sexta-feira, 5 de junho de 2015

DIA DOS NAMORADOS

Nascemos, crescemos e nos apaixonamos... É inevitável se apaixonar ao crescer... Às vezes nos apaixonamos mesmo antes de crescer... Atrevidamente alguém enfia a mão em nosso peito amolecido e arranca de lá nosso coração, crava-lhe uma flecha e o entrega a um anjo pequenino que o esconde na curva do infinito onde se amontoam as estrelas mais belas, onde só há sorrisos... No lugar fica um não sei o que... Um vazio gostoso de preencher ou uma transformação “no melhor que podemos ser” ... Isto é amor, isso é uma posse definitiva sempre adiada, sempre perseguida, insegura às vezes, odiada em vezes e em outras amada...
Venha minha eterna namorada, faz-me perder as rédeas de meu raciocínio cruzando o seu olhar com o meu, faz-me esquecer de mim e não parar de amar você... FELIZ DIA DOS NAMORADOS! ...




leia em meu livro...

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quinta-feira, 4 de junho de 2015

DIA DE CORPO DE DEUS...

CORPO e SANGUE de CRISTO (Corpus Christi) - Dia Santo de Guarda.  Eu giro a chave na fechadura DA PORTA DE MEU LAR e ouço o telefone fixo tocar... Eu me apreço a entrar e a atender... É minha amada cunhada Vânia Galdino Bastos (Este Bastos é por acaso, pois, com muito orgulho meu, ela é casada com um primo meu que eu muito admiro)... Em atendimento ao telefone:
            _ Alô!...
            _Tia Vânia da minha vida, bom começo de tarde...
            _Olá, Dr. Afrânio... Bom feriado para você, meu cunhado querido!
            _Feriado?!!! O que é isso?!!! Eu não sei o que é feriado... Em algum dia do passado, um anjo descuidado arrancou esta página de meu dicionário... Há décadas, são iguais, para mim, todos os dias do ano... Acabo de chegar do primeiro tempo de meu trabalho onde fui ver doentes meus internados em três hospitais de Santos... Vim almoçar... Vim comer a mais gostosa comida do mundo (eu não disse a melhor comida, eu disse a mais gostosa) Agora volto para o segundo tempo de trabalho...
            Parabéns a você que consegue fazer incríveis viagens de turismo nacional e ou internacional...
            Parabéns a você que tem dinheiro e tempo sobrando para fazer incríveis viagens nacionais e ou internacionais...
            Parabéns também a você que só tem condição de fazer viagens nacionais...
            Parabéns também a você que não tem condição de fazer viagens, nenhuma delas, nem mesmo a nacional...
            Parabéns a você que nem sabe o que é viagem e que, muitas vezes, não tem nem o que comer em sua dispensa... E, na maioria das vezes, nem mesmo dispensa tem para ficar vazia...
            Parabéns para mim e para todas as pessoas que, como eu, tendo ou não tendo dinheiro, não têm tempo para nenhuma viagem seja ela internacional, nacional, estadual ou, mesmo, municipal, pois alguém, de toda classe social, quaisquer delas, necessita de apoio médico simples, muito simples, mas honesto e grandemente eficaz, pois tem DEUS guiando nossa mão...

...BOM FERIADO PROLONGADO!





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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dia das mães... Que presente!

Dia das mães... Que presente!





Estava eu de plantão na emergência de um grande hospital em Volta Redonda no estado do Rio de Janeiro. Era domingo, dia das mães, exatamente dia 10 de maio de 1981. Era meu primeiro emprego como médico. Eu estava recém-chegado do curso de pós-graduação, entusiasmado e orgulhoso do que fazia, pois eu adorava trabalhar com pacientes de alto risco.   
Naquele dia, eu me encontrava meio triste, pois deixara minha esposa amada sozinha em casa com nosso primeiro filho, de sete meses de idade, em seu primeiro “2° domingo” de maio como mãe. Não sabia eu que estar fora de casa se repetiria muito em minha vida. De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de ambulância chegando e a voz suave da telefonista me anunciando no serviço de som do hospital.
Chegando lá, deparei com paciente em péssimo estado geral, caquético, desnutrido e desidratado, mal cheiroso e muito sujo... Sujo mesmo! Em um exame rápido, ele mostrava um contraste: suas roupas sujas e mal cheirosas eram de boa qualidade, não me parecia um mendigo qualquer. Não respondia a comandos verbais e apenas expressava mímica de sofrimento aos estímulos dolorosos. Hipotenso, com leve taquicardia, respirando bem e sem sinais neurológicos de localização.
Ao examiná-lo, sujei minha luva, esfignomanômetro e estetoscópio com a sujeira que saía de sua pele ao tocá-la. Barba grande, cabelos despenteados, aquele ser humano não me convenceu ser um mendigo.
Com a calma que sempre tive para atender meus doentes, ordenei que o levassem de maca para o chuveiro — sim, nos PS existem chuveiros espaçosos onde se consegue entrar com uma maca — e lhe dessem um bom banho. Feito isso, eu o submeti a vários exames laboratoriais e radiológicos e comecei a hidratá-lo. Entre um e outro atendimento eu ia vê-lo. Após algumas horas, ele estava desperto e já se alimentava com o auxílio de uma atendente de enfermagem. Estava lúcido, e após receber aquele lanche tentei, conversar com ele. A todo o momento ele pedia para ir embora.
Chegaram seus exames preliminares e pude ver que era mesmo uma desnutrição e desidratação simples e ele insistia, nervosamente, que o deixasse ir, pois não era doente. Fiz-lhe uma sedação leve e o coloquei para dormir enquanto corrigia seu desequilíbrio hidroeletrolítico.
Depois de algum tempo ele acordou. Eu estava examinando sua ficha. Tratava-se de JRP, 19 anos, branco e mais nada. Sentado, eu arrastei minha cadeira para longe da mesa e fiquei a observá-lo. Já estava ele em condição de responder. Antes que eu fizesse qualquer pergunta, eu observei que ele chorava. Então me aproximei, lenta e respeitosamente, e ele chorou mais ainda, copiosamente.
Passado aquele impulso de choro, sempre ao seu lado, até então em silêncio, dei-lhe papel toalha para secar suas lágrimas e perguntei secamente:
— Quem é você?
Contou-me longamente sua história. Era ele funcionário da Usina Nuclear de Angra dos Reis. Morava em um sítio com sua mãe viúva. Era solteiro e não tinha nenhum outro parente, só sua mãe. Há alguns meses, chegou em casa à noitinha, como sempre acontecia após a jornada de trabalho, e encontrou a casa fechada e sua mãe não estava. Esperou preocupado por algum tempo e ela não apareceu. Saiu para procurá-la e ninguém sabia de seu paradeiro. Os amigos o ajudaram e não encontraram resposta nem na polícia nem em hospitais da região de Angra dos Reis e nem no IML. Ele nunca mais deixou de procurá-la. Abandonou o emprego e a procurava a cada minuto de todos os dias sem sucesso. Sem emprego, sem dinheiro vasculhou toda a região, em vão.
Repetia ele que sua mãe era jovem, saudável e lúcida, honesta e jamais o abandonaria por nada.
Eu também era plantonista da UTI e me lembrei de uma paciente politraumatizada, que chegara sem identificação, trazida por um serviço de emergência de estradas que estava começando naquela época chamado “Anjos do Asfalto”. Ela ficara vários meses em coma em virtude de traumatismo de crânio, sob ventilação mecânica e em recuperação de várias fraturas. Estava já na enfermaria sem risco de morte, mas confusa e identificada apenas como “mulher branca de mais ou menos 40 anos”.
Eu não tinha certeza, mas algo me dizia que ele encontrara sua mãe. Ele estava enfraquecido, mas eu sentia que não conseguiria segurá-lo ali. Prometi a ele que o deixaria ir depois do soro.
Subi ao nono andar do hospital fui até a enfermaria onde estava a tal paciente, e, sem explicar nada e com auxílio da enfermeira, coloquei a paciente em uma cadeira de rodas e a levei até a emergência. Sem querer pensar nas consequências, eu a coloquei frente a frente com aquele rapaz. Ele não teve nenhuma dúvida. Levantou-se abruptamente derrubando o suporte de soro e abraçou aquela mulher louco de felicidade. Era sua mãe! E também era as gotas que faltavam para ela recuperar a memória. Deixei-os por algum momento em uma enfermaria separada, só os dois. Depois fui até eles para explicar o ocorrido para ele.
Ela tinha sido atropelada e abandonada na estrada Rio-Santos, próximo a Angra dos Reis. Como nós éramos a referência de emergência daquele trecho de estrada, ela foi levada, sem nenhum documento de identificação, para o nosso hospital. Mãe e filho acabaram de ganhar o melhor presente que eles nunca imaginaram ter que pedir.
Tirei duas conclusões desta história: Porque Ele realmente existe, Deus levou aquele filho a procurar sua mãe em outra cidade que nunca tinha ido, embora próxima à sua. E outra, nunca ande sem documentos e uma referência para contato, porque nunca sabemos o que pode nos acontecer.





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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Chorar faz bem para meu coração

Saímos cansados da enfermaria naquela tarde. Chovia muito. Descemos a escadaria do primeiro andar e, no saguão, uma garotinha de mais ou menos dez anos segurou-me pela mão e perguntou-me com voz firme:
— Doutor, é o senhor que está cuidando do paciente chamado Roberto Fissori?
— Sim meu bem, sou eu. — Disse-lhe eu. — Por que?
— Roberto Fissori é meu pai. Vínhamos de bicicleta eu, ele e minha mãe, quando um bandido tentou roubar a bicicleta de minha mãe, ela reagiu e foi morta… Meu pai se assustou e passou mal… O resgate o trouxe para cá. Como está ele?
Ajoelhei-me. Olhei dentro daqueles olhinhos tristes e ansiosos e tentei não deixar que uma lágrima atrevida me desarmasse diante daquele anjinho desprotegido… Aquelas mãozinhas trêmulas seguravam minhas mãos que pareceram querer fraquejar… Como dizer àquela criança que seu pai também acabara de falecer? Senti que Abigail afastou-se chorando…
—Você está sozinha meu bem? Tem alguém com você?
E, para tirá-la de meus olhos eu a abracei forte e desabei em um choro incontrolável. Funcionários e outras pessoas vieram em meu socorro e a tentaram tirar de mim e eu não permiti. Ela estava só. Respondeu-me que ali só moravam eles e que seus avós e tios moravam em Belo Horizonte, e ainda não sabiam de nada. Peguei-a no colo e a levei até o departamento de assistência social, que já estava tentando localizar os familiares de seu pai falecido, no qual sofreu um extenso infarto agudo do miocárdio e falecera também. Aquele anjo ficara órfã de mãe, covardemente baleada em um assalto e, também de pai, vítima de um infarto fulminante. Não poderia dizer isto a ela agora, longe de alguém de sua confiança; teria que enganá-la até que seus parentes chegassem.

Deixei-a aos cuidados de Marilene, uma exímia assistente social ativa há mais de trinta anos e eu mesmo liguei para Belo Horizonte e falei com alguém que se identificou como seu tio. Disse-me ele que viriam imediatamente. Marilene, a assistente social, assumiu o comando da situação, e saiu com a garotinha. Eu e Abigail saímos em direção ao estacionamento. Abigail chorava. Pediu-me desculpas por estar chorando.


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sábado, 23 de maio de 2015

BANDIDOS MIRINS






Bandidos mirins já existiam sim

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Meados da década de setenta. Estava eu de plantão no Pronto-Socorro Municipal de Juiz de Fora, MG, ainda como acadêmico de medicina. Fazia parte da grade curricular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal daquela cidade, onde estudávamos. Todas as atividades de prática acadêmica eram feitas em grupos de cinco alunos. O nosso grupo era muito dedicado e responsável. Estudávamos muito e sempre nos saíamos bem porque nós ajudávamos uns aos outros. Sempre chegávamos alegres e cheios de energia para encarar o plantão. E porque não se consegue ser útil sozinho, com simpatia, humildade e amizade, conquistávamos a todos os funcionários e conseguíamos exercer bem nosso aprendizado e nosso trabalho.
Não se iludam meus queridos leitores, quanto às histórias que conto aqui. Elas são iguais a quaisquer outras que acontecem a todo o momento, em todos os dias, em todos os hospitais e em todo o mundo. Sim, porque as doenças são as mesmas, os acidentes são os mesmos, os baleados e esfaqueados são os mesmos. Como também são iguais as tristezas dos acontecimentos, as dores, as mortes ou salvamentos que ali acontecem. E, mesmo eu, teria vários casos repetidos, semelhantes em meus 13.680 dias de hospital ATÉ HOJE...
Mas em todos estes 13.680 dias, em alguns deles, uns ou outros casos, por qualquer motivo ou emoção diferente me tocaram os sentimentos e eu não os esqueci. As demais ocorrências poderiam facilmente ser contadas por qualquer recepcionista de hospital ou sensacionalistas apresentadores de televisão. Estas histórias eu as conto para eu mesmo ouvir... Conto-as para meu coração... Conto-as para fantasiar “as minhas” saudades e driblar as “as minhas” emoções.  As rosas da mesma cor são todas iguais?... Claro que não... São dadas ou recebidas por motivos e emoções diferentes... São então diferentes... Assim são os meus contos.
Mal tínhamos chegado ao plantão e deu entrada uma paciente, JMS, 21 anos, vítima de acidente escorpiônico. Ela chorava de dor e exibia o escorpião que a vitimara. Era uma subespécie conhecida como Titius serrulatus. Sabíamos o que fazer, mas sempre seguíamos a orientação do professor de plantão. Enquanto o ouvíamos, fui chamado para uma saída de ambulância. Nestas saídas, por se tratar de um Hospital Escola, iam na ambulância um médico experiente e um acadêmico, e, como tal, fui eu. Era um chamado numa manhã de segunda-feira em uma escola famosa da cidade. No trajeto, pelo rádio da ambulância, ficamos sabendo do que se tratava. Uma criança de dez anos que estava desaparecida e fora encontrada em uma das dependências da escola. Ela teria ido para a escola na quarta-feira e não retornara para casa. Teria sido o último dia de aula antes de um feriado prolongado de quinta-feira. Era um menino. Estava desaparecido e sendo procurado pela família, amigos e polícia sem sucesso até aquele momento.
Foi encontrado fortemente amarrado e amordaçado. Estava naquela situação havia cinco para seis dias. Desfalecido, não atendia a comandos verbais, débil resposta a estímulos dolorosos, olhos encovados, turgor e elasticidades cutâneas diminuídas, mucosas secas, hipotenso, extremidades frias e cianóticas, pulsos distais quase imperceptíveis. Respirava mal. Importante bradicardia à ausculta cardíaca e, à ausculta pulmonar, roncos tubários davam indício de uma pneumonia iminente. Rapidamente instalamos uma máscara de Venturi com oxigênio a 50% enquanto uma solução glicofisiológica era infundida rapidamente em um acesso venoso periférico.
À medida que era oxigenado e hidratado começou a apresentar sinais de melhora. A frequência cardíaca se estabilizava e respirava melhor. Por entre alunos e funcionários curiosos, colocamos o garoto na ambulância e saímos a toda velocidade para o Hospital Escola. Encontrava-se extremamente mal cheiroso e sujo de fezes e urina que fizera na roupa naqueles dias. Apresentava várias feridas pelo corpo ocasionadas por mordidas de ratos e formigas. Tinha lesões graves em uma pálpebra, uma asa de narina destruída e perfurada do mesmo lado. A bolsa escrotal com uma ferida grande com comprometimento de um dos testículos. O quinto pododáctilo de um dos pés destruído além de múltiplas mordeduras por todo o corpo.
Já no hospital, enquanto se fazia uma boa correção hidroeletrolítica, foi levado ao centro cirúrgico para uma limpeza das feridas e iniciado um rigoroso tratamento medicamentoso. Alterações laboratoriais de ureia, creatinina, bilirrubinas e enzimas hepáticas mostravam preocupantes sinais de leptospirose — doença transmitida pela urina de ratos. O severo rebaixamento dos níveis de consciência certamente se devia à neuroglicopenia, ocasionada pela prolongada hipoglicemia que fora submetido por falta de alimentação. Aquele garoto tinha sido vítima de uma malvada brincadeira de invejosos coleguinhas da mesma classe. Pais, irmãos, avós e amigos choravam de dor, tristeza e revoltosa indignação em uma sala de espera do Hospital Escola. Bandidos mirins já existiam sim.
Fui correndo saber onde estava a garota que chegara picada por escorpião. Ao me dirigir para o quarto, encontrei no corredor a mãe desesperada que gritava que a filha estava piorando. E estava mesmo. Sudorética, cianótica, agitada, abundante secreção rósea de origem brônquica saindo pela cavidade oral e nasal. Taquicardíaca e hipotensa, estava fazendo edema agudo de pulmão.
A gritaria da mãe chamou a atenção da equipe de enfermagem que veio ao meu auxílio bem como meus colegas de plantão. Imediatamente, a entubei e a coloquei sob ventilação mecânica e começamos a medicá-la seguindo o protocolo. Fomos informados que o professor havia saído em outro chamado. Observando, o prontuário verifiquei que não havia sido feito soro antiescorpiônico. Perguntei por que e meus colegas responderam que o professor dissera que seria desnecessário, bastaria analgésico. Dissera, ainda, segundo meus colegas, que só em caso grave se faz o soro específico. Se não era um caso grave, passou a ser.
Prescrevi o soro antitetânico em dose plena e entreguei para a enfermeira aplicar. Ela me lembrou que eu era acadêmico ainda, não tinha CRM e ela não poderia fazer. Tínhamos que esperar o professor. Retruquei dizendo que não poderíamos estar ali sozinhos e, se estávamos, deveríamos também agir sozinhos e que o faríamos. Ela insistiu que não poderia nos obedecer, pois seria punida. Se naquela época existisse telefone celular, tudo seria diferente. Ameacei pegar a medicação e a enfermeira trancou a porta da farmácia com medo do que pudéssemos fazer.
Quando o mistério é muito grande a gente segue o instinto e o instinto sempre nos leva no caminho correto.
Quebramos a porta de vidro, pegamos o soro e nós mesmos o fizemos. Tive o cuidado também de aplicar um antialérgico potente já que não dava tempo de fazer um teste antialérgico. Enquanto isso, guardas universitários eram chamados, diretores do hospital resmungavam nos corredores, relatórios eram feitos e nós apenas observávamos a paciente melhorar lenta e progressivamente. E melhorou realmente. Algumas horas depois já respirava espontaneamente, sem respirador. Tivemos duas defesas ao nosso favor: primeiro, não poderíamos estar sozinhos no plantão; segundo, a paciente se salvou graças ao medicamento específico que fizemos.
A criança encontrada na escola ficou internada quase três meses. Durante este período, procedimentos corretivos eram aplicados, seguindo um rigoroso protocolo acadêmico. A leptospirose não foi confirmada e a pneumonia respondeu bem à antibióticoterapia instituída. O quinto pododáctilo de um dos pés — o esquerdo, se não me engano — teve que ser amputado. A bolsa escrotal respondeu bem à medicação. Perdeu um testículo, mas o outro funcionava normalmente. A equipe da cirurgia reparadora fez um ótimo trabalho na pálpebra e na asa perfurada do nariz. O dano psíquico, ocasionado pela humilhação, pelo abandono e pelo medo foi recuperado progressivamente com um bem trabalhado apoio psicológico. Várias marcas de mordedura demoraram a desaparecer na face e no corpo, mas o garoto sobreviveu e sobreviveu bem.
Se naquela época de respeito já existiam minibandidos, cuidado com seus filhos agora na escola! Naquela época, nós respeitávamos e obedecíamos nossos professores por medo. Hoje, minibandidos ameaçam e aterrorizam professores... Vão à escola apenas para as refeições que se tornaram obrigatórias. Nada aprendem, pois os professores não conseguem ensinar. Aí seu filho se destaca e vira alvo de inveja... Proteja-o.
O mais belo de quaisquer atividades profissionais é que a exerçamos com dedicação, com prazer, com profissionalismo e com respeito por aquele que necessita de nossos préstimos profissionais. Nestes meus sessenta e três anos de vida, quantos profissionais eu pude ver, deles às vezes humildes prestadores braçais, deles às vezes injustiçados e analfabetos serviçais ou, privilegiados protegidos da sorte. Seus trabalhos, seus serviços, suas qualidades ou seus defeitos, muitas vezes eu os pude ver e julgar. Você pode fazer com maestria qualquer trabalho, mas ele não terá valor se o desrespeito ao ser humano o acompanhar. Se você aprendeu ética social com seus pais, você será um respeitoso da vida. Caso contrário, nenhuma faculdade vai lhe dar este tesouro de conhecimento e você será um vivente irracional! Vivente sim, pois nem de animal merece ser chamado.
Nós, profissionais que lidamos com a vida e com a morte, temos de nos policiar para respeitarmos a morte. Ela não é bem-vinda e não podemos considerá-la natural, normal e inevitável. Temos que nos curvar diante da vitória da morte sobre a vida, temos que nos curvar diante da vitória do eterno sobre o efêmero, da fragilidade do homem e do mistério de Deus, mas temos que fazê-lo abraçando esta dor como se quiséssemos amenizá-la com carinho sincero e respeitoso consolo.

Desculpe-me, eu sou um ser humano comum. Eu não sou nenhum herói, nenhum exemplo a ser seguido. Sou eu apenas uma vida bem trabalhada pelos meus pais e que um dia serei uma morte também. E, sendo inevitável, em mim também, esta fragilidade humana, não tenham dúvidas: eu, quando morrer, continuarei vivo na lembrança de todos aqueles que me amam e, só morrerei de verdade quando todos aqueles que me amam morrerem também! Assim sendo, respeitando um ser morto estamos respeitando a sua vida nos corações de seus amantes.


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sábado, 16 de maio de 2015

Salvem meu coração

Uma criança em casa é uma dádiva divina e uma alegria imensurável. Entretanto, quando adoece, nos preocupa e entristece.
     Eu chegara do trabalho tarde da noite, como sempre, e recebi um telefonema avisando da morte de uma criança que eu estava acompanhando. Há mais ou menos trinta dias em meu consultório, eu terminara de atender a uma consulta. Enquanto caminhava para a porta de saída do consultório a paciente perguntou-me se realmente existia a chamada dor do crescimento. Completou dizendo que sua filha, que estava ali com ela, sentia uma dor na perna que nunca melhorava e que o pediatra afirmara que seria “dor do crescimento”. Segundo os pais, há muito, a garota reclamava de dor na perna direita. O pediatra não dera importância dizendo que passaria com o tempo. Eu não disse nada. Apenas ouvi e pedi à criança que voltasse e deitasse na maca. Que dor do crescimento? Não me lembro de ter estudado este capítulo na faculdade. Fisiologicamente o crescer não faz doer. Existem dores de diversas etiologias e, às vezes, não conseguimos achar uma causa. A maioria delas sem maior importância, sem maiores conseqüências e que desaparecem normalmente. A paciente, E.F.D., feminina, 11 anos aparentemente saudável referia dor contínua apontando o joelho direito. À ectoscopia a perna não tinha nada, mas à palpação notei uma discreta tumoração em 1/3 distal do fêmur direito embora ela referisse dor no joelho. Um exame simples e rápido, radiografia do fêmur, me deu idéia da patologia. A tomografia axial computadorizada nos aproximou do diagnóstico.
     Em seguida uma biópsia revelou a sentença de morte daquela criança. Era um câncer extremamente agressivo. Era um osteosarcoma. Exames posteriores mostraram metástases em outros ossos e em ápice de pulmão direito. Seus pais choraram inconsolados quando a equipe multidisciplinar que acompanhava o caso lhes passou que, além dos outros recursos terapêuticos, a perna da criança seria amputada. E foi. Todo recurso existente foi usado e a piora clinica daquele anjo foi inevitável e fulminante. A morte aconteceria brevemente. E aconteceu. E u sofro com a dor da família sempre que a morte acontece. Não tenho direito de ser frio e indiferente quando não consigo livrar o sofrimento de outrem.
     Como eu tenho dito ocasionalmente, ao confirmarmos um diagnóstico, algumas vezes, apenas damos a sentença de morte do paciente. E pensando nesta fatalidade eu adormeci entristecido. Há décadas meu relógio me desperta às 4 horas da madrugada. Não que eu goste de acordar cedo, mas porque tenho muito serviço e só assim eu consigo fazê-lo bem. Naquela madrugada de 31 de maio de 2009 eu acordara de uma forma diferente. Só alguns poucos minutos depois meu despertador tocou. Eu suava frio. Doía-me insuportavelmente o peito. Os batimentos cardíacos eram arrítmicos. Por alguns segundos eu tentei não acreditar… Mas tive que acreditar: eu estava sendo vítima de um Infarto Agudo do Miocárdio. Isto é gravíssimo… Centenas deles eu os atendi em minha vida em emergências médicas… Um bom atendimento faz a diferença entre a vida e a morte… Ainda não posso morrer… Não agora, pois minha missão não terminou ainda… Em meus sessenta anos de vida eu fiz muito por mim mesmo e muito mais ainda por meus pacientes, mas não fiz nada ainda pela minha família que eu tanto digo que amo. Comecei a memorizar os fenômenos e eventos anatomofisiológicos que desencadeiam uma patologia desta ordem… Enquanto toda a fisiopatologia de um infarto agudo do miocárdio passava em minha mente eu chamei a minha esposa, mas ela não acordou em um primeiro momento. Achei melhor assim; minha esposa é maravilhosa companheira, mas passara a noite inteira às voltas com minha netinha com vômitos e febre e estava exausta. Pedir socorro aos nossos vizinhos maravilhosos? Tão maravilhosos que iriam propor várias alternativas que certamente resolveriam o problema deles, não o meu. Resolvi ligar para o resgate enquanto me medicava em minha maleta de emergência. Eu queria ser levado para o Hospital Santa Clara da Beneficência Portuguesa de Santos. Eu sabia que o resgate não podia sair do município, São Vicente, onde moro. Estas duas cidades são juntas, não se separam. É como se fossem uma só cidade. Com o trânsito livre gasto vinte minutos do meu prédio até o Hospital Santa Clara.
     Eu não podia perder tempo. O infarto agudo do miocárdio mata na primeira hora se não for bem socorrido. Não perdi a calma. Em frente ao meu prédio toda noite fica uma viatura da polícia militar. Liguei e conversei com os policiais e também eles não podiam me levar para outro município, levariam sim para os hospitais de São Vicente. Eu não tinha muitas opções e pior, não tinha muito tempo para escolher uma delas. Chamei um taxi e a central falou em espera de 20 minutos. Eu estava mal, mas como estava acostumado a resolver os problemas de meus pacientes resolvi fazê-lo com o meu também. Peguei o carro, liguei o pisca alerta e saí em alta velocidade. Não parei em nenhum semáforo. Minha experiência me lembrava de que em uma emergência cardiológica pequenos detalhes podem significar viver ou morrer. Lembrava-me ainda, minha experiência, o grande número de péssimos profissionais existentes e o risco de se cair em mãos de um deles por isso eu escolhi um hospital que eu conhecia muito bem. Meu otimismo irresponsável me leva a encarar as mais diversas incertezas. O trânsito era muito tranqüilo naquela fria madrugada de maio e eu dirigia desrespeitando todas as regras de trânsito. Doía-me insuportavelmente a região retroesternal. O pulso era irregular. Eu suava frio. Tive medo de ter tomado a conduta errada. Enquanto dirigia tentei falar com algum médico da UtI e não consegui. Planejei que, ao chegar ao hospital, eu iria direto para a UTI para não correr o risco de ser atendido por um profissional inconseqüente que pudesse estar de plantão no Pronto Socorro do Hospital.
     Cheguei.
     A placa indicando EMERGÊNCIA (que eu conhecia muito bem) foi a mais linda visão que eu pudesse ter. Entrei apressadamente. Atravessei o lindo jardim do complexo hospitalar da Beneficência Portuguesa e quase invadi a portaria… Não consegui sair do carro… Perdi os sentidos! Acordei assim que me deitaram na maca… Certamente uma hipotensão arterial. Mas Deus estava novamente ao meu lado: coincidentemente estava na emergência um grande cirurgião cardíaco. Os funcionários avisaram a minha família. A dor continuava insuportável e não respondia à medicação. Perdi novamente a consciência e quando acordei já havia sido submetido a uma cineangiocoronariografia e a uma angioplastia com colocação de stent farmacológico. Deus deu-me a oportunidade de escolher onde ser atendido. Depois disso me deixei levar pela rotina hospitalar. Daí em diante me comportei como um paciente comum e o fiz muito bem. Permaneci na Unidade de Terapia Intensiva por vários dias, tantos quanto manda o protocolo. Mais alguns dias em um confortável apartamento hospitalar, sempre sendo corretamente tratado como um paciente comum. Recebi alta hospitalar e a perícia do INSS me concedeu um ano de dispensa médica. Também o seguro da Unimed me garantia meu salário integral por um ano. Eu poderia ficar afastado 12 meses e não consegui. Meu nome é trabalho. Com dois meses fui ao INSS e pedi alta. Pedi para voltar ao trabalho. Fiquei dois meses apenas parado. Não sentia nada. Deus me dava uma nova oportunidade e eu não a deixaria passar. Sei que não sou insubstituível… Sei que muitos poderiam fazer a minha função… Mas o meu amor pela minha missão me leva a fazê-la diferente… E sendo diferente eu seria mais útil… E sob protesto de minha amada família eu voltei ao trabalho. Aqueles dias foram bons para eu reconhecer meus amigos, meus verdadeiros amigos.
     Fiquei muito constrangido, pois o hospital proibiu minhas visitas alegando o meu conforto, meu repouso, mas na verdade o que o hospital queria era contornar o transtorno administrativo causado pela fila interminável de amigos que queriam me ver. Muitos oraram por mim… Muito essas orações me ajudaram! Meu filho me dissera um dia, há muitos anos, que eu não tinha amigos… Apenas ouvi!… Quem são meus amigos?… Eu trabalho muitas horas de todos os dias e em muitas das noites, algumas horas… Meus amigos são aqueles que necessitam de mim: meus pacientes!… Amigos de verdade que sempre me pagaram muito bem com a melhor de todas as moedas: MUITO OBRIGADO DOUTOR!… Naquela oportunidade, em 17 anos de baixada santista, eu já tinha 21.321 pacientes cadastrados… Eram estes os meus amigos!…
 ESTE CONTO VERÍDICO ENCONTRA-SE NO LIVRO "Lembranças Médicas" que pode ser comprado pelo site: http://www.bookess.com/read/21419-lembrancas-medicas/