação também de soro antitetânico ao seu colega. Ouviu de seu colega que tudo que tinha que ser feito fora feito e, que, naturalmente estava fora de risco. Não podia deixar de ser diferente, fez a internação de Pedrinho e começou uma dose plena de antibiótico, pois, a experiência mostrava a frequente formação de abscesso no local da picada. E, neste caso, mostra a literatura médica, o melhor antibiótico, o mais indicado, era o cloranfenicol e, assim o fizeram. Vendo que nenhuma complicação estava por acontecer, Valter e Marli se tranquilizaram.
Valter, agradecido, perguntou ao Dr. Bernardo:
__Meu caro Dr. Bernardo, quanto você tem ajudado a minha família! Como posso lhe pagar tudo isso? Existe alguma forma de eu lhe ser grato, de lhe pagar? Eu, sinceramente, não sei como fazê-lo. Você pode me auxiliar a sair deste dilema?
__Eu sei sim. Sempre soube e não tive coragem de enfrentar a verdade. Sempre fugi, em virtude das ocorrências... quero namorar a sua filha. Desde o primeiro dia em que eu a deixei chorar em meu consultório, eu nunca mais consegui tirá-la de meu pensamento. Eu amo Marli e quero me casar com ela...
__Ah! Doutor, ela é dona de si. Ela é quem decide isso.
Neste momento, com um largo sorriso, Marli beijou a face de seu pai e correu para os braços de Dr. Bernardo, dizendo:
__Papai, meu paizinho querido, eu quero sim ser namorada de Dr. Bernardo.
__Então, doutor, seja bem-vindo à nossa família. Sejam felizes por que estamos há vários anos sofrendo.
Aquele resto de noite de sábado e todo o domingo, ficaram com Pedrinho no hospital que reagiu muito bem à medicação. Reagiu bem porque foi medicado muito rapidamente com o soro antiofídico específico. Segunda feira pela manhã, recebeu alta e voltaram para o sítio apenas para pegarem as suas coisas e, com muito cuidado, verificaram em todos os recantos, malas e roupas, para não serem surpreendidos novamente por outro perigo. Voltaram para casa na cidade, Florianópolis. Valter foi procurar o casal de amigos que lhe emprestaram o sítio. Quando o casal ficou sabendo do ocorrido, se assustou, pois, havia décadas que frequentavam e alugavam o sítio e, que jamais imaginara que um fato, como tal, pudesse ocorrer. Conversando chegaram à conclusão que deveriam tomar mais cuidado e, alertar aos visitantes do risco da região. Na verdade, o que acontece, é que os humanos estão invadindo o território dos animais de um modo geral e, certamente, riscos como o ocorrido poderiam advir novamente.
Segunda-feira, Dr. Bernardo telefonou para a sua secretária e, depois de lhe explicar o ocorrido, pediu que suspendesse todos os seus compromissos pelo resto da semana, pois, ficaria acompanhando a evolução de Pedrinho. Todos os dias o levava para fazer exames de sangue em um laboratório para acompanhar todas as possíveis complicações que pudessem ocorrer. Felizmente, nada ocorreu de complicação, daí a necessidade de socorro rápido em quaisquer situações de emergência. O médico não saiu de perto de seu paciente, agora cunhado, Pedrinho. Já na quinta-feira, sentiu que o risco de qualquer complicação não mais existia, ele saiu com Marli, foram a uma joalheria comprar um par de alianças. Chegando em casa, ele pediu a seu Valter, agora oficialmente, a mão de sua filha em casamento e, colocaram as alianças em sua mão direita. E, já há alguns dias planejado, Dr. Bernardo quis, estranhamente, se casar no mesmo dia. Todos ficaram sem entender, mas, o médico era considerado um Deus para a família e, ninguém discutiu. Naquela mesma tarde foram a um cartório e, com a presença apenas de Valter, Pedrinho e, naturalmente, os noivos, trocaram as alianças para a mão esquerda. E, sabendo que Pedrinho estava fora de perigo, viajaram para uma curta lua de mel em uma sossegada praia de Santa Catarina, fora de Florianópolis. Ali se instalaram em um confortável hotel e, ao entrarem no quarto, com a porta fechando o mundo às suas costas, se beijaram apaixonadamente. Marli, que durante toda a sua vida, chorava sozinha, agora chorou de felicidade e se entregou e embarcou em uma caminhada por um  céu por ela sonhado e, nunca imaginado existir, andando pelo infinito, sem mistérios, pulando de estrela em estrela, abraçada apaixonadamente ao seu Deus. Carregada até a cama se entregou a uma verdadeira relação de paixão e sexo que ainda desconhecia e correspondeu ao seu amor com toda a força de sua inexperiência sexual. Depois dormiram por algum tempo, abraçadinhos e acordaram sonhando o mesmo sonho. Há pouco mais de quatro anos, já, sem se perceberem, quando se olharam pela primeira vez, ela chorando copiosamente, querendo um medicamento para se matar e, ele, a deixando falar enquanto se preparava para falar em ficar na vida... ali acabavam de acordar do sonho para a realidade de se viver e ser feliz. Resolveram tomar um banho rápido e descer para o restaurante, pois, estavam famintos. Ele a carregou para o banheiro e, de banho rápido não houve nada... escondidos deles mesmos pelo vapor do chuveiro, amaram-se com intensidade maior que poderiam imaginar possível.
Depois, cansados, gostosamente cansados e famintos, desceram para o restaurante. Enquanto Marli degustava um suco de frutas, Dr. Bernardo tomava o seu vinho tinto seco preferido esperando pelo cardápio daquela noite. Nosso médico foi surpreendido por uma pergunta pela qual já esperava, vinda de Marli:
__Meu amor, por que este casamento tão apressado?
__ Desculpa-me querida. Você sonhava em uma coisa programada, com uma grande festa? Ainda podemos fazê-la. Só nos casamos no civil e podemos fazer uma big festa religiosa, você quer?
__Não, não! Não quero festa. Fiquei muito feliz em ficar com você rapidamente, mas, só fiquei curiosa. Diga que você também queria ficar comigo o mais rápido possível.
_Também isso, meu amor. Mas eu não conseguiria ficar esperando o casamento para transar com você. E, fiquei muito impressionado que, você, envolvida e convivendo com bandidos e viciados em droga, não se entregou ao sexo e, em consequência, virou uma escrava dos viciados. Eu quis respeitar a sua posição e, por isso apressei o casamento. Agora, depois de muito sofrimento, resolvi, não só ficar perto de você, como também não deixar você longe de seu pai e de seu irmão. Vou trabalhar aqui em Florianópolis. Já fiz contato com alguns hospitais e colegas e fui muito bem recebido.
__Que bom meu amor. Seremos felizes. Contem comigo e, pode crer que eu jamais vou decepcionar vocês, jamais vou decepcionar ninguém, nem a mim mesmo.
Fale-me sobre a depressão. Eu necessito me defender e, não só me defender, mas, ajudar conhecidos e ou desconhecidos que por ventura possam aparecer.
__Minha querida Marli, como professora que quer ser, sem dúvida, você será muito útil na orientação de um número limitado de alunos a cada ano. Por que você não estuda medicina? Faça psiquiatria e, assim sim, poderá fazer palestras em instituições, colégios, casas de recuperação e, não tenha dúvidas, você será muito útil, muito mais útil.
A depressão, doença que atinge milhares de pacientes, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Não tem cura e, apenas controle. Este controle depende de um grande arsenal terapêutico e, não apenas destes medicamentos “chamados” pílulas da felicidade, mas, também das pessoas mais próximas, parentes, amigos e relacionados. O depressivo não necessita de uma bengala como dela dependem os cegos, mas, esta bengala tem que estar ao seu alcance para nela se escorar e não correr o risco de uma recaída que pode ser sem retorno e, mesmo, catastrófica.
Pais, irmãos, amigos e relacionados próximos fiquem atentos. Não pensem que possa ser apenas uma tristeza passageira, uma ansiedade exacerbada. Pode ser uma depressão grave de consequências imprevisíveis. O choro fácil, o isolamento, a falta de vontade de ajudar, a dificuldade de atenção, o desinteresse em se alimentar, em se higienizar e a necessidade de não conversar, devem ser levados em conta. Procurem um profissional, Psiquiatra e Psicóloga (o).
Comece a estudar medicina e, já agora, você pode se oferecer para palestras e orientações. Você tem o dom da fala, você tem a vontade de ajudar e, uma experiência perversa que estarei sempre presente para amenizar as doloridas lembranças. Você tem muito o que transmitir...
__Sim, sim, meu amor! Gostei, vou fazer medicina. Vou sim estudar medicina. Mas, não farei psiquiatria. Como médica generalista, certamente, terei a oportunidade de ajudar sem que o paciente pense estar louca, necessitada de um médico de “loucos”. Como generalista eu poderei sentir este mal em pessoas que dele sofrem e, sem que elas sintam, já estarão sendo tratadas, concorda?
Naquele dia, como era comum, Dr. Bernardo trabalhou muito e, ao seu lado, a jovem estudante de medicina, sua esposa Marli, o acompanhou em todos os procedimentos e demoradas visitas aos enfermos internados. Depois, cansados, antes de se dirigirem para a sua residência, saíram do hospital, caminharam pelo pátio colorido, atravessaram a movimentada avenida e, em um banco de um jardim que ficava do outro lado da alameda, sentaram-se para descansar e, conversar.
A noite os abraçava... o céu estava lindo com centenas de milhares de estrelas tentando clarear a escuridão da imensidade do infinito daquele manto abençoado. Dr. Bernardo, quase sem piscar, olhava profundamente dentro dos olhos de Marli. E ela questionou:
__Por que sempre o surpreendo admirando meus olhos, Bernardo?
__Na verdade, meu amor, não sei ao certo. Talvez por serem lindos, ou, por estimularem à necessidade de beijos... beijos estes que levam ao sexo. O melhor sexo que já experimentei, o seu sexo. Mas, você, meu bem, para mim não é apenas sexo e, sim, vida, uma vida que completa a minha vida!
__Esta nova existência, Bernardo, amor da minha vida, poderia ter começado em seu consultório, naquele dia em que eu fui buscar um medicamento para me matar, e, com sabedoria e maestria, você me convenceu a me dar mais uma chance. No entanto, eu me envolvi com drogas e desapareci por quatro anos. Novamente você me ofereceu a chance de recomeçar desde o dia que me retirou daquele hospital em um País desconhecido. Obrigado, meu amor. Tenho medo que os traficantes, com os quais me envolvi, nos encontre, nos persiga e nos maltrate.
__Não acredito, meu amor. Você estava em outro país, na Colômbia, em uma UTI de Bogotá. Saímos de lá e fomos para o estado de São Paulo, onde, lá sim, poderíamos correr o risco de encontrar, entre os usuários, alguém que conhecesse você. Mas, lá em Santos, ninguém sabe de nossa relação e, muito menos, aonde estamos morando. E, não se esqueça que por um bom período você ficou enclausurada, porque você quis, em um convento onde se afastou e se tratou de seus vícios. Não acredito que você possa ser encontrada. Vamos falar de coisas agradáveis, ou melhor, nada fale, apenas me beije.
E se beijaram longamente. A cada beijo, mais se sentiam próximos, mais se sentiam amantes e responsáveis um pelo outro. Voltaram para o hospital, pegaram o carro e voltaram para casa. Estavam no banho e ouviram o celular tocando na sala. Depois do banho, enquanto Marli lhe preparava a sua taça de vinho seco, Dr. Bernardo foi checar qual ligação ele perdera. Descobriu que era de seu colega da UTI de Bogotá. Refez a ligação.
__Boa noite colega, tudo bem? Você me ligou?
__Oh! Boa noite, meu amigo. Obrigado pela consideração. Obrigado pelo retorno da ligação.
__Não poderia ser diferente, não colega? Pelo tanto que você fez por Marli e, facilitando a parte burocrática, me permitiu trazê-la para terminar o tratamento em meu hospital. Depois de bem recuperada ela quis se enclausurar em um convento, onde, uma muito bem montada equipe de médicos psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, independente de noções religiosas, parecem fazer milagres com viciados e, com muito tempo e paciência, deixá-los libertos e, com a nossa Marli, até o momento pelo menos, tiveram sucesso. Ela está muito bem. Está estudando medicina, pretende fazer psiquiatria e, faz muitas palestras em colégios e entidades afins, se mostrando como exemplo do ruim e do bom que pode acontecer na vida de um usuário de drogas. Está muito feliz. E, para completar nós nos casamos. Estamos muito bem, muito felizes e, mais importante, longe de algum lugar onde possa ser reconhecida pelos seus comparsas do passado.
­­__Que bom, meu amigo. Fico feliz também. No entanto, meu cara, a gang dela sabe que ela não morreu. Depois de alguns dias da alta de Marli e da saída dela de nosso hospital, alguém quis saber dela na recepção do hospital. Obedecendo as regras do hospital, a recepcionista exigiu que ele se identificasse e ele se recusou. Ele se tornou agressivo e, como não foi obedecido, ele esfaqueou e matou a recepcionista. Foi preso em fragrante. Em juízo ele confessou ter sido o agressor de Marli. Está em juízo e recebemos uma intimação para depor e, neste depoimento, não tive como esconder como a nossa Marli saíra de nosso hospital. A delegada do caso quer ouvi-la. Não temos o endereço dela, digo, agora depois do casamento, o endereço de vocês. Ela não necessita vir aqui para depor, mas, a polícia brasileira já a está procurando e vai encontrá-la, tenha certeza. Ela poderá ser ouvida aí mesmo, mas, seu endereço não ficará oculto. Desculpa-me. Se eu fosse vocês, eu viria depor aqui e, juntamente com a delegada, discutir uma forma de estar sempre à disposição, com facilidade de comunicação, mas, ela vai entender, desejando não ser divulgado o seu endereço, a sua moradia.
__Você tem razão, meu amigo. Por favor, ligue para a delegada, marque a audiência e, se possível, já agradecer e dispensar a ajuda da polícia brasileira afim de não ficarmos expostos.
__Tudo certo, meu amigo. Me aguarde e já faço isso agora e lhe dou um retorno.  
Em poucos minutos recebeu um retorno de seu plano.
__Tudo certo meu amigo. Está marcada a audiência para amanhã no final da tarde. Ela, a delegada, já ligou para o Brasil, agradeceu a ajuda e afirmou que Marli já está aqui depondo. Tudo está de nosso lado. Venham logo.
__Vamos agora mesmo. Se não houver voos disponíveis, alugarei um taxi aéreo. Até amanhã meu amigo. Confirme com a delegada que estamos indo.
__Sim, sim... farei isso.
Por sorte, muita sorte, conseguiram duas passagens para a mesma noite e, não perderam tempo, voaram para Bogotá. No dia seguinte, ou melhor, na tarde seguinte, Marli estava à frente da delegada. Respondeu com muitos detalhes e, sem nada esconder, de toda a sua convivência com aquela gang de usuários. Por sorte dela, nenhum participante da gangue era traficante, apenas usuários e, muitos procurados e condenados por roubos e mortes. Sobre ela nada de grave, até porque pouquíssimas vezes ela aparecia já que se tornara uma escrava doméstica em troca apenas da sua necessidade de drogas das mais diversas espécies.
Ela e Dr. Bernardo se assustaram quando a delegada disse que ela deveria ver e reconhecer o seu agressor. Mas, ao vê-los assustados, sorrindo, a delegada os tranquilizou dizendo que ela o veria em meio a outros assassinos através de um vidro especial onde ela o veria, mas não seria vista. E assim foi. Em um setor fixamente preparado para estes reconhecimentos, ela e Dr. Bernardo ficaram observando, sem serem vistos, vários delinquentes que, do outro lado, algemados, sabendo que estavam sendo observados, mas sem saberem quem o estava fazendo, se expunham, em vários ângulos, às vezes parados e, em outras, andando. Quando terminou o desfile dos facínoras, do outro lado, Marli respondeu com voz firme e, sem deixar dúvidas ou questionamentos:
__Não entendi...
A delegada questionou o que ela não entendera...
__Meu agressor não estava ali...
E a delegada, com calma lhe afirmou. Ele estava ali sim. E mandou que refizesse o reconhecimento e, depois de um novo desfile dos assassinos Marli voltou a afirmar que nenhum deles era o seu agressor. Marli respondeu com firmeza inquestionável...
__Doutora, nunca vi nenhum deles. Como posso condenar um deles se nunca os vi?
__Mas, Marli, minha querida, ele confessou ter agredido você, ter esfaqueado você, por que? Será que ele está querendo proteger alguém, ou, ao contrário, você está querendo o proteger?
Nesta hora, até mesmo Dr. Bernardo concordou, em silêncio, com a delegada. Preferiu nada dizer para não ofender e, mais, não perder a confiança de sua amada Marli. Foram dispensados pela Delegada. No entanto ela os proibiu de saírem de Bogotá até a tarde do dia seguinte. Ela iria novamente interrogar o assassino da recepcionista do hospital e, convincentemente, confessor de ser o agressor de Marli. Mas ela nunca o tinha visto. Por que ele mentira se acusando? Ou seria ela que o estava protegendo?
Dr. Bernardo e Marli saíram em silêncio da delegacia. Ao descerem a escada do prédio de justiça, do outro lado da calçada, Marli viu o seu agressor e gritou para seu marido que chamasse a delegada. Não houve tempo, pois, o meliante atravessou a rua correndo e pulou sobre Marli tentando novamente esfaqueá-la.  Só que, não contava com a astúcia de Dr. Bernardo que, colocando um pé em sua frente, o fez cair antes alcançar Marli. O bandido se levantou e se envolveu com uma luta corporal com o marido de Marli, enquanto ela entrou correndo na delegacia e, aos gritos de socorro, dizia que seu verdadeiro agressor estava tentando matar o seu marido. Rapidamente uma equipe de policiais, e, também a delegada, saíram em socorro de Dr. Bernardo. O bandido conseguiu fugir, porém ficou bem identificado pelas câmeras da rua e da própria delegacia. Só então a delegada acreditou em Marli, no entanto, reforçou o que dissera anteriormente. Ela ouviria novamente o delinquente que mentirosamente confessara ter sido o agressor de Marli e, que, depois de novas conclusões, queria novamente ouvir a nossa linda Marli. O casal entendeu que estava correndo risco de vida, pois, assim que saíram da delegacia, ali estava o agressor de Marli, e, mais, preparado para atacá-la. Como ele soube e por que outro confessara o crime em seu lugar? Ficaram alertas e, assim que chegaram ao hotel, imediatamente, ligaram para Florianópolis, para Valter e Pedrinho, até segunda ordem, saírem de casa e ficassem em um hotel qualquer. Questionados responderam que estavam enganados e, não se sabe de que forma, estavam sendo vigiados. Deixaram o carro no hotel e, depois de ligarem, do telefone do hotel, para o médico que estava na UTI de Bogotá, com Marli, há quase cinco anos atrás, e perguntaram onde poderiam conversar. Por acaso ele estava de plantão e, depois de serem aceitos, deixaram o carro no hotel, saíram andando pelos arredores do hotel e, de taxi, foram até o Hospital, onde, na UTI, se encontraram com Dr. Maxel. Este era o nome de seu colega que passou a fazer parte de sua história. Contaram a ele o ocorrido e, que não poderiam ficar no mesmo hotel que estavam. Simplesmente saíram, deixaram as suas coisas, até o carro alugado e as chaves do quarto para ficar subentendido que voltariam. Dr. Bernardo fora lá pedir ao seu colega que alugasse para eles um novo hotel, sem que os nomes deles aparecessem. Dr. Maxuel ficou surpreso com os acontecimentos. Parecia um filme. Depois de pensar um pouco respondeu.
__Fiquem em meu apartamento. Levem a minha chave, e, antes de irem para lá, tirem uma cópia da chave, tragam para mim. Depois, fiquem à vontade. Nada peguem no hotel. Passem em algum shopping e comprem apenas pijamas e, no máximo, uma ou duas mudas de roupa. Nos encontramos novamente à noite assim que terminar o meu plantão. Evitem ficarem expostos nas ruas.
Assim, Dr. Bernardo e Marli o fizeram. Primeiro fizeram a cópia das chaves e voltaram ao Hospital e entregaram a original para o Dr. Maxuel. Depois foram a um Shopping próximo, novamente de taxi para ficarem o menos possível expostos na rua. Lá, conforme programado, compraram pijama e duas mudas de roupa, incluindo, meias, chinelos e material de higiene. Estavam com fome, jantaram e resolveram voltar rápido para o apartamento do Dr. Maxuel, que, neste momento, já teria voltado do plantão. Pegaram um taxi e, no trajeto até o endereço que deram ao motorista, o taxista lhes perguntou:
__Vocês eram conhecidos do médico, morador deste prédio e que foi assassinado agora a pouco?
__Não estamos sabendo de nenhum assassinato. Qual era o  nome do médico?
__Ouvi no rádio agora há poucos minutos. O nome dele era famoso. Dr. Maxuel. Ao chegar em casa, segundo a reportagem, haviam invadido o seu apartamento e, assim que chegou, foi morto. Quem o matou fugiu. A perícia da polícia civil está lá neste momento.
Assim que chegaram ao endereço indicado, o taxista disse que acabaram de chegar. Teve que parar mais à frente, pois, o movimento de viaturas policias ocupavam boa parte daquele trecho de rua. Dr. Bernardo pagou a corrida do taxi, e, assustados e com medo e a certeza de estarem sendo observados muito de perto, não pararam e nem voltaram para o apartamento de Dr. Maxuel. Logo à frente, Marli viu um motel e puxou o seu marido e, mesmo a pé, entraram e pediram um apartamento. Tiveram o cuidado de olhar em volta e, parecia tudo normal. Ao entrarem no apartamento do motel, tiveram o cuidado de fecharem bem a porta e, arrastarem móveis e os recostarem de forma a segurar a maçaneta. Estavam assustados. Parecia que viviam um pesadelo.
Marli chorou muito relembrando quantas mortes aconteceram por sua causa: seu irmão Cícero e, de tristeza, a sua mãe, a recepcionista do hospital que se recusou a dar informações sobre a sua saída do hospital e, agora, o médico que a salvara da morte certa na UTI.  Dr. Bernardo a abraçou com carinho. Depois tomaram um merecido banho e foram dormir. Cansados dormiram até tarde no outro dia. Acordaram com o telefone da delegada. Desconfiado, Dr. Bernardo não atendeu se protegendo de qualquer possiblidade de rastreamento e localização. Acordou Marli, tomaram um banho e pediram à recepcionista que chamasse um taxi. Foram direto para a delegacia. Foram liberados pois, o comparsa de seu agressor não pode ser novamente interrogado, pois, fora encontrado morto na sua cela.  Dr. Bernardo se assustou quando a delegada lhe perguntou por que ele ficara com medo de dormir no Hotel e foi pedir a chave do apartamento do médico morto e, por que, embora tivesse tido a permissão para ir dormir lá, não foi. Dr. Bernardo sentiu que a própria delegada estava metida neste rastreamento. Em vez de responder, buscou o número no celular e, na frente dela e em alto e bom som, ligou para a embaixada do Brasil em Bogotá, contou tudo o que estava acontecendo, disse que estava com medo de ser assassinado e pediu se um carro da embaixada o pudesse pegar, juntamente com a sua esposa, ali naquele distrito policial e os levasse para a embaixada. Da embaixada pediram nomes, números de documentos e do hotel que estavam hospedados que fariam uma checagem e lhe dariam um retorno em poucos minutos. E, realmente, poucos minutos depois ligaram da embaixada afirmando que um carro oficial os buscaria e, que não saíssem de dentro da delegacia. Os agentes os pegariam lá. A delegada insistiu que mandaria uma viatura policial levá-los, mas, Dr. Bernardo não aceitou. Em pouco tempo três agentes policiais entraram e se identificaram com a delegada. Dr. Bernardo se apresentou e, depois de confirmarem os documentos pessoais, saíram da delegacia. Quando se preparavam para entrar no carro agressor de Marli voltou a atacar, agora com uma arma de fogo, mas, errou o tiro e foi morto pelo agente da embaixada. Um dos agentes levou o casal para a embaixada e, os outros dois ficaram e informaram à delegada que registrasse o ocorrido, mas, o caso seria investigado pelos peritos da embaixada. Pegaram, envolvida em um saco plástico, para manter as impressões digitais, a arma do crime. Em poucos minutos peritos da embaixada estavam fazendo coletas de dados. A delegada insistiu em ficar com a arma e eles não deixaram. Agentes da embaixada os levaram até o hotel onde fecharam a conta e pegaram os seus pertences. Ficaram sabendo que um funcionário do hotel fora morto no dia anterior por alguém que queria a chave do quarto deles e, como foi negado, foi assassinado. Dali foram levados para o aeroporto onde um jatinho alugado já os esperava. Durante as investigações descobriu-se que a arma estava registrada em nome da delegada. Dr. Bernardo estava certo, a delegada estava envolvida no tráfico de drogas e, Marli, era um arquivo que deveria ser morta.
Quando o nome da delegada apareceu no noticiário policial ela foi morta ao chegar no trabalho no mesmo dia. No mundo do tráfico de drogas é assim. Todos têm que serem anônimos ou mortos.
Dr. Bernardo, Marli, Valter e Pedrinho sentiram que tinham que mudarem novamente de cidade e o fizeram. Foram morar em Santa Maria, no Rio Grande do Sul e, também trocaram os números de seus telefones. Lá Marli terminou seu curso de medicina e fez pós-graduação em Psiquiatria. Pedrinho se formou em advocacia fez concurso e se tornou delegado. Marli, por sua vez, fez várias atualizações de como abordar e, como conduzir para um caminho diferente, um usuário de drogas. Dedicou-se a estudar continuamente e a programar e fazer palestras, não só em instituições especializadas neste tipo de tratamento, mas também em escolas infantis, pré-escolas numa enorme esperança preventiva. Também reunia, conversava e orientava a melhor conduta que se deveria tomar com parentes de pacientes depressivos e ansiosos. 
Naquela noite, após o trabalho duro no hospital, Dr. Bernardo convidou Marli para um passeio pela cidade. Ainda não conheciam muito bem Santa Maria e, de carro, para um passeio rápido. Aproveitaram para falarem de assuntos normais de um casal, diferentes de assuntos médicos. O lindo e estrelado céu que os cobria contribuía para os romantismos que, em nenhum momento, abandonaram moradia em seus corações. Pararam em um shopping. Estava frio. Caminharam abraçadinhos, sem compromisso, às vezes tendo a atenção desviada por um ou outro artigo de uma loja qualquer, porém, sem deixarem esfriar o calor que os unia e os protegia das inseguranças, das indiferenças e maldades do mundo pelo qual caminhavam. Mas, não estavam satisfeitos com a troca de cidades. Ali mesmo, sem dúvidas e sem medos de arrependimentos, decidiram voltar para Florianópolis. Foram muito bem recebidos em Santa Maria, mas, um vazio desconfortável em seus peitos, os impulsionava a votar para a capital catarinense.
Sentaram-se ao redor de uma mesa na praça de alimentação que, como sempre, estava cheia, principalmente de jovens, pois se trata de uma cidade universitária. Escolheram um prato para degustarem e, não poderia ser diferente, ambos solicitaram também o seu vinho preferido. Comeram, beberam e conversaram animadamente, como dois namorados, como já há muito necessitavam e desejavam. Salão, digo, a praça de alimentação estava cheia. Todos comiam e conversavam animadamente, mas, apenas conversavam e comiam. Músicas românticas, não muito altas, completavam o romantismo brilhante daquela juventude que, ao seu modo, carregava desejos e sonhos desiguais, diferentes. Mas, certamente com a mesma intensidade e necessidade imperiosa de realização. Levantando-se lentamente, olhando fixamente nos olhos de Marli, pegando as suas mãos sofridas, a convidou para dançar. Marli inicialmente pareceu evitar por não estarem em um salão de danças, mas não resistiu à beleza do lugar, à leveza de seu par, ao romantismo da música e, em poucos segundos pareceu estar sozinha com seu amado e, ao seu lado, nada, nada mesmo enxergava. Repentinamente, lentamente, mas, progressivamente, um a um, outros casais tomaram a mesma iniciativa.
Apertadinhos, sem se falarem, embalados pela melodia, pareciam se embarcarem em um voo solitário por um infinito parecido interminável, iluminado por belas estrelas que, indiferentes, refletiam sobre seus planetas as luzes que deveriam refletir e, romanticamente, os convidava a não terminarem tão cedo aquela noite. Dali saíram e pararam em um moderno motel pelo caminho. Amaram-se como se fosse a última ou, como se fosse a primeira que apenas continuava, que nunca parara. Dormiram agarradinhos. Acordaram e saíram correndo para os seus compromissos, ele no hospital e ela em uma programada palestra em uma clínica onde se propunha “curar” viciados em diversos tipos de drogas.  Já chegaram comunicando a sua decisão de voltarem para Florianópolis. Inicialmente tentaram convencê-los do contrário, mas, depois concordaram e deram todo o apoio para facilitarem a sua volta.
Durante a palestra Dra. Marli sentiu muita resistência, partindo principalmente de ex-usuários que pareciam se portarem como líderes descontentes de estarem ali. Pacientemente e, não poderia ser diferente, ela os deixou falar sem os interromper. Alegavam eles que ali estavam em uso de outras drogas que os dopavam, que os faziam dormir horas e horas, mas, que ao se despertarem já o faziam lembrando e querendo a “droga” que usavam lá fora e, mais, que não importava o tempo que ali ficassem, sairiam buscando avidamente o que usavam antes. Alegavam que, tanto amigos como também parentes, os continuariam vendo como um caso perdido, como um viciado apenas temporariamente afastado do vício maldito. E disse mais, se ali permanecessem despertos, sem sedativos, ninguém conseguiria ali permanecer. Dra. Marli apenas ouviu. Ela seria um bom exemplo a ser dado, mas, o medo de ser encontrada não a deixava se revelar. Apenas ouvia e aconselhava afirmando ser drogas diferentes, mais suaves, menos agressivas e, que, pouco a pouco teriam as suas dosagens reduzidas, “desmamadas” e, sempre em um tempo pré-programado, que lhes permitia raciocinar e ter tempo para repensarem uma nova modelagem de vida. Continuou Dra. Marli:
__Eu concordo com a sua colocação. Estamos sim, usando outras drogas, acorrentando vocês longe de seus vícios usuais. Mas, digamos que você não estivesse aqui e, sim, descontroladamente, em continuidade ao uso, no seu caso, da cocaína. Você não teria nem um momento de lucidez para reprogramar a sua vida...
       Não me conformo em ficar aqui preso, enclausurado neste local que vocês teimam em chamar de “clínica de recuperação” e, que para mim, não passa de um presídio onde vocês nos dopam o dia inteiro com outros tipos de drogas e, quando acordamos, estamos ávidos para correr em direção às drogas que usávamos antes. Apenas não o fazemos porque aqui estamos cercados e vigiados. Com todo respeito, Dra. Marli, você acha que vale a pena nos prender aqui e depois nos liberar para começarmos tudo de novo? Sinceramente eu gostaria de receber alta e, caso não me deem o direito de sair, vou chamar a polícia e fazer uma ocorrência por estar sendo mantido sob cárcere privado. Marli respondeu.
                __Jeferson, amigo...
                __Não sou seu amigo, não estou aqui porque quero e quero sair imediatamente...
                __Ninguém o trouxe à força. A porta está aberta e ninguém o impedirá de sair a não ser você mesmo. Todos que aqui estão, aqui vieram para se tratarem de ansiedade e depressão. Essas patologias têm controle quando o paciente toma regularmente a medicação e, embora orientados pelos seus médicos que estas medicações demoram dias, semanas e, às vezes, meses para fazerem um efeito satisfatório, enquanto esperam, não conseguem se livrarem de críticas, insinuações e deboches de amigos, colegas de escola e ou trabalho, como também, lamentavelmente, até de parentes bem próximos. Aqui ficam protegidos e só saem quando já estão seguras que, com o uso da medicação continuamente, serão donos e donas de suas verdades e, não mais se importarão com opiniões adversas. A grande maioria destes pacientes, Jeferson, veio antes que a depressão e o desconforto de inexistir prazerosamente, os levassem por caminhos adversos, como foi o seu caso, as drogas ilícitas. Aqui, enquanto navegam na esperança de recuperação, você não, é levado a criticar. Eles são sempre ouvidos e incentivados, sem conselhos, mas, apenas dando a vocês a oportunidades de se enxergarem em um lugar melhor para vocês e, mais importante, a que horas caminharem sozinhos para estes lugares. No seu caso específico, Jeferson, você acabou de confessar que seria trocar uma droga por outra. Enumeremos a diferença:
1.    Aqui você tem alimentação balanceada na hora certa sem pagar por ela um dinheiro que, infelizmente, você não tem.
2.    Aqui, Jeferson, você tem muitos iguais a você que estão buscando a cura, enquanto, lá fora, outros o abordarão para mais se intoxicar em produtos que matam progressivamente.
3.    Aqui você estará sempre limpo e perfumado e com uma proteção constante contra as intempéries da vida. Uma cama para dormir, amigos para conversar. E, sonhos passiveis de serem realizados.
4.    Pedimos que tenha paciência e, assim que o estado de extrema depressão que o levou às “drogas que matam” for melhorando, não tenha dúvida que seu raciocínio voltará a comandar a sua mente. Quando isto acontecer você não mais se recusará a aprender uma das diversas profissões de autônomos que temos para oferecer. Você não poderá deixar de usar as drogas que damos aqui para que não corra o risco de voltar a sua depressão. Quando você estiver bem seguro da sua vontade e bem seguro da profissão que escolheu, nós o deixaremos sair para o trabalho e voltar aqui para se alimentar, se banhar, tomar a sua medicação, dormir e, no outro dia sair novamente para o trabalho. Só o libertaremos definitivamente quando você chegar à conclusão que está livre para caminhar com as próprias pernas e, estará de volta mensalmente para as consultas médicas e psicológicas e, fora destas, para nos ajudar como voluntário.
5.    Como vê, não necessita boletim de cárcere privado. A porta está aberta e você pode sair, se quiser. Porém, observe em sua volta trabalhadores que aqui aprenderam gratuitamente uma profissão, estão com trabalho e famílias constituídas e, sabendo que necessitamos muito, aqui estão como voluntários...
Jeferson se afastou chorando... alguns voluntários e outros funcionários o acompanharam.
             Dra. Marli retornou à sua atividade. Sabia ela que aquela conversação servira para todos os usuários de drogas ilícitas, que não eram muitos, que ali estavam. A Clínica se propunha a tratamento de pacientes ansiosos incontroláveis e, principalmente, depressivos graves desesperados pelo comportamento inadequado de seus mais próximos, amigos ou não, colegas ou não e, o mais grave, de familiares.
Pacientes já viciados em outras drogas que lhes eram encaminhados, não poderiam e não deveriam ser rejeitados, no entanto já sabendo da maior dificuldade e de maior tempo de assistência necessária para controle das situações que os envolviam. Alguns usuários de drogas chegavam as vezes a se revoltarem mesmo, como acontecera com Jeferson, por terem que permanecerem mais tempo internados que alguns outros. Naturalmente o que realmente determinava o dia da alta seria a total recuperação física emocional e segurança no exercício da profissão ali aprendida. Mas, apesar das diversas discordâncias e, ao final do dia Marli se sentiu realizada. Sabia que escolhera uma missão difícil, mas a levaria bem até o final. Avisou que não mais continuaria a trabalhar ali. Explicou uma explicação qualquer para que não ficassem tristes e frustrados com a sua saída. Esforçou-se para não chorar. Despediu-se de cada um dos pacientes e, principalmente de seus colaboradores e conseguiu sair sorridente da clínica. Seu marido a esperava na saída. Elegantemente, sempre bem vestido, recostado no carro e, sempre com uma rosa na mão para ofertar à sua amada.
                Beijaram-se apaixonadamente. Não quiseram falar de trabalho. Falaram de si próprios. A cada dia se pareciam um mais lindo que o outro aos olhos de cada um. Ao se tocarem parecia que o mundo se desligava e, de minuto a minuto, mais e mais se amavam. Não entraram no carro e saíram andando por entre as árvores dos jardins do lindo hospital. Pareciam anestesiados de amor e, até sentiram um tapete de estrelas descendo dos céus, rodeando as árvores e os convidando a nele subirem. Carinhosamente envolvidos por aquela magia que só existia dentro deles, por ali ficaram por algum tempo e, sabendo da mudança para “Floripa”que os esperava no dia seguinte, despertaram para a realidade e seguiram para casa onde fizeram as malas e, muito cedo, pegaram um jatinho na Base Aérea de Santa Maria, ao lado da universidade onde Marli estudara e, felizes, partiram para a cidade que realmente já haviam adotados para si.
         Dr. Bernardo, ao chegar, não abandonou o seu hábito. Tomou sua taça de vinho. Por uns instantes ficou a observar a linda paisagem que, da janela, se perdia ao longe. Foi desperto por Marli que o chamou para o banho, pois já orientara a cozinheira para a mesa de jantar. E, novamente, não foi um banho curto. Amaram-se intensamente. Amaram-se como se fosse a última vez, como se nada além deles existisse no mundo. Depois, cansados, trocaram-se e foram para a cozinha onde uma gostosa janta os esperava. Combinaram para o dia seguinte, antes de irem para o trabalho, ainda de madrugadinha, darem uma volta em sua linda lancha. E assim o fizeram. Ainda não saíra o sol e já navegavam em direção às lindas praias do norte da ilha de Florianópolis. Repentinamente se viram perseguidos por uma lancha pirata. Dr. Bernardo empreendeu em uma fuga enquanto a sua esposa, Dra. Marli, pelo rádio, conseguiu chamar a patrulha marítima. Mas, antes de fugirem os piratas conseguiram atingir Dr. Bernardo, que, cambaleando pelo corredor da lancha acabou caindo no mar. Imediatamente, Marli, uma grande nadadora, mergulhou para salvá-lo, mas, não conseguiu vê-lo. Mergulhadores militares e muitos outros civis, por vários dias vasculharam toda a área e, em vão. Não conseguiram encontrá-lo. Mas, por sua conta, Dra. Marli não acreditou na esperança perdida a que o chefe do policiamento se referia. Continuou a busca por muitas semanas. Só acreditaria em sua morte quando visse e enterrasse o seu corpo.
         Muitas semanas se passaram e, certo dia, um turista lendo sobre a saga da médica, se lembrou que, naquela época, também como turista, andando pela vegetação praiana, mas no estado do Paraná, ele havia encontrado um jovem senhor caminhando perdido, sem saber quem era, sem documentos, desidratado, desnutrido. Tinha a camisa suja de sangue, um ferimento leve no couro cabeludo. Naquela época, deu-lhe o que comer, deu-lhe o que beber e o levou para um hospital público no litoral paranaense. Resolveu voltar lá e, sem nenhuma melhoria da mente, mas, já bem nutrido e hidratado, vestindo um pijama do hospital. Ainda no hospital procurou conversar com o diretor clinico sobre a incansável busca de uma médica de Florianópolis que sumira no mar e, cujo compro nunca fora encontrado. A reportagem, em um jornal, que o turista trazia nas mãos, mostrava a foto e o nome da médica, bem como telefones para possíveis contatos. Sem muito esperar o diretor do hospital entrou em contato com Dra. Marli, e mais, lhe mandou uma foto do paciente desmemoriado que há muito tempo fora levado para o seu hospital. A resposta de Marli, aos prantos, foi imediata. Era ele, seu marido, Dr. Bernardo. Contou ao seu colega que ele também era médico e, desde o acidente, há muitas semanas estava perdido. Avisou que estaria indo para lá imediatamente. E assim o fez.
Assim que ali chegou, em vão, tentou ser reconhecida por seu marido. Mostrou várias fotos, deles juntos, deles jovens, de seu casamento, da lancha e, nada, nada adiantava. Sabendo que ele era médico, resolveu a andar com ele pelo Pronto Socorro, pela UTI, pelo centro cirúrgico e pelas enfermarias, sem sucesso. Marli resolveu que o levaria para casa e, depois de provar com os documentos necessários, para a polícia e para a direção do hospital, o colocou em seu carro e voltaram para casa. Durante a viagem, mesmo Pedrinho e Valter, seu sogro, pareciam nada significar para ele. Ele os olhava com inexpressiva interrogação em seu semblante. Vários exames de última geração já tinham sido realizados sem anormalidades. Marli não se conformava. Cansados, depois do banho e jantarem foram dormir. Mas, um pequeno detalhe deixou Marli mais esperançosa, antes do banho, como sempre, ele não pegou sozinho como sempre o fazia, mas aceitou uma taça de vinho e, ela pode observar que ele degustava o vinho da mesma forma que fazia antes. Também no jantar, de propósito, fizera o bife muito bem passado e ele recusou, pois, gostava dele ao ponto. Alguma coisa estava aflorando. Continuou a testá-lo ligando o ar condicionado do quarto que ele odiava. E, durante um pesadelo, Dr. Bernardo acordou assustado e acordou Marli a chamando pelo nome. Ela acordou chorando de felicidade, abraçou fortemente seu marido enquanto gritava por seu pai e Pedrinho que, correndo entraram no quarto. Dr. Bernardo nada entendia. Levaram-no para a sala e, depois de muitas explicações, fotos e reportagens de buscas da época é que ele começou a se lembrar. Lembrou-se do ferimento de sua testa que fora de raspão. Confessou que perdera sim, de imediato, quem era ele, o que estava fazendo ali, mas, segundo descreveu, não desmaiou nem perdeu o sentido pela vida. Começou a nadar sem saber nem porque nem para onde. Lembrou-se que estava sendo levado por uma corrente marítima e, exausto, agarrou-se na vegetação que margeava o mar. Estava sujo de sangue, muito tonto e sem saber para onde ir. Refere que caminhou por dias e noites até que, exausto, adormeceu na relva. Acordou de verdade, agora, nada mais se lembrava desde o momento que desfaleceu. Levantou-se, foi para a janela observar novamente a linda paisagem da mágica Florianópolis, agora, noite ainda, coberta por um arredondado céu bordado de estrelas que parecia mais perto, que parecia mais lindo, parecia lhe mostrar e lhe dizer que estava realmente vivo. Abraçou fortemente a sua esposa, seu sogro e seu cunhado. Sentou-se e pediu outra taça de vinho. Demostrava claramente que queria comemorar a sua volta ao que ele realmente era. Ainda era muito cedo e todos voltaram a dormir, agora felizes com a normalização dos fatos.
Logo cedo Dra. Marli ligou para a polícia para informar do aparecimento de seu marido. Mas não foi boa a notícia que recebeu. Segundo as investigações não se tratava de um ataque pirata o que acontecera naquela manhã. Conseguiram identificar e prender o grupo da lancha que os atacara e, lamentavelmente, descobriram que o alvo era ela, Marli. Ela era um arquivo vivo que tinha que ser “queimado” e, que, naturalmente corria risco ainda. Aquele que deveria ser um dia de comemorações, tornou-se eu um dia de reflexões, de continuidade do medo e da insegurança. Passaram a enxergar inimigos em todos que estavam em sua volta. Enfim, de comum acordo, já que seu risco de vida se prendia ao medo que algum “cabeça” do tráfego fosse por ela denunciado que já que, parecia, ou pelo menos se comportavam como se ela os conhecesse a todos, tomaram, em conjunto, que, cuidadosamente, sem correr o risco de esquecer ninguém, que Marli fizesse uma lista completa com moradias esconderijos, rotas de fugas de todos os cabeças da quadrilha e que a entregasse às autoridades de luta contra narcóticos. Para funcionar, todos ao mesmo tempo, teriam que serem retirados de circulação. Procuraram se aconselharem com instituições federais e, um grande plano de busca e apreensões foi imediatamente colocado em prática. Todos foram detidos, alguns reagiram e foram mortos. Apenas um deles, depois de algumas horas depondo na delegacia, saiu calmamente, parou da calçada. Um carro preto o esperava. E, antes de entrar no carro olhando ao redor, verificou que Marli e seu marido estavam estacionados próximos do complexo penitenciário; caminhou até a janela do carro e, como fingindo, fosse um revolver, apontou o dedo no rosto de Marli. Ao se virar para pegar o carro que o esperava, uma moto, sem placas, se aproximou e o motoqueiro descarregou nele uma carga de vários tiros, todos no crâneo e, em um movimento quase imperceptível, desapareceu por entre os carros da avenida.
Neste momento, como um raio, Dr. Bernardo entrou no carro preto que esperava o traficante, com vários socos no motorista, o deixou bastante machucado no rosto, tomou o seu revolver e, o engatilhando para a cabeça do motorista, perguntou:
__Para onde ia levá-lo? Ainda existem outros chefes desta quadrilha?
__Não me mate por favor, sou apenas um motorista. Ele já sabia que não ficaria preso. Um jatinho o espera em uma pista clandestina em um sítio aqui perto com os outros últimos quatro chefes da gang de tráficos. Todos que são presos são mortos antes de serem interrogados. Este mesmo que acabou de sair e ser morto pelo motoqueiro, também seria morto quando chegasse ao jatinho. Todos que se tornam conhecidos se transformam em arquivos vivos e têm que ser eliminados. Este motoqueiro, mesmo, faz parte da gang e, certamente, também está condenado.
Neste momento alguém todo de preto e capacete, entra na parte traseira do carro, retira o capacete e, Dr. Bernardo se alivia do susto inicial. Tratava-se de Pedrinho.
__Pedrinho, meu cunhado, como você fez aquilo?
__Eu vim preparado para matar quaisquer deles que fossem libertados para parar a perseguição contra minha irmã.
E, dirigindo-se ao motorista, Dr. Bernardo ordenou que dirigisse a toda velocidade em direção do jatinho que os esperava na pista clandestina e, que por sinal, estava pronto para decolar.           Nocauteando o motorista, Dr. Bernardo acelerou o carro a toda velocidade em direção à frente do jatinho e, pulando do carro, assim como Pedrinho, antes colocou fogo no carro que já bateu no jatinho explodindo e, sem saberem o que fazer, todos morreram queimados. Sem dúvida, outras e outras gangs de tráficos apareceriam, mas, nenhuma delas com relação com Marli e poderiam viver tranquilos. Como se tratava de uma pista clandestina, nenhuma testemunha ali havia. Saíram da estrada e caminharam por entre a relva para não serem vistos. Muito tempo depois chegaram à praça da delegacia onde a multidão curiosa observava o trabalho da perícia. Assustada, recostada isoladamente em uma árvore, Dra. Marli apenas observava os acontecimentos como se o tempo houvesse parado. Ao ver Dr. Bernardo e Pedrinho, ela correu para eles e os abraçou, ainda com medo dos próximos acontecimentos. Sem levantarem suspeitas, caminharam para casa e, só quando lá chegaram é que contaram tudo para Dra. Marli e, ao seu pai, Valter.
         Pedrinho jamais sonhara algum dia ter que matar alguém. Dr. Bernardo viera ao mundo para salvar vidas e não para exterminá-las, mas, há muito não tinham paz e, a cada minuto de suas vidas, temiam perder Marli. Agora poderiam viver em paz.
         Não conseguiram dormir naquela noite. A sociedade, as autoridades e os demais grupos de narcotráficos continuavam sem saber e sem entender que foi o motoqueiro responsável pelo óbito do figurão do tráfico assassinado ao sair do depoimento e, muito menos pela explosão do jatinho onde tudo ficou carbonizado, pessoas e documentos. Pedrinho foi aprovado no concurso para delgado e, nomea, buscaram do para o departamento de narcóticos. Armou em Florianópolis o maior esquema antidrogas já visto no Brasil.
         Enquanto isso, extremamente abalados com os assassinatos que tiveram que fazer, mesmo que em legitima defesa, resolveram ficar longe do Brasil  por algum tempo e, com turistas comuns, embarcaram para um viagem para a Suissa.
         Escolheram Berna para repensarem e remodelarem seus pensamentos, seus sentimentos e seus remorsos. Lá chegando buscaram um bem localizado, mas, modesto hotel para concretizarem estas mudanças em suas vidas. Estavam cansados, famintos, com sono e, rapidamente, se banharam, se trocaram e desceram para o jantar que os esperava. Ente outros, por recomendação, escolheram Rosti, feito com batata, servido com espinafre, ovo frito, legumes mais um cozido de vitela com creme de champignon. Antes, porém, pediram um tempo ao garçom, pois, inicialmente, necessitava afogar as suas angústias, dúvidas e depressões em uma boa garrafa de vinho tinto.  Jantaram e voltaram para o quarto e foram dormir, apenas dormir, já que os fantasmas dos últimos acontecimentos ainda povoam a confusão de seus pensamentos. Impensados pesadelos povoaram seus sonos naquela noite, sempre alicerçados pelas mudanças de propósitos em suas vidas, a de salvadores de vidas a assassinos desesperados.
         Levantaram-se cedo, trocaram-se e desceram para o café. Estavam em silêncio. Não sabiam o que falar.
         Caminharam pensativos. Foram rezar na catedral de Berna. Estava frio. Os termômetros marcavam 8,8ºC. Ajoelharam-se e oraram, apenas balbuciando rezas tradicionais, pré ensinadas. Dra. Marli se sentia culpada, pois, tudo começou quando começou a usar drogas e a seguir uma gangue de usuários. Desde a sua entrada até a sua saída da gangue muitas mortes aconteceram por seu envolvimento e, pior, levou o seu irmão e o seu marido a se tornarem assassinos. Embora, seu irmão, Delegado Pedrinho,  tivesse o direito de matar para defender alguém, ele não o fez como tal e, sim, camuflado, vestido de negro em uma moto negra e sem placas, com a intensão de não envolver mais a sua família, porém, sabia ela, ele jamais imaginaria começar assim a sua carreira. Por outro lado, seu marido agiu rápido e inteligentemente, correndo o risco de morrer também, ao jogar o carro do bandido contra o jatinho com o resto da quadrilha que explodiu e matou todos carbonizados. Sem um risco de ser denunciado, pois, a única testemunha era a sua consciência. Mas estava muito abalado pois a sua missão era salvar e, não, matar. Felizmente este pesadelo acabou. Todos ligados à facção de usuários e traficantes estavam mortos. Agora era esquecer e viver a linda vida que poderiam ter.
         Mas imaginava que não seria tão fácil assim. Observou que Dr. Bernardo, orando baixando, tinha os olhos molhados de lágrimas. Muito tempo se passou para que, ajudado por ela, psiquiatra para começar a sair do estado de depressão em que foi lançado.... (CONTINUA)