quarta-feira, 29 de abril de 2026

CAMINHANDO NA MESMA DIREÇÃO, SEPARADOS POR UM LINDO RIO...

 

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          Eles se amavam desde ainda muito pequeninos, ainda crianças. Muito se viam, muito se olhavam. Ou melhor, ele a amava desde muito criança ainda, E, mesmo, ainda, ele a olhava muito. Não lhe parece agora que ela o olhasse muito também. Em muitas décadas atrás, quando viviam, o gostoso de um amor que nascia era o flerte.O flerte era a primeira mensagem de um interesse romântico, uma sutil mensagem de desejo sensual. O flerte dava, embora usando inocentemente os olhos, a chance de conhecer a alma, conhecer o coração, conhecer o caráter, a sensibilidade da verdade... uma verdade  mesmo mascarada pelo turbilhão de desejos sexuais que a tesão tentava valorizr. Se não existia o flerte o amor continuava esperando uma forma, um momento de nascer. Hoje, tentando se lembrar, ele recorda que ela nunca olhou direto em seus olhos, ele nunca desfrutou da magia dos lindos olhos de anjo, ele não conseguia a forma mais simples de falar de amor. Embora desejasse em todas as vezes em que se encontravam, ele nunca conseguiu flertar com ela. Mas, a magia de vê-la parecia lhe bastar. E, lado a lado, em margens opostas do rio, eles caminhavam na mesma direção, Ele sabendo querê-la muito e, nada sabendo se ela o queria também.
          Ela era muito bela, ela era muito linda, muito mais do que linda e elegante e,  bastava ela existir para encantar os caminhos, perfumar os ventos, despertar o revoar de pássaros melodiosos e se misturar na dança de múltiplas cores de borboletas errantes. Quando, para testá-la, ele se sentava à beira do caminho, também, do outro lado do rio, ela parava. Ela parava e só voltava a andar quando ele se levantava e, também caminhava. Em muitos destes momentos, embora tentasse, ele não conseguia que ela olhasse em seus olhos.
          Embora morassem nos dois extremos da pequena cidade onde nasceram, eles muito se encontravam. Frequentavam a mesma igreja, o mesmo colégio. Não tenho certeza se se apaixonaram, mas, enamoram-se. Terminavam muito e, novamente se enamoravam. Em cada dos muitos momentos de paixão insegura, os abraços eram reais, os beijos eram reais como reais foram  os filhos, netos e netas também. Mas, quando ele a procurava a quererndo juntinho de si eles se viam caminhando em margens opostas do rio. Casados sim. Diante de Deus não juraram amor eterno como deveria ser... apenas prometeram ao "Senhor De Todas As Coisas", se protegerem mesmo que a morte os separasse..
          Por pouco o casamento não foi destruído muito, muito no início, quando o primeiro filho estava por completar um ano de idade e. com algo mais de dois anos do enlace matrimonial. Como sempre correndo de um plantão para outro, chegando de um hospital para se banhar, jartar e ir assumir outro plantão  na UTI de outro Hospital ele se deparou com um problema. O seu bebezinho de quase um ano estava com febre alta. 
         __Você não vai fazer plantão hoje. Nosso filho está com febre. Não vou ficar sozinha com ele. Você sabe que não temos ninguém aqui no Rio de Janeiro.
          __Espere. Vou ver se consigo alguém para fazer o plantão.
         Depois de muitas tentativas ele não conseguiu ninguém. Naquele tempo ainda não existia celular, teria que contar em encontrar algum colega saíndo de um hospital, ou mesmo, que o colega que ele teria que substituir ficasse, não saísse, dobrasse no plantão. Nada conseguiu. Ele teria que deixar a esposa sozinha com a criança febril. Ela não aceitou, discutiu, mesmo sabendo que a vizinha do apartamento de frente havia se prontificado a ficar com ela naquela noite. Segundo ele, até deu a ideia de levar a criança, junto com a sua esposa, é claro, interná-la na Pediatria e, ao final do lantão no outro dia, dar alta e voltarem juntos para casa. A sua esposa não aceitou. Sob protestos, ameaças e agressões verbais ele saiu em direção ao Hospital onde assumiria o seu plantão na Unidade de Terapia Intensiva.
          Ao chegar, o seu colega se desculpou por não conseguir ajuda. Ele agradeceu. Os funcionários estavam preocupados. Ele era muito querido. Ele ajudava a todos, funcionários e parentes de funcionários. Ele era muito amado e, em nome desta amada gratidão várias Técnicas de enfermagem se ofereceram para irem até o seu apartamento e ficar com a esposa e a criança. Por mais que ele tentasse evitar esta ajuda, a gratidão por sua bondade venceu e uma Técnica, Célia, foi ficar com a sua esposa. Como ele estava muito preocupado ele eceitou e ligou para a sua esposa avisando que ela, Célia, iria. 
         O plantão fora muito tumultuado. Nada diferente do que se esperasse de uma unidade de socorro intensivo. Feliz pelo dever cumprido e, bem cumprido, ele se banhou, trocou de roupa e retornou para o seu lar, ansioso por saber da evolução daquela noite. Mas, estava tudo bem. Assim como viera, a febre fora embora e o bebezinho dormira a noite toda. Quando ele chegou em casa, na cozinha, rindo e contando piadas, Célia, a Técnica de enfermagem e, a sua esposa, tomavam café alegremente. Antes mesmo dele se informar sob a noite,  a esposa dele foi incisiva:
          __  Pague a Célia. Ela é uma profissional, saiu cansada de um plantão e veio fazer o que você não se ligou em fazer...
          __Isto mesmo. Obrigado por ter vindo. Quanto eu devo a você, Célia?
          __O que é isso Doutor? Vocês nada me devem. O que fiz eu farei novamente, sempre que  vocês necessitarem.
          __De forma alguma, Célia, meu marido tem que pagar você...
          __Até mais, senhora, o seu marido ajuda a todos nós muito mais do que você imagina. Nenhuma de nós nunca vai cobrar dele quaisquer que forem os serviços.
          __Não Célia, não. Você não vai sair daqui sem receber...
          E, apesar da insistência dele e, até agressivamente, de sua esposa, Célia saiu correndo sem receber.
          __Por que você a deixou sair sem receber? Você não entra em casa hoje se não pagar aquela moça. Por que ela trabalharia de graça? Você tem alguma coisa a ver com ela?
          __Você viu que ela não quis receber... por que você mesma não pagou a ela?
          __Não quero saber... se você não pagar a ela, hoje você não entra aqui... 
          Onde ele estava errado... ele era bom demais com as pessoas. Todos que o conheciam buscavam uma forma de compensar a sua ajuda recebida em algum dia. Ao sair de casa para outra jornada, entristecido, ele comentou com a senhora vizinha que era muito amiga. A vizinha lhe avisou que seria melhor pagar a moça...
          __A sua esposa está certa. Ela não é uma simples Tecnica de enfermagem. Ela é bonita, simpática, demonstrando liberdade com você, vem trabalhar em sua casa e, não quer receber ... ora, faça-me um favor... a sua esposa e qualquer esposa do mundo desconfiaria de algo entre vocês... 
         E, a vida de meu colega, virou um inferno. A esposa dele estava mesmo muito desconfiada e, injustamente. Quantos o conheciam, aplaudiam o seu caráter, a sua humildade, o seu respeito por todos que o cercavam. Durante muitos dias a esposa cobrava dele e, como a moça nada aceitava, a discussão só não acontecia por que ele apenas não respondia às insinuações. Mas, como desgraça pouco é bobagem, um dia Célia queixou com ele que um Cirurgião Vascular havia receitado para ela uma meia elástica e, por ser cara, ela não conseguira comprar. Ele apenas ouviu. Quando deveria sair para almoçar ele não foi. Ptocurou uma loja especializada, comprou a meia e deu a ela. Em princípio, ela não queria aceitar, mas, como ela já comprara, ela aceitou e até chorou de gratidão. E ele ficou feliz. Acabara de pagar a ajuda dela em sua casa quando o seu filho estava doente. A sua esposa também ficaria mais despreocupada, certamente. Mas, não... não!!! Não???
          Sabendo que havia solucionado a dívida que a sua esposa tanto queria ver resolvida, ele, ao anoitecer, cansado, sem almoço, mas, feliz ele entrou em casa e correu para o quarto do casal onde ela terminara de dar banho no bebê e o vestia carinhosamente...
         __Você pagou a Célia?
         __Sim. Até que enfim ela aceitou o pagamento...
        __Quanto você deu a ela?
        __Eu dei a ela uma meia elástica para varizes...
Antes que ele terminasse de falar a sua esposa lhe deferiu um inesperado e violento soco no rosto que o desequilibrou e o jogou ao chão. Na queda ele ainda bateu a cabeça na mesa de suporte da TV.  Ele demorou a se levantar. O seu corpo jovem pareceu envelhecer décadas, ainda no tapete do quarto..Em seu ombro pesavam o ódio, a raiva, a vergonha, o machismo e a indignação por um ciume tão imbecil. Em frções de segundos o instinto de defesa o preparou para devolver o soco em com toda a energia que o seu ódio exigia. Mas, Deus é perfeito, muito perfeito. Ao se levantar lentamente, o ódio, a raiva, a vergonha e o machismo deslizaram pelo seu corpo abaixo e ele nada fez. Se o tivesse feito, ele teria destruído o casamento, não teria visto aquele bebezinho que fora testemunho de tamanha ignorância crescer, não teria conhecido o outro filho, nem netos e netas. Ele se sentiu leve, mas, o rio pareceu ter ficado mais largo, as margens mais distantes... e, continuaram caminhando na mesma direção.
A cada década, o rio se tornava mais largo. Ela jogou os filhos deles contra todos os seus irmãos, inclusive por duas vezes ela não permitiu que a irmã dele entrasse no apartamento, mesmo tendo viajado de muito longe. Ele, ao contrário, sempre amou e idolatrou a família dela, recebendo a todos sempre com com prazer, dignidade e hospitalidade. Por ele, os dois estariam na mesma margem do rio. Por ela o rio ficava cada vez mais largo. Mas,, pelo bem da família, eles continuam caminhando na mesma direção.

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